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Homens Sem Qualidades

Berenice Seara noticiou hoje em sua coluna do Extra que os Vereadores do Rio de Janeiro inovaram diante da pandemia mundial do Covid-19 e estão realizando sessões de modo virtual. Cada um de sua casa faz seus discursos, encaminha votações e aprova projetos.

Segundo a colunista, o privilégio de trabalhar de casa não foi estendido aos servidores responsáveis pela elaboração das atas das sessões. Esses continuam obrigados a se dirigir às instalações da Câmara para receber, corrigir e transcrever as falas das excelências.

Essa notícia provocou em mim duas reflexões, que passo a elaborar. A primeira delas se relaciona à incrível sobrevivência do regime de castas herdado dos tempos coloniais. O elevador de serviço ainda é o melhor símbolo desses tempos. A expressão “você sabe com quem está falando?” é outro bem conhecido resquício dessa era que se recusa a ser superada.

Nos tempos de coronavirus, essa faceta se revela mais facilmente. Os edis haviam suspendido todas as atividades da Câmara de Vereadores quando os números da pandemia no Brasil se agravaram. No entanto, alguns políticos começaram a se destacar, inclusive nacionalmente, por suas firmes e propositivas ações no combate à crise.

Os nobres vereadores resolveram, então, retomar as sessões na proteção de seus lares. “Não saiam de casa”, é o lema desses tempos. Até aí tudo bem. Cada pessoa que fica em casa pode salvar várias vidas. Ocorre que o egoísmo típico do sistema de castas enevoa a visão, ensurdece os ouvidos e empalidece a empatia. “Se eu estou bem está tudo bem”, devem formular seus pequenos egos.

E lá foram os servidores concursados trabalhar “presencialmente em uma sessão virtual”. Não riam. É isso mesmo. Trabalho presencial em sessão virtual. As figuras públicas, em momentos de crise, dão exemplo para a sociedade. Há forte campanha para que a classe média dispense suas diaristas e para que os serviços informais sejam remunerados mesmo sem realização, tudo para que as pessoas “fiquem em casa” com possibilidade de subsistência. Fiquem em casa, eu repito. Os vereadores do Rio não se preocuparam em dar o exemplo liberando seus funcionários.

Outro aspecto que nunca deixa de me espantar nesses casos é o comportamento de servidores de chefia, a quem caberia advertir os vereadores de que a recomendação de ficar em casa é para todos que não executem atividade essencial. O que causa espanto, nesse caso, é que as próprias chefias estão expostas desnecessariamente ao risco de adquirir e espalhar o coronavirus. E nem assim reagem.

Platão dizia que o espanto é a porta de entrada para a filosofia. E esse tipo de evento, a incapacidade de pensamento e empatia, gera um sentimento perturbador na forma como julgamos o ser humano. As teses sobre o extermínio humano talvez não sejam, afinal, tão improváveis.

A neutralidade ética é característica desses tempos líquidos, apropriando-me aqui do termo utilizado por Zygmunt Bauman. O mal absoluto raramente dá suas caras, e o mal líquido se esconde atrás da neutralidade ética, que segundo Orwell, dá origem a nossa capacidade de sermos seletivos ao lidar com a angústia e o sofrimento humanos. É como se houvesse um operador habilidoso com capacidade de ligar e desligar a sensibilidade desses pequenos seres.

O mal absoluto é substituído pelo mal líquido, impessoal, em que mortes são tratadas como danos colaterais, em que a opressão vem encartada em linguagem tecnicista, em que a injustiça é mimetizada em equidade. A satisfação que o ego encontra em obedecer desliga a capacidade humana da empatia.

Nesse ambiente, os homens pequenos, sem qualidades, encontram seu sentido de vida. É dentre esses que Hannah Arendt classificou Adolf Eichmann, cuja figura levou a pensadora a cunhar a expressão “banalidade do mal” para o mal impessoal do cumpridor de ordens. A burocracia pública parece ser ambiente propício para o desenvolvimento desses seres.

Não sou dos que têm fé na evolução da sociedade ou no ser humano. Nossa história é repleta de avanços e retrocessos. Minha experiência me leva a crer, no entanto, que aquele que pratica injustiças com frequência costuma perder aquilo que mais valoriza. É nessa hora, retirada a teia de ilusões que lhes dá sustentação, que o julgamento moral começa a estar à espreita, pois segundo Kant, é o poder que corrompe o livre exercício da razão. Sem ele, os atos passados estão de volta ao escrutínio moral, assombrando suas vidas futuras.

