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A Luta de Classes

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A teoria socialista tem como base fundadora o conflito entre a burguesia e o proletariado. O desenvolvimento europeu no pós-guerra provocou uma reificação do marxismo, uma alteração de sua natureza, de modo a refletir um mundo onde a escassez já não era tão visível e o estado do bem estar social havia mitigado as diferenças dos tempos da Revolução Industrial. O regime soviético fazia água aos olhos da maioria e já não era possível negar a forma totalitária do comunismo.

Para manter a teoria de pé, era necessário apontar novas espécies de divisões sociais, de modo a preservar uma ideologia que era tão cara a tantos. O jovem Marx foi resgatado e substituiu o aborrecido, mas bem mais consistente, Marx economista de O Capital. Movimentos feministas, negros, hippies, LGBT gradualmente tomaram o lugar da velha luta de classes, que ainda remanescia, mas com muito menos vigor.

Essas ideologias provocaram novas divisões na sociedade e nem sempre contribuíram para a causa que ostentavam defender. Diz uma antiga ex-feminista que seu movimento nasceu fazendo a defesa da mulher de classe média-alta, instruída e branca, ou seja, era essencialmente um movimento de elite, mas que ainda assim encontrou seu lugar no liberalismo de costumes dos anos 1960 e 1970 como um subproduto do marxismo.

As divisões sociais inventadas a partir da derrocada do comunismo não passaram despercebidas pela esquerda, que tratou de instrumentalizá-las, transformando os novos grupos minoritários em eleitores potenciais. De certa forma, a estratificação da sociedade em subclasses criou, com o tempo, um reflexo condicionado, uma forma automática de lidar com os fatos cotidianos.

Se um homem agride uma mulher, a humanidade da agredida submerge em face de seu gênero, de modo que o fato passa a ser tratado como uma classe: “a agressão da mulher pelo homem”, em oposição à agressão de um ser humano por outro. Da mesma forma, quando um negro é assassinado, o que perpassa o noticiário é o racismo da sociedade, independente das motivações do crime.

Como já me referi acima, esse modo de pensar, essa consciência coletiva, esse arquétipo junguiano tomou conta das discussões políticas e sociais. A esquerda pode ter sido afastada do poder, mas é certo que ela ainda dá as cartas na identificação e classificação dos eventos  contemporâneos.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma narrativa adequada à esquerda para o depoimento do zelador do triplex do Lula. Como os aporéticos devem ter acompanhado, José Afonso Pinheiro, o zelador do triplex, depôs na última sexta-feira e se indispôs com os advogados de Lula.

De um lado estava um negro, pobre e trabalhador, o que faz ligar uma série de reflexos condicionados na intelectualidade bem alimentada. Advertido pela OAS de que deveria negar em depoimento à polícia que o triplex pertencesse à Lula, Afonso preferiu dizer o que sabia. Foi demitido, perdeu seu teto e deixou de dar sustento e proteção a sua família. Convidado a ser candidato nas eleições de 2016 pelo PP, concorreu a vereador como Afonso do Triplex, mas perdeu as eleições. Do outro lado estava o caríssimo advogado de Lula, branco, de classe alta, bem formado, ponderado, de linguagem escorreita.

Perguntado sobre as visitas de Lula, Afonso confirmou os fatos já narrados em depoimento na PF. Disse que ex-Presidente esteve no triplex por duas vezes, que era tratado como proprietário, que mostrara a D. Marisa as áreas comuns e reproduziu algumas falas da mulher de Lula.

O advogado de Lula buscou atacar a credibilidade de Afonso a partir de sua candidatura a vereador. O ex-zelador se irritou com as perguntas que buscavam tisnar sua honra e reagiu prontamente com a voz visivelmente alterada: “Posso falar o que vocês são? Vocês são lixo, lixo. Isso que vocês são”. Como expôs em seu depoimento, o ex-zelador foi colocado em uma situação impossível: se mentisse à polícia, poderia estar cometendo perjúrio; se relatasse os fatos, poderia ser demitido. Os caminhos eram difíceis e nenhum deles lhe parecera promissor. Se pudesse escolher, Afonso preferia ter ficado à margem dessa história.

Se fosse outro o contexto, o representante da elite branca estaria sendo apedrejado e açoitado em público por ousar atacar não uma pessoa, mas uma categoria social, o homem negro, pobre e trabalhor, um oprimido, despossuído e merecedor da proteção do Estado. Mas não. O que se ouve por aí é silêncio, na maioria das vezes, e pós-verdade (novo nome para mentira).

Luis Nassif publicou em seu blog um texto tratando do assunto. Já na segunda frase percebe-se uma distorção dos fatos: “…, além de chamar os políticos de lixo, não apresentou nenhuma prova para sustentar as afirmações dos promotores contra Lula”. Ora, o ex-zelador não chamou “os políticos de lixo”; lixo era Lula, seu advogado e as pessoas que os cercam. Já o Diário do Centro do Mundo, outro conhecido reduto da esquerda, reconheceu quem Afonso chamara de lixo, tanto é assim que foi noticiado que a banca de Lula cogita processar o ex-zelador por esses termos. Dois blogs, duas versões.

Por não saber como lidar com um depoimento contundente do representante de uma minoria que o esquerdismo diz defender, resta atacar a honra pessoal, a imagem do trabalhador negro, em revelação transparente de que é melhor salvar as aparências a ser fiel às categorias que sustentam suas teses. Entre a salvação pessoal e a preservação da verdade parece não haver hesitação sobre o caminho a tomar.

