O Rumo da Oposição

PT na oposição

As primeiras medidas tomadas pela Presidente Dilma seriam condenadas pela candidata Dilma. Ajuste fiscal, mudanças nas regras de pensões e auxílio-desemprego, elevação nas taxas de juros seriam medidas atacadas pela propaganda petista. Ao roubar a agenda adversária, percebe-se na oposição uma paralisia, um silêncio, seguido de algumas críticas a medidas que foram defendidas por seus candidatos.

É o próprio PT que passa a ocupar o espaço que seria destinado à oposição. A Carta Capital publicou reportagem em que critica os rumos ortodoxos seguidos por Joaquim Levy. Luis Nassif, blogueiro empregado da Rede Brasil, critica a rendição do Governo Dilma aos mercados. Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo, lembra que o caminho da ortodoxia foi derrotado nas eleições. Membros da direção do PT se arriscam a criticar publicamente o ajuste fiscal e o aumento da taxa básica de juros.

Enquanto isso, Aécio Neves tirou férias. Não tem participado da eleição das mesas diretoras da Câmara e do Senado. E não é visto indicando rumos para a oposição. Marina Silva também tirou férias. Há mais de um mês não dá entrevista ou fala ao público. Seu recolhimento afastou antigos aliados, tornando mais árdua sua tarefa de montar uma oposição que vise a superar a velha disputa PT-PSDB.

Com isso, o PT voltou a dominar o noticiário especializado, ocupando os dois lados do espectro político: situação e oposição. Não é a primeira vez que isso ocorre. A oposição mostra-se mais perplexa com os rumos tomados pelo governo do que a própria esquerda. Não se deve exigir que o PSDB condene o ajuste fiscal. Nem que Marina Silva critique a adoção do tripé econômico, tão defendido por ela durante a campanha. Deixemos a incoerência para os que não cumprem suas promessas.

Mas há diversas reformas defendidas pelos partidos de oposição que não estão no horizonte do atual governo, como a reforma tributária, por exemplo. Uma das maiores fontes de desigualdade do país é nosso sistema tributário, que é regressivo em razão de sua preferência por impostos sobre o consumo. Com isso, os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos do que os mais ricos. O bolsa família e os programas sociais não dão conta de devolver todo o tributo indevidamente recolhido. A proposta constante dos programas de oposição era bastante genérica, mas indicava a necessidade de revisão desse sistema.

Outras reformas estruturais são necessárias para que o Brasil volte a crescer, mas ninguém mais parece interessado em projetos de longo prazo. Até mesmo o choque ortodoxo aplicado pelo Governo Dilma é preguiçoso, não contempla um horizonte para além dos quatro anos de governo. A ideia parece ser economizar um pouco nos dois primeiros anos – mesmo que isso produza crescimento zero – para depois liberar os gastos com vistas às próximas eleições.

Com essa visão de curto prazo, seguiremos dando pequenos voos de galinha. E a oposição parece não perceber a importância de seu papel, que não se resume a apresentar candidaturas a cada quatro anos. Críticas consistentes, apresentação de caminhos alternativos, visão de futuro e defesa de reformas estruturais são ideias que ajudam a construir uma identidade partidária, encontrar aliados, elevar o nível do debate político e melhorar o país.

É um erro dar pouca importância utilização da palavra como método da ação política. Esse contínuo esvaziamento da oposição entre os eventos eleitorais dá caráter oportunista a seus candidatos. Além disso, o debate político acaba só ocorrendo durante o pleito eleitoral. Com isso, as eleições passam a se assemelhar a um plebiscito. É a ausência de uma oposição forte, consistente, propositiva e com perspectiva de poder que cria espaço para que o PT e o fisiológico PMDB ocupem um espaço dúbio, de situação/oposição, que ajudam a dar permanência ao ciclo de mediocridade de que somos testemunha nos últimos anos.

Gustavo Theodoro

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