violência

Short Cuts – Cenas da Copa

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O dia da abertura da Copa das Copas poderia render um tratado de sociologia. Ainda bem que não sou sociólogo, pois assim posso me permitir a apenas enumerar os acontecimentos do dia, revelando seus aspectos contraditórios, violentos, irônicos ou simbólicos.

As manifestações de junho do ano passado já indicavam que aquele clima que assistimos há cerca de sete anos, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, não existia mais. Ao mesmo tempo em que a seleção brasileira se mostrou competitiva na Copa das Confederações, o humor do brasileiro piorou.

A folclórica cordialidade brasileira tem se revelado mais violenta do que seria de se esperar. E a violência deixou sua marca no primeiro dia da Copa da FIFA. Nas manifestações deflagradas em São Paulo no dia de ontem emergiu a violência, que partiu tanto dos manifestantes quanto da Polícia. Duas repórteres da CNN foram feridas, o que gerou uma cobertura ao vivo daquela emissora por mais de uma hora. Antes da partida, a imprensa internacional só queria saber da violência das manifestações e das incríveis cenas de depredação e de violência policial, que abusou das bombas de efeito moral (cujos estilhaços causaram ferimentos nos manifestantes) e das balas de borracha.

No campo, vimos um estádio muito bonito, quase todo pronto, com pequenas falhas na iluminação, na telefonia e na internet. Ninguém se lembrou da invasão ocorrida perto dali, do condomínio de barracos autodenominado Copa do Povo, cujos moradores criaram sérios problemas de mobilidade nos últimos dias, mas na hora do jogo pararam para torcer para o Brasil.

A imprensa internacional não gostou da abertura, que também não empolgou o público presente, composto, segundo Juca Kfouri, pela elite branca brasileira. A recepção da plateia à abertura foi, para dizer o mínimo, fria, o que indica que a FIFA entende mesmo é de estádios e, possivelmente, de dinheiro e, talvez, de futebol. A Rede Globo estava tão desatenta que perdeu o momento do pontapé inicial do menino paraplégico com seu exoesqueleto.

Pela primeira vez na história das Copas, o evento não teve a abertura oficial declarada pelo Chefe de Estado do País sede, indicando que já era esperado um público hostil à presença de autoridades. A elite branca que se fez presente ao espetáculo repetiu o hino à capela que tanto emocionou na Copa das Confederações e arrancou lágrimas do capitão da equipe brasileira, revelando certo descontrole emocional do time. A seguir, o público do estádio, a elite branca educada nas melhores escolas do Brasil, passou a ofender a Presidente Dilma com os gritos, em coro, de Ei, Dilma, vá tomar no cu. O espetáculo se repetiu por quatro vezes durante toda a partida.

No campo, o que se viu foi um jogo duro, de boa qualidade, de duas boas equipes. Do lado brasileiro, Oscar, Neymar e Luiz Gustavo se destacaram; a Croácia, como era de se esperar, fez suas principais peças funcionar e endureceu o jogo, não se intimidando com a torcida local. O jogo acabou sendo decidindo por um detalhe, um terrível erro de arbitragem, fruto da simulação de pênalti bem encenada pelo atacante Fred. O momento era difícil, o jogo estava empatado e igual, era meio do segundo tempo, momento usual de definição de jogos de futebol. O árbitro japonês errou em momento decisivo do jogo e o Brasil ganhou, O jeitinho brasileiro, consagrado por nossos sociólogos, deu sua cara logo na abertura da Copa. Ganhamos, mas roubado. Há quem pense que roubado é mais gostoso. Eu gostei de ver o Oscar voltar a jogar bem, depois de uma temporada abaixo de sua média no Chelsea, que gosto de acompanhar. Mas o gol que resultou do jeitinho brasileiro dá um sabor ruim a esta vitória.

A imprensa internacional, que tinha voltado todas as suas atenções para o país por conta dos incidentes da manhã, criticou a abertura da Copa e, depois do jogo, só destacou o erro do Juiz. Foi mencionada a antiga relação de Ricardo Teixeira com a Comissão de Arbitragem da FIFA. Lembraram a atuação dos árbitros na Copa da Coreia/Japão, que muito favoreceram os times da casa, particularmente o da Coréia do Sul.