Aconselhava o conservador Burke a “nunca separar por completo os méritos de qualquer questão política dos homens envolvidos nela”. A forma como esse episódio está sendo tratado revela, como desconfiávamos, a natureza instrumental, descartável, sujeita às conveniências, dessas teses que professam a defesa das minorias. As ideologias, desconfie profundamente delas. Sobre os homens envolvidos nesses fatos, já temos elementos suficientes para julgá-los.

Gustavo Theodoro

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O Julgamento da História

França Revolução

O julgamento do impeachment desmembrou a aplicação da pena em duas votações. Uma delas garantiu a Dilma Rousseff o direito de ocupar função pública. O Senador Lindbergh Farias foi perguntado sobre o futuro político de Dilma. Lindbergh disse que o que estava em jogo não era o futuro de Dilma, mas sim o julgamento da história.

Há uma obsessão no momento sobre como o processo que levou ao impeachment da ex-Presidente Dilma será retratado pelos livros de história. Os defensores da tese de que houve golpe parecem se satisfazer com a perspectiva de que, em algum momento futuro, os historiadores julgarão o afastamento de Dilma como golpe. Não sei se percebem de que tradição de pensamento eles são herdeiros.

Homero seguia a tradição do pensamento grego, sendo a história a forma de ressaltar os heróis e seus feitos. A obsessão dos gregos por ser “o melhor” (aristói), por ser o ator responsável pelos grandes feitos e por proferir grandes palavras foi muito bem retratada por seus historiadores.

Os contos morais prevaleceram na sociedade romana, seguindo a tradição dos mitos, em que a história servia como pano de fundo das mensagens morais. Havia ainda os panegíricos envolvendo autoridades políticas e eclesiásticas. Mas raramente imaginava-se que a história teria um sentido político. A tradição grega era tomada pelos romanos como herança civilizatória, retratando os pensamentos fundadores da cidade, realçada pelos mitos.

Foi só no século XVII, com o Iluminismo, que Hegel escreveu sua Filosofia da História, retratando-a como uma série de eventos que teriam origem causal, descrevendo a evolução da sociedade. Hobbes e Maquiavel tentaram construir uma ciência política, previsível e domesticada, com a sistematização de regras comumente observada nos eventos políticos para dar previsibilidade à ação humana. Apesar de serem, em especial Maquiavel, continuamente citados até em tempos modernos, suas tentativas fracassaram. A política segue imprevisível e a ação humana continua a fazer diferença.

Marx trouxe o conceito de Hegel para sua teoria e, com base no passado, no sentido da história, propôs-se a “prever o futuro”, declarando o fracasso do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Percebendo que o tempo passava e a história não se encerrava, Marx, que não acreditava na violência como método de ação política, passou a ansiar pelo sucesso dos trabalhadores na revolução de 1848 na França. A burguesia moderada se aproveitou do movimento para derrubar a monarquia e assumir o poder. Ainda não havia chegado o momento do proletariado. O ponto de interesse é que Marx imaginou que aquela revolução poderia “acelerar” os acontecimentos. Isto só poderia decorrer da reflexão de quem realmente acreditava em um sentido para a história.

Na Revolução Bolchevique de 1917, a preocupação deixou de ser apenas o futuro. Se a história tem um sentido, um começo, um meio e um fim, era necessário adequar os fatos do passado para dar sentido aos eventos futuros. Como disse George Orwell, em 1984, o regime soviético era regido pela máxima: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Ora, se a história tem um sentido, basta adequar o passado para que o futuro desejado por um determinado grupo político se realize.

Talvez por isso considero curioso o posicionamento do Senador Lindbergh, por identificar de forma muito precisa a corrente ideológica a que esse pensamento está vinculado. E mais: se estamos mesmo em um ambiente democrático, em que as pessoas manifestam suas opiniões livremente, não há esforço dos políticos que poderá, de fato, levar os historiadores do futuro a adotar tal ou qual julgamento histórico.

Os fatos ainda estão em andamento e é impossível realizar julgamentos históricos sem o distanciamento temporal. Importa mais, para cada um de nós, continuar a seguir os ensinamentos kantianos e julgar os fatos cada um por si mesmo. Além disso, soa patético preocuparmo-nos com o julgamento de historiadores, imersos que estamos na contemporaneidade. Mais importante é continuar abertos aos debates, respeitar as manifestações divergentes e buscar acordos que nos permitam conviver em sociedade, pois quem costuma ganhar com esse acirramento de posições são os radicais. E já não é possível ignorar a existência deles.

Gustavo Theodoro

Extremismo Político

Le Pen

Escrevi diversos textos críticos aos governos petistas nos últimos anos. Não fui condescendente com o comportamento do restante da esquerda que seguiu a reboque do PT, mesmo com sua adesão ao mesmo jogo político praticado pelos demais partidos.

Sempre entendi que havia um mundo era muito mais complexo do que a disputa entre categorias abstratas “esquerda e direita” ou, aplicando especificamente a nosso caso, entre petistas e anti-petistas. Mas a crise que levou ao impeachment praticamente extinguiu a ponderação das pessoas. A razão sucumbiu definitivamente diante das paixões.

Tem sido exigido da esquerda que apoie incondicionalmente a tese do golpe. Dos críticos ao petismo, exige-se a defesa do Governo Temer, “pois só assim se pode evitar a volta do PT”. Jucá, Geddel, Moreira Franco, Eliseu Padilha e Picciani assumem ministérios e quase não se nota crítica dos que foram para rua pelo fim da corrupção.

O Ministério da Cultura foi extinto. Há diversos argumentos que poderiam sustentar essa fusão com a área de educação. Mas o que se tem visto são argumentos defendendo o fim do financiamento público da cultura. Para isso, alguns casos emblemáticos são usados para sustentar essas teses.