Estamos em crise. É na crise que os humanos se revelam. Torçamos para que, em breve, todos os não essenciais estejam em casa. E nunca é demais repetir: fiquem em casa.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda II

Vimos que na Revolução Francesa foi pela primeira vez utilizado os termos esquerda e direita. No século seguinte, Marx redefiniu a oposição que existia entre o povo e os membros da nobreza e do clero, passando a opor proletários a burgueses. O que há de característico nos dois movimentos é que ambos opunham uma maioria empobrecida contra uma minoria proprietária de privilégios e meios de produção.

Há uma herança dos séculos XVIII e XIX que ainda está em voga no conceito de esquerda atualmente em uso: o discurso do opressor e do oprimido. No século XVIII eram a nobreza e o clero que oprimiam o povo. No século XIX, os proletários eram oprimidos pelos burgueses.

Antes de prosseguir, faz-se necessário rever alguns conceitos relativos a formas de governo. Hoje há um consenso de que a democracia é o sistema de governo que garante maior participação popular e impede ocorrência de graves lesões aos direitos humanos. A despeito disso, há alguns preconceitos que devem ser revistos.

Os regimes aristocráticos, monárquicos ou mesmo os tirânicos têm boa parte de seu poder decorrente da aprovação popular. É um erro conceber que governos – exceto os totalitários – possam existir sem o apoio da opinião dos cidadão. Quem percebeu isso claramente foi James Madison, que disse: todos os Governos se baseiam na opinião. Montesquieu nunca teve dúvidas sobre o assunto e vaticinou: o poder do governo é proporcional à quantidade de pessoas a que está associado.

Cada regime tem seus balizamentos, seu ambiente de existência, suas regras de conduta. Montesquieu enumerou os sentimentos predominantes em alguns regimes: a honra, nas monarquias; a virtude, nas repúblicas; o medo, nas tiranias. Poderíamos incorporar a esses algumas vocações básicas de todo ser humano: o desejo de justiça, ou outros menos consensuais, como o desejo de igualdade e liberdade.

Não é consenso asseverar que as democracias de massa da atualidade sejam mais representativas do que alguns regimes monárquicos ou aristocráticos do passado. A análise feita aqui não pretende reabilitar o governo dos melhores ou outra forma aristocrática de governo. Mesmo a ditadura militar brasileira foi moldada pela opinião pública. No auge do milagre econômico brasileiro, exceto pela luta armada, pouca resistência à ditadura foi oposta pela população brasileira. A reação só começou a aparecer e a ganhar corpo após a crise do petróleo de 1973, que minou o milagre econômico e começou a mostrar a face da crise que durou até, pelo menos, 1994.

Feitos estes esclarecimentos sobre os regimes de governo, retomamos a discussão sobre as denominações “esquerda e direita”. Apesar da clareza dos ideais da Revolução Francesa, a revolta não teria ocorrido se a França não tivesse em mãos tão despreparadas para o exercício de poder. É evidente que os ideais republicanos já tomavam os corações e as cabeças de importantes formadores de opinião europeus, principalmente após o sucesso Revolução Americana. E a França, que era o berço das ideias republicanas e revolucionárias, teve a oportunidade de pôr em andamento a locomotiva da história.

Marx, que foi contemporâneo da revolução de 1848, anteviu a possibilidade de uma revolução acelerar a história e instituir a ditadura do proletariado, fase antecedente do momento em que a humanidade conviveria com uma sociedade sem classes.

Nota-se que, historicamente, os conceitos de esquerda e direita usualmente denotavam um conflito de classes, em que os chamados de esquerda eram em sua maioria constituídos por membros do povo, do proletariado, da classe trabalhadora. Já os que poderiam ser enquadrados como pertencentes à direita eram, em geral, conservadores (ou, quando muito, reformistas).

No século XX, houve um espraiamento das democracias liberais no ocidente. Assim, a luta contra os regimes não democráticos deixou de ser uma bandeira exclusiva da esquerda, já que nos países comunistas os regimes eram tirânicos, quando não totalitários.

Diante da ausência da bandeira da democracia – que foi incorporada pela maioria dos países ocidentais – e diante da derrocada soviética, era necessário redefinir os conceitos de esquerda e direita a que estávamos tão acostumados. Uma volta às origens parece ter sido a opção de uma parte da esquerda mundial e, em particular, da esquerda brasileira: reeditar o conflito de classes ainda que, para isso, seja necessário ampliar o conceito original de classes.

No próximo post, seguimos com estudo publicado sobre Norberto Bobbio sobre a atualidade da distinção entre esquerda e direita e retomamos a análise sobre conflito de classes utilizada pela esquerda brasileira.

Gustavo Theodoro