No Brasil, o dia terminou com festa, com as naturais racionalizações de que é melhor ganhar roubado do que perder. O movimento não vai ter Copa pode não ter conseguido impedir a realização da Copa. No entanto, é difícil eleger o grande vencedor deste dia de tantos significados.

Gustavo Theodoro

Violência por Associação

A coluna anterior provocou alguma indignação entre os apoiadores do Deputado Marcelo Freixo. Acusaram-me de ter cometido falácia da associação, de ter associado Freixo ao movimento Black Bloc sem ter feito prova da acusação, sendo circunstanciais os elementos apresentados.

Pois eu gostei dessa descrição. Assim sendo, vou adotar esta técnica associativa para prosseguir no assunto. Jeferson Moura e Renato Cinco são vereadores do mesmo partido de Freixo, o PSOL. Freixo é a maior liderança do PSOL do Rio de Janeiro.

Jeferson Moura e Renato Cinco contribuíram financeiramente para aquela festinha beneficente patrocinada por uma das líderes dos Black Blocs, a Sininho. A mesma Sininho que, no mês de novembro de 2013, participou de uma festa de humor, que entregou o prêmio “molotov de ouro” ao vândalo com maior capacidade de destruição.

Nos atos do Ocupa Câmara, nos quais os Black Blocs eram os responsáveis pela Segurança, poucos políticos tinham direito a voz. Presença constante nesses eventos eram os vereadores já citados, além do Vereador Paulo Pinheiro e do Deputado Chico Alencar. Lógico que tudo isso não passa de associação, mas todos os políticos listados acima pertencem ao PSOL.

A ligação entre os Vereadores e o Freixo é tamanha que a mulher de Freixo é assessora do Vereador Renato Cinco. Renato Cinco, o mesmo que doou dinheiro para a festa dos Black Blocs.

O PSOL poderia estampar o texto que fosse em sua página da internet. Preferiu colocar um artigo, assinado por uma liderança do PSOL, que defendia a aliança com os Black Blocs. Não encontrei na página do PSOL nenhuma condenação à tática dos Black Blocs ou mesmo uma veemente crítica à utilização de métodos violentos de manifestação.

A greve dos Professores do Rio de Janeiro teve a proteção dos Black Blocs, e a participação desses mascarados se deu com a anuência do Sindicato dos Professores, controlado pelo PSOL. Quando o primeiro acusado pela morte do jornalista Santiago Andrade foi preso, a líder dos Black Bloc, Sininho, nem pestanejou: solicitou apoio do Deputado Freixo.

Em nenhum momento, na coluna Homem de Bem, acusei Freixo de assassinato. Já escrevi coluna condenando o uso da violência na política; este continua sendo meu ponto. Ao se aproximar dos Black Blocs, tanto por contribuições como por textos de apoio, a associação do PSOL à violência está sendo questionada no plano político.

Como seria bom para o Freixo e para o PSOL se, em algum momento do segundo semestre do ano passado, tivessem se pronunciado com veemência contra os Black Blocs e a violência nas manifestações… Mas não, nenhuma fala, nenhum texto publicado em seu blog.

Ontem Freixo escreveu longa coluna no jornal O Globo. Não negou sua proximidade com os Black Blocs. Não condenou o uso da violência nas manifestações. Em quase toda a coluna desqualifica seus acusadores, aponta erros cometidos pelo jornal O Globo – que, acredito, realmente foram cometidos – mas não diz o mais importante, que seria a condenação à violência nas manifestações.

Para piorar, em seu twitter, o Deputado destaca uma fala sua no desagravo organizado pelo PSOL: “o maior ato de solidariedade a mim é vocês continuarem nas ruas”. Palavras contra a violência? Em seu Facebook o máximo que se encontra é algo como é lógico que estamos preocupados com a escalada da violência, mas nada contra as depredações já ocorridas nem contra a tática dos Black Blocs.