A discussão do financiamento da cultura é difícil e complexa. Mas o novo Governo sequer falou em extinguir a verba para financiamento cultural. O que havia sido anunciado até então era apenas o fim da pasta, sem que a discussão tivesse avançado para o tema da necessidade de cortes de recursos.

Pronto. Foi suficiente para que a área cultural reclamasse, o que é postura absolutamente normal em ambientes democráticos. Cada grupo de pressão e de interesse deve mesmo se pronunciar sobre os seus assuntos. Os incendiários então entraram em ação.

A esquerda que tem disseminado a tese do golpe passou a denunciar o fim do financiamento da cultura. A perda da razão, no entanto, não escolheu lado. Imediatamente outro grupo barulhento passou a denunciar os artistas como parasitas estatais. A difícil discussão da aplicação de dinheiro público na cultura ficou restrita a chavões, palavras de guerra e “memes”. Em um ambiente assim, como podemos nos entender?

Apesar de os nomes para a economia terem respaldo do mercado, o restante do ministério de Temer foi forjado a partir das mesmas técnicas utilizadas nos governos anteriores: indicações de partidos buscando, quase que tão somente, maioria no congresso. O líder do governo na Câmara era da tropa de choque de Eduardo Cunha, é investigado na Lava Jato e tem sobre si acusação de tentativa de homicídio.

Não entendo o porquê de pessoas de bem defenderem esse “novo” governo apenas porque não gostam do PT. É direito de todos não gostar do PT. Argumentos teleológicos, finalísticos, quando resultados se colocam à frente de princípios, nunca me emocionaram. Seja qual for o resultado, apoio à canalha não nos enobrece. Se muitos diziam não ter “bandidos de estimação”, em uma referência aos petistas que seguiram defendendo os condenados no mensalão, agora é momento de demonstrar isso.

Há, ainda, outro incômodo que pretendo trabalhar mais nos próximos dias: a polaridade que engessa e conduz os lados em disputa a acirrarem suas posições. O exemplo venezuelano deve ser estudado com muito cuidado. A radicalização do país está prestes a produzir uma guerra civil. E foi o acirramento dos discursos que os levou a esse ponto.

Assim com a esquerda não precisa necessariamente se aliar aos pensamentos marxistas e trotskistas, nem necessariamente adotar os subprodutos culturais dos anos 1970, tampouco a direita precisa se conformar em seguir líderes xenófobos, machistas, violentos e nacionalistas.

Se de um lado a esquerda acabou se confundindo com o panfletário movimento de 1968, que atualizou conceitos do jovem Marx para utilizar seus arquétipos e criar novas “classes”, denominadas a partir de então de “minorias”, a direita não deixou por menos. As ideias de economistas austríacos foram apropriadas para se transformar em novos preconceitos nas mãos de políticos midiáticos, como Thatcher e Reagan.

O fim do comunismo criou espaço para aproximação de tendências, algo até verificado em alguns países da Europa e, de certa forma até no Brasil, quando muitos identificavam semelhanças nos dois principais partidos do Brasil, o PT e o PSDB.

O século XXI, no entanto, promoveu acirramento das divisões. Nos EUA o Tea Party levou a direita americana a outro patamar. Em quase todos os países europeus uma nova direita começa a dar as caras, reintroduzindo o nacionalismo e conceitos de raça na agenda política que tem como fundamento a xenofobia e o egoísmo.

No meio desse tiroteio, quase não sobra lugar para a socialdemocracia de formulação europeia, baseada no livre mercado, mas com garantias de direitos básicos a todos os cidadãos. É de se notar que essa socialdemocracia, apesar de ser usualmente identificada como fruto do pensamento moderado de centro-esquerda, apresenta diversas ligações com os pensadores liberais, no sentido inglês do termo. A começar por Locke, Mill, mas principalmente com os pensadores do século XX, que conviveram com o fascismo e com o comunismo, foi formulado um conjunto de ideias que estão na base de uma direita moderada, que presa a liberdade acima da igualdade, que acredita no livre mercado e na livre iniciativa, mas que atribui considerável papel para o Estado como necessário a garantir os direitos mínimos aos cidadãos.

A partir de 1989, com o fim do comunismo, imaginou-se que as divisões se dariam basicamente em torno do tamanho dos mecanismos de compensação utilizados, ou seja, o quanto de igualdade o Estado iria garantir sem impor demasiados limites à liberdade. O que se vê, no entanto, é um resgaste do feminismo, dos mitos dos bons selvagens, no valor da “mistura de raças” como elementos de valor, de um lado, e xenofobia, revisionismo histórico e excesso de pragmatismo de outro.

O radicalismo a que assistimos no Brasil está muito longe de ser caso isolado. Costumo dizer que quase sempre as explicações são locais, mas os fatores indutores da história são globais. Ou seja, o choque do petróleo dos anos 1970 e 1980 gerou desequilíbrio que desaguou em hiperinflação em diversos países. Governos caíram, assim como ditaduras. Nos anos 1990, quase todos os países da américa latina venceram a guerra contra a inflação. Governos se tornaram populares.

Nos anos 2000, tivemos a maior fase de crescimento da história mundial, pelo menos até 2008. Os governos locais acabaram sendo beneficiados, sendo muitos deles prolongados. A quebra das subprime levou crise aos países que passaram a substituir seus governos. Agora vemos a onda de radicalismo que essas crises, em grande parte, provocaram.

Assim, quando vejo nascer um movimento de apoio incondicional ao Governo Temer, quando me incitam a fechar os olhos aos Jucás e aos Geddeis, pois senão há risco da volta do PT, lamento, mas nessa escolha prefiro ficar com os princípios ao pragmatismo de boteco.

Eu sei que o período que passamos foi duro, o PT se excedeu na mentira e na manipulação e que todos gostariam que tivéssemos entrado em um “novo amanhã”, uma fase macia e doce, onde mel jorra nos campos e os pássaros cantam.

Mas vejam. Apesar das boas escolhas para a área econômica, houve pouca mudança na composição da base aliada e do próprio ministério. Alguns ministros, inclusive, passaram menos de vinte dias fora do governo, mal tendo tempo de trocar a cor da gravata.

Aí vão de dizer que eu não me contento com nada e que é necessário suportar o mal passageiro para se obter um bem maior. Diria Platão que o bem não será obtido a partir do mal. Vejam, o líder do governo recém escolhido está sendo acusado de tentativa homicídio. “Ah, mas é necessário garantir a governabilidade”. Sei não. Bom, o texto ficou longo e acabei não abordando todos os assuntos que pretendia. Volto ainda para falar sobre essa direita que está se apresentando no Brasil, a direita de Bolsonaro, que homenageia torturador e se vangloria disso.

Eu sei que não estou muito otimista. Mas é como dizia o mestre Pessoa: “O emprego excessivo da inteligência, o abuso da sinceridade, o exemplo da justiça, são qualidades que não permitem nenhuma ilusão de felicidade.” Ele sempre parece estar certo.

Gustavo Theodoro

O Novo Capital

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A última moda é comentar o livro de Thomas Piketty (será lançado no Brasil pela Intrínseca com o título O Capital no Século XXI), que tem causado alvoroço na imprensa e provocado embates acirrados entre progressistas e conservadores. Segundo todas as resenhas que li, o livro é bom, tem pesquisa rigorosa e merece a atenção que lhe tem sido conferida. Os direitos para sua publicação aqui no Brasil já foram negociados, mas seu lançamento em português ainda deve levar alguns meses.

O livro de Piketty destaca o aumento da desigualdade entre ricos e pobres verificado nos países centrais. Houve um pico de desigualdade entre o final do século XIX e início do século XX, que foi revertido após a Primeira Guerra Mundial. Segundo Piketty, a onda de liberalismo inaugurada por Thatcher e Reagan aumentou novamente as diferenças sociais em termos muito parecidos ao pico verificado no período de 1900 a 1913.

Foram levantadas poucas críticas ao diagnóstico de Piketty. Sua pesquisa foi bem elaborada e suas conclusões parecem estar corretas; pelo menos quanto ao diagnóstico. Já as suas propostas merecem um exame mais detido. E o debate de suas teses no Brasil demanda considerável ajuste de perspectiva, visto que a situação aqui é bastante diferente da constatada nos países centrais.

A solução para o problema do aumento da desigualdade, na visão de Piketty, passaria pelo aumento da progressividade nos impostos sobre a renda e sobre a herança. Em alguns casos, a proposta é que a tributação atinja 80% da renda auferida ou do patrimônio transmitido.

Os EUA são o palco ideal para as discussões propostas por Piketty, já que o Partido Republicano, desde Reagan, tem defendido a tese de que os mais ricos devem ter uma tributação menor, visto que são eles os responsáveis pelos investimentos que geram o efeito multiplicador na economia. Nessa visão, a geração de empregos e o crescimento do país dependem de uma tributação mais favorável àqueles que auferem maiores lucros e acumulam capital.

Culturalmente, os americanos relacionam a capacidade de ganhar dinheiro ao mérito pessoal. Assim, aqueles que enriquecem teriam vencido em sua sociedade, enquanto os que ficaram para trás são taxados de loosers (perdedores). Neste cenário, impor maior taxação aos mais ricos seria equivalente a punir o mérito.

Lançada a tese, a sociedade americana se dividiu instantaneamente. Economistas liberais (no sentido americano) tais como Stiglitz e Krugman imediatamente apoiaram as ideias de Piketty. Analistas conservadores consideraram as ideias de Piketty mais uma tentativa de intelectuais franceses de trazer o socialismo para o solo americano. Ou seja, lá, como aqui, o debate segue com boa dose de irracionalidade, com os grupos se alinhando automaticamente a seus velhos e confortáveis conceitos.

Aqui no Brasil já temos visto a esquerda se alinhando às ideias de Piketty, saudando-o como o legítimo representante da nova esquerda. Rodrigo Constantino escreveu na Revista Veja desta semana um ataque ao livro de Piketty bem ao gosto dos conservadores americanos, acusando-o de comunista e de seguir a cartilha de Marx. Não se pode esperar mesmo muito do Constantino.

É bom que importemos este debate para o Brasil, ainda que seja necessário ressalvar que nossa situação é totalmente diferente da dos países centrais. Aqui, desde 1994, a desigualdade entre ricos e pobres vem caindo continuamente. Portanto, a principal premissa de Piketty não se aplica à nossa realidade. Em razão disso, a discussão de suas teses, aqui no Brasil, deve ser muito mais cuidadosa.

No entanto, há algo na proposta de Piketty que deve nos interessar: o aumento da progressividade dos impostos diretos. Como já me referi em colunas anteriores, o país não é só injusto: é pobre também. Aqui, os 5% mais ricos tem renda mensal na faixa de R$ 10 mil reais (segundo os órgãos oficiais). Logo, devemos ter sempre muito cuidado quando propomos tributar os mais ricos. A classe alta assalariada já é submetida a uma carga bastante elevada.

Há espaço para a adaptação das teses de Piketty para o Brasil. Somos um país que tributamos excessivamente o consumo. E tributamos pouco algumas rendas e patrimônio. Nosso IRPJ apresenta alíquota máxima de 15% – porta usualmente utilizada pelos empresários e pelos banqueiros para auferir suas rendas – enquanto a pessoa física assalariada está submetida a uma alíquota de até 27,5%. O IPVA não incide sobre embarcações e aeronaves. O ITR dos grandes latifúndios é irrisório se comparado ao IPTU e ao IPVA. E os impostos sobre herança são muito inferiores aos praticados pelos países desenvolvidos.

Se a discussão das propostas de Piketty nos levar a uma análise técnica de nossa tributação sobre o patrimônio e a renda, será vantajoso para o Brasil a importação deste debate. Se continuarmos tratando apenas do conflito de classes, utilizando os velhões chavões marxistas (elite x trabalhador proletariado) ou os igualmente velhos chavões do Partido Republicano americano (que transforma pessoas em vencedores e perdedores), não traremos nenhum ganho dessa discussão.

Infelizmente, o livro está sendo lançado em um período de acirramento eleitoral (tanto nos EUA quanto no Brasil), o que nos faz crer que dificilmente obteremos efeitos positivos da discussão sobre os instigantes diagnósticos trazidos pelo livro. Pretendo acompanhar os debates por aqui e talvez volte ao tema daqui a alguns meses.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda – Nacionalismo

 

Um dos fenômenos mais complexos nesta tentativa de diferenciação entre a esquerda e a direita diz respeito ao nacionalismo. Como se sabe, é causa antiga da esquerda mundial o fim dos Estados-Nação tal como os conhecemos. Já na Revolução Francesa havia sido identificado forte relação entre os Estados com a aristocracia, a realeza e o clero. O fim dos Estados prometia o fim das classes privilegiadas.

Volto a Marx, não é por gosto, mas pela influência que ele teve no pensamento dos séculos XIX e XX. Hoje ele já não é tão relevante, mas para o filósofo que pretende colocar os dias atuais em perspectiva, torna-se difícil não citá-lo. Marx não acreditava no Estado. Para Marx, a ditatura do proletariado – que seria a etapa intermediária rumo à sociedade sem classes, naturalmente alcançada com o esfacelamento do capitalismo – teria por objetivo a destruição da burocracia estatal e dos instrumentos de dominação do Estado (polícia e exército). Ainda voltarei a este ponto específico quando tratar do movimento anarquista no futuro. Registre-se, no entanto, a informação de que, para Marx, a ditadura do proletariado dispensaria a existência do Estado.

Na sociedade utópica descrita por Marx, o nacionalismo seria tratado como uma doença ou como um substituto da religião como o ópio do povo. No início do século XX, havia diversas correntes marxistas, algumas das quais propunham uma releitura da obra de Marx, condescendendo com a existência do Estado desde que ele fosse democrático, igualitário e garantisse que fossem satisfeitas as necessidades básicas do homem. Eram os sociais-democratadas aparecendo para o grande público. Na visão deste novo grupo político, era admitido o Estado uma vez que a aplicação das teorias marxistas não seria tão radical.

Os conservadores, em geral, sempre foram fortemente vinculados às tradições e à herança cultural recebida. Só por isso era, para eles, inaceitáveis teses que propusessem a extinção dos Estados-Nação.

Ou seja, no início do século XX, o quadro se apresentava da seguinte forma: os conservadores eram nacionalistas-patriotas, os sociais-democratas admitiam a existência do Estado e os comunistas e anarquistas clamavam por um mundo sem Estado e sem pátria. Como a social-democracia angariou apoio de boa parte da esquerda europeia, foi contra ela que se voltaram os comunistas.

Lenin, ainda durante o ano de 1917, dada a grande influência menchevique neste ano, escreveu com escárnio que todos os sociais-patriotas (não riam) são agora marxistas. Sim, a renhida guerra de opiniões dividia os corações. Foi essa divisão que levou os comunistas alemães, em 1932, a não apoiar os sociais-democratas, abrindo espaço para a tomada do poder pelo Nazismo.

O mundo sem Estado e sem pátria ensejou até o surgimento um hino à união dos povos, a tão celebrada Internacional Socialista. O mundo novo que emergiu da queda do muro de Berlim provocou um terremoto nos tão estáticos conceitos formulados no início do século passado. É certo que já se via sinais de confusão entre os grupos, visto que liberais defendiam a redução de barreiras comerciais e grupos de esquerda defendiam a estatização de empresas privadas (nada menos marxista do que isso).

É neste mundo do avesso, órfãos de tradição e continuidade, que devemos nos guiar tal como cegos de ideologias. É como se aqui nos tivessem colocado sem nenhuma herança pretérita. Sim, o jogo que se pratica atualmente é outro. A direita, liberal, ainda se diz nacionalista e patriota, mas costuma aprovar a desnacionalização das empresas (ainda que seja mais xenófoba, mais resistente à presença do imigrante estrangeiro). Já a esquerda, que por séculos rejeitou o Estado, o nacionalismo e o patriotismo, agora inverteu totalmente sua posição, sendo forte defensor da ação do Estado na economia, inclusive com a propriedade dos meios de produção. Mais surpreendente ainda é que os empregados das empresas públicas estão hoje no lugar que antes era ocupado pelos burgueses da literatura marxista.

Não quero me alongar no assunto. Não poderia, no entanto, deixar de fazer uma pequena provocação com relação à reedição da pátria de chuteiras, tão cara ao movimento militar, que se utilizou da Copa de 1970 para reafirmar a força do regime. Ora, militares são mesmo nacionalistas e não chega a surpreender essa postura.

Há desde o ano passado um movimento nas ruas, filho das manifestações de junho de 2013, que se identifica pelo slogan “não vai ter Copa”. É uma reação contra os gastos incorridos na construção de estádios e nas diferenças entre as exigências da FIFA (o chamado padrão FIFA) e o nível dos serviços públicos fornecidos pelo Estado. Os partidos de esquerda reagem contra esse movimento como se ele fosse contra o Brasil ou como se ele torcesse pelo quanto pior melhor. E para defender a realização da Copa no Brasil se utiliza dos mesmos argumentos a que os militares recorreram. Haja intérprete para entender essa realidade. Já estou considerando que exigir alguma coerência dos grupos políticos contemporâneos é vício inútil de quem se apegou à lógica como referência para o pensamento.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda IV

                Como havia prometido, passo a tratar dos sintomas de uma doença que contaminou o ambiente político brasileiro, mas que nasceu na Europa do século XX. Havia uma sensação entre nós, logo após a democratização, de que as pessoas boas, bem intencionadas, eram de esquerda, enquanto a direita era bem representada por ditadores, facínoras, empresários inescrupulosos, banqueiros corruptos e por políticos da ARENA. Ao contrário do que pudesse parecer, este não era um fenômeno nacional.

                Com o fim da possibilidade de opor o proletariado à burguesia, novos parâmetros foram postos em seu lugar. Este movimento teve início no século passado, mas segue a todo vapor neste novo milênio.

                O socialismo foi tido por boa parte da intelectualidade europeia do século XX como o representante dos valores humanistas. Ora, quem é contra defender a pobreza, a solidariedade e a igualdade, não é mesmo?

                Mesmo a solução proposta por Bobbio, de certa forma, nos induz a considerar os simpatizantes dos ideais de livre mercado insensíveis às distorções ligadas ao capitalismo, principalmente no que tange a sua característica de gerar desigualdade. Ainda vou analisar mais a fundo estas questões ligadas à igualdade, pois é um dos conceitos que mais sofrem com a guerra política que se estabeleceu nos dias atuais.

                O certo é que o socialismo e a esquerda venceram a batalha de opiniões travada no século XX, mesmo com o capitalismo se mostrando muito mais capaz de produzir riqueza e inovação do que o socialismo.           Isto levou William Harcourt a dizer, no início do século XX, a seguinte frase: somos todos socialistas. Nos anos 1980, poderíamos proferir sentença semelhante aqui no Brasil: éramos todos de esquerda.

O pensamento da época era mais ou menos o seguinte: se os socialistas são humanistas, se são eles os defensores do bem, da solidariedade, da igualdade, quem é contra estes conceitos só pode encarnar o mal radical, o egoísmo, o hedonismo e a ambição desmedida.

                Para agravar o quadro, a esquerda herdou o discurso da divisão da sociedade da Revolução Francesa e da adaptação a esses conceitos feita por Marx no século XIX. Antes do fim do bloco soviético, os socialdemocratas eram os novos representantes da burguesia, o inimigo a ser batido.

O mito do bom selvagem adentrou o espaço político ocidental, o que ajudou a criar toda a sorte de preconceitos contra o homem civilizado e educado. O europeu era prontamente identificado com o opressor imperialista. Esta forma de pensar autorizou Sartre a dizer que abater um europeu é matar dois pássaros com uma só pedra… obtém-se um homem morto e um homem livre. Marx jamais concordaria com tal assertiva.

Nos anos 1970s, vimos surgir com força uma nova esquerda, pautada nas ideias de divisão da sociedade. Vimos o surgimento das doutrinas feministas. Os Panteras Negras e os demais grupos raciais deram nova cara ao movimento negro (que começou de forma legítima e espontânea como movimento de resistência a uma discriminação estatuída por lei). O movimento gay ganhou força nos anos 1980s. Este é o embrião da nova esquerda. Com a queda do comunismo, estas teses marginais de divisão da sociedade assumiram um protagonismo que antes era totalmente ocupado pelas questões econômicas.

A velha crítica de Marx à alienação adentrou neste novo discurso, impedindo que uma mulher seja apenas uma mulher: ela deveria ser, antes de tudo, engajada, ligada aos seus movimentos em defesa da mulher, deveria ser favorável ao aborto e a favor das cotas nas atividades com predominância masculina.

É nesse contexto que os princípios da igualdade e da liberdade passaram por uma releitura, fazendo com que nova ponderação fosse a eles atribuída e criada a obrigatoriedade de que uma pessoa de um grupo social não seja apenas uma pessoa, mas que ele ocupe o papel social das minorias.

De certa forma, esta nova pauta traz consigo a reconfiguração das lutas que mobilizam as pessoas em grupos distintos. E cerceia a liberdade da pessoa enquadrada em algum grupo minoritário sujeito ao ativismo político, não dando a ele possibilidade de se alienar (segundo jargão marxista). Ou seja, se um negro passa a apresentar o Jornal Nacional, ele deve ostentar a defesa da causa negra. Se uma mulher escreve uma coluna em um jornal, ele deve ter as ideias corretas.

Isto lembra-me a velha crítica da esquerda ocidental aos intelectuais que lutavam por liberdade sob a cortina de ferro soviética. Lembro aqui uma declaração de Jan Kavan, diplomata nascido na Inglaterra, mas filho de Tchecos, acerca dessa crítica: “Os meus amigos da Europa Ocidental têm me dito que estamos apenas lutando por liberdade democrático-burguesas. Mas não consigo distinguir entre liberdades capitalistas e socialistas. O que reconheço são as liberdades humanas básica.”

O que resta dessas reflexões é determinar se os direitos das minorias devem se sobrepor aos direitos básicos da pessoa humana, se ainda faz sentido retratar como de direta aquele que luta pelo direito de todos, sem fazer as distinções das pessoas em grupos sociais, tal como nos é cobrado desde a inauguração deste novo fenômeno político e se ainda se justifica a disseminação o preconceito contra as elites, os empresários, os banqueiros, preconceitos esses que foram colocados no lugar dos demais preconceitos observados comumente na sociedade.

Gustavo Theodoro

Outro Mundo é Possível

Não é sempre que será possível seguir em linha reta neste blog. A realidade é difusa, o conhecimento é espraiado, as referências são inúmeras. Nos encontramos sobre longa tradição de pensamento e, ao lado disso, temos uma sociedade e um mundo complexos, cuja interpretação dificilmente será a definitiva e única. Por isso, dou um passo atrás na análise dos termos direita e esquerda para tratar de um dos temas caros à esquerda dos dias atuais: pode o homem se reinventar criando um mundo novo? Ou, nos termos do lema do Fórum Social Mundial, outro mundo é possível?

Os leitores deste blog provavelmente perceberão com o tempo que eu gosto muito de fazer perguntas, mas as respostas quase nunca são dadas diretamente. Em alguns casos, nem serão dadas. Importa-me mais a discussão, a elucidação do contexto em que as questões são colocadas, do que a conclusão propriamente dita, o julgamento do assunto. No entanto, deixemos essas digressões de lado e tratemos de enfrentar o tema.

A ideia de construir um mundo novo, livre das mazelas humanas, é relativamente recente. No passado, foi provavelmente Platão quem primeiro imaginou um mundo que não fosse tão imperfeito como o nosso, tendo proposto que o nosso aprendizado nos aproximaria dele (teoria das reminiscências). Ainda no campo metafísico, as religiões erigiram mundos muito mais perfeitos do que o nosso, cujo ingresso de nossas almas dependeria de condições e escolhas de cada um sujeitas a um julgamento moral.

O mundo em que vivemos era, portanto, reconhecido como palco de misérias e sofrimento que só seriam redimidos após a morte desde que virtuosas escolhas fossem feitas durante a vida.

Com o progresso da ciência, houve uma mudança de ambiente na humanidade. Para retratar esta mudança, cito os versos de Ulrich Von Hutten, datados de pouco depois de 1500, tratando do avanço das ciências:

“Ó século, ó ciências!

                É um prazer viver.

                O saber floresce, e os espíritos agitam-se.

                Barbárie, pega na tua corda e prepara-se para o exílio!”

Sim, parecia que o progresso científico poderia modificar o próprio homem e suas sociedades. A ideia do homem criando a si mesmo está na base do pensamento hegeliano e marxista. E este conceito está também na base de todo o humanismo de esquerda. No entanto, Hegel era um idealista; nesse sentido, o homem só poderia criar a si mesmo por meio do pensamento. Já Marx virou ao contrario o idealismo de Hegel, elegendo o trabalho como protagonista desta criação.

O que no século XIV começou como uma crença na ciência e em seu poder de dar fim à barbárie, no século XIX parecia bastante possível que o progresso atingisse o humano e suas relações sociais, a ponto de nos transformar em pessoas moralmente superiores e as sociedades em repositório de igualdade e colaboração.

Sei que estou abordando a velha questão da possibilidade da evolução moral do homem, e a quantidade de vezes que cito antigos textos dá uma dica de minha forma de pensar, mas não é nesse ponto a que quero me ater.

É interessante observar que, apesar de Hegel considerar possível a formação de um novo homem, ele ao mesmo tempo dizia que nada mais surgirá exceto aquilo que já existia, denotando que o novo homem era prerrogativa de uns poucos, mas não de toda a sociedade. Esta é outra das reviravoltas provocadas por Marx no pensamento hegeliano, na medida em que, na visão de Marx, o capitalismo caminhava para uma crise, e um novo homem surgiria no socialismo.

Não há nada pior do que tentarmos prever o futuro, pois corremos o risco de sermos desmentidos pela história. O futuro idílico em que um novo mundo seria criado, provavelmente, ainda não chegou. Neste ponto, os marxistas se assemelham aos da religião judaica, que continuam esperando seu Messias assim como os marxistas aguardam a derrocada do capitalismo. E a todo momento vemos, em seus fóruns e discussões, que o capitalismo está em sua crise final, que desta vez o modelo será superado. E continuam a ser desmentidos pela história.

O que descobrimos com o tempo é que as crises são o mecanismo de correção do próprio capitalismo e que são as crises é que garantem sua permanência. Não estou com isso dizendo que esta forma de nos relacionarmos em sociedade e produzirmos nossos bens e mercadorias seja a mais adequada ou que não possa sofrer ajustes futuros. Mas há mais chances para aqueles que apostam que a próxima crise não passará de mais um ajuste do sistema, e não seu fim.

Aliás, se há alguma crise, ela está é no socialismo, que só existe na Coreia do Norte e, de certo modo, em Cuba (apesar de a ilha de Castro estar gradualmente aderindo ao sistema capitalista). A China não poderá jamais ser tomada por socialista ou comunista, já que os meios de produção são controladas por iniciativa privada (não preciso esclarecer que o capitalismo pode ser encontrado nas tiranias, nas monarquias, nas aristocracias ou nas democracias liberais).

A ideia de que outro mundo é possível decorre da percepção de Marx de que o homem pode se reconstruir pelo trabalho. Derivações dessas teorias tomaram de assalto até mesmo as estantes das livrarias, com seus grandes espaços destinados à auto-ajuda, sem se dar conta de que o Dr. House estava quase sempre certo quando dizia: people don’t change.

A esperança de um futuro melhor, de uma humanidade mais humana, de pessoas mais altruístas e solidárias é sempre postergada para um futuro em que o homem se dará conta de sua situação, deixando de se alienar e passando a agir apenas em favor do interesse comum. E essa a visão dos utópicos.

É digno de nota que séculos se passaram sem que conseguíssemos transformar o mundo. Talvez sejam demasiadas as expectativas de quem pensa que outro mundo é possível. E é, também, por essa razão que discursos como a da ex-Senadora Marina Silva devem ser vistos com certo ceticismo, na medida em que condena tudo isso que está aí, recusando-se ela até mesmo a aceitar que seu partido tenha o nome de partido, substituindo-o por rede.

A sociedade utópica, em que os homens bons finalmente vencerão homens maus continua como miragens no deserto. E como disse Camus certa vez, dando à frase uma conotação nostálgica e um tanto pessimista, os únicos paraísos são aqueles que perdemos.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda II

Vimos que na Revolução Francesa foi pela primeira vez utilizado os termos esquerda e direita. No século seguinte, Marx redefiniu a oposição que existia entre o povo e os membros da nobreza e do clero, passando a opor proletários a burgueses. O que há de característico nos dois movimentos é que ambos opunham uma maioria empobrecida contra uma minoria proprietária de privilégios e meios de produção.

Há uma herança dos séculos XVIII e XIX que ainda está em voga no conceito de esquerda atualmente em uso: o discurso do opressor e do oprimido. No século XVIII eram a nobreza e o clero que oprimiam o povo. No século XIX, os proletários eram oprimidos pelos burgueses.

Antes de prosseguir, faz-se necessário rever alguns conceitos relativos a formas de governo. Hoje há um consenso de que a democracia é o sistema de governo que garante maior participação popular e impede ocorrência de graves lesões aos direitos humanos. A despeito disso, há alguns preconceitos que devem ser revistos.

Os regimes aristocráticos, monárquicos ou mesmo os tirânicos têm boa parte de seu poder decorrente da aprovação popular. É um erro conceber que governos – exceto os totalitários – possam existir sem o apoio da opinião dos cidadão. Quem percebeu isso claramente foi James Madison, que disse: todos os Governos se baseiam na opinião. Montesquieu nunca teve dúvidas sobre o assunto e vaticinou: o poder do governo é proporcional à quantidade de pessoas a que está associado.

Cada regime tem seus balizamentos, seu ambiente de existência, suas regras de conduta. Montesquieu enumerou os sentimentos predominantes em alguns regimes: a honra, nas monarquias; a virtude, nas repúblicas; o medo, nas tiranias. Poderíamos incorporar a esses algumas vocações básicas de todo ser humano: o desejo de justiça, ou outros menos consensuais, como o desejo de igualdade e liberdade.

Não é consenso asseverar que as democracias de massa da atualidade sejam mais representativas do que alguns regimes monárquicos ou aristocráticos do passado. A análise feita aqui não pretende reabilitar o governo dos melhores ou outra forma aristocrática de governo. Mesmo a ditadura militar brasileira foi moldada pela opinião pública. No auge do milagre econômico brasileiro, exceto pela luta armada, pouca resistência à ditadura foi oposta pela população brasileira. A reação só começou a aparecer e a ganhar corpo após a crise do petróleo de 1973, que minou o milagre econômico e começou a mostrar a face da crise que durou até, pelo menos, 1994.

Feitos estes esclarecimentos sobre os regimes de governo, retomamos a discussão sobre as denominações “esquerda e direita”. Apesar da clareza dos ideais da Revolução Francesa, a revolta não teria ocorrido se a França não tivesse em mãos tão despreparadas para o exercício de poder. É evidente que os ideais republicanos já tomavam os corações e as cabeças de importantes formadores de opinião europeus, principalmente após o sucesso Revolução Americana. E a França, que era o berço das ideias republicanas e revolucionárias, teve a oportunidade de pôr em andamento a locomotiva da história.

Marx, que foi contemporâneo da revolução de 1848, anteviu a possibilidade de uma revolução acelerar a história e instituir a ditadura do proletariado, fase antecedente do momento em que a humanidade conviveria com uma sociedade sem classes.

Nota-se que, historicamente, os conceitos de esquerda e direita usualmente denotavam um conflito de classes, em que os chamados de esquerda eram em sua maioria constituídos por membros do povo, do proletariado, da classe trabalhadora. Já os que poderiam ser enquadrados como pertencentes à direita eram, em geral, conservadores (ou, quando muito, reformistas).

No século XX, houve um espraiamento das democracias liberais no ocidente. Assim, a luta contra os regimes não democráticos deixou de ser uma bandeira exclusiva da esquerda, já que nos países comunistas os regimes eram tirânicos, quando não totalitários.

Diante da ausência da bandeira da democracia – que foi incorporada pela maioria dos países ocidentais – e diante da derrocada soviética, era necessário redefinir os conceitos de esquerda e direita a que estávamos tão acostumados. Uma volta às origens parece ter sido a opção de uma parte da esquerda mundial e, em particular, da esquerda brasileira: reeditar o conflito de classes ainda que, para isso, seja necessário ampliar o conceito original de classes.

No próximo post, seguimos com estudo publicado sobre Norberto Bobbio sobre a atualidade da distinção entre esquerda e direita e retomamos a análise sobre conflito de classes utilizada pela esquerda brasileira.

Gustavo Theodoro