Freixo ou o PSOL não são obrigados a se manifestar sobre qualquer assunto. Mas dada a relação de proximidade do PSOL com os Black Blocs, esperava-se, pelo menos após a morte do jornalista Santiago Andrade, uma maior reflexão sua sobre as manifestações violentas e a depredação de patrimônio público e privado. Pelo jeito, teremos que esperar um pouco mais por isso.

Gustavo Theodoro

Homem de Bem

O nome do Deputado carioca Marcelo Freixo foi citado por diversas vezes nos últimos dias. Após a morte do jornalista Santiago Andrade e a identificação dos Black Blocs como os responsáveis pelo disparo do rojão que o matou, o nome do Deputado Marcelo Freixo foi envolvido na polêmica, fato este que desencadeou uma imensa polarização dos debates, o que nem sempre favorece o esclarecimento da situação.

Para tratar do assunto, é inevitável retornar às manifestações que assombraram o Brasil em junho de 2013. Pela primeira vez, foram observados no Brasil membros de um movimento muito presente em movimentos de jovens em diversos países do mundo, os Black Blocs. Aqui no País, a redução do número de manifestantes foi acompanhada do aumento de sua violência.

Cria das manifestações de junho foram os movimentos havidos no Rio de Janeiro. O primeiro a dar sua cara foi o movimento Ocupa Cabral, que teve inspiração nos movimentos Occupy que se espalharam pelo mundo. O desgaste do Governo Cabral, que já havia sido detectado pelas pesquisas de opinião, deveu-se a diversas causas, mas foi agravado pelo movimento aéreo das babás de suas crianças e do pequeno Juquinha, o simpático cão da família. A população não aceitou muito bem o fato de eles se deslocarem de helicóptero do Estado para a casa de praia do Governador

No movimento Ocupa Cabral, a Polícia reprimiu com violência os manifestantes, gerando o costumeiro efeito de dar combustível à manifestação. Com a polícia contida pelas autoridades, assistimos ao vivo à destruição de lojas no Leblon e em Ipanema sem que os Black Blocs fossem sequer incomodados. Algumas caras hoje conhecidas do movimento Black Bloc começaram a surgir nas transmissões da Mídia Ninja.

Para quem não acompanhou, a Mídia Ninja é um grupo – polêmico, mas cuja polêmica não será explorada neste artigo – que utiliza celulares para fazer transmissões das manifestações ao vivo. Como a Mídia Ninja fazia uma cobertura que ganhou entre os manifestantes o status de isenta, tinha livre acesso aos manifestantes, enquanto o restante da imprensa era comumente enxotada das manifestações.

Com os problemas decorrentes da instalação da CPI dos Transportes na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, nasceu o Ocupa Câmara. Este movimento, apesar de se intitular apartidário, tinha entre seus membros diversos integrantes e simpatizantes do PSOL, partido do Deputado Marcelo Freixo. A agora conhecida ativista Sininho ganhou reconhecimento naquele movimento.

Durante a ocupação da Câmara, a aliança entre o Ocupa Câmara, os Black Blocs e o PSOL não era escondida. Posteriormente, veio a manifestação dos Professores Estaduais e Municipais do Rio de Janeiro, que evidenciou definitivamente a aliança do movimento com os Black Blocs, já que o próprio Sindicato dos Professores do Estado do Rio se manifestou a favor da presença dos Black Blocs em seus atos (Sindicato este controlado por membros do PSOL).

Para quem acompanhou esses movimentos ao vivo – transmitidos que foram pela Mídia Ninja – não é surpresa descobrir a proximidade do PSOL com os Black Blocs. Ainda que não se tenha visto, da parte de integrantes do PSOL, muitos textos ou manifestações a favor do uso da violência, o certo é que não se viu condenação explícita dela. Pelo contrário, texto em defesa do uso da violência nas manifestações foi encontrado no próprio site do PSOL.

Por outro lado, o Deputado Marcelo Freixo se dispôs há alguns anos a enfrentar algo que poucos teriam coragem: assumiu a Presidência da CPI das milícias. Como se sabe, as milícias no Rio de Janeiro são detentoras de considerável poder de fogo, há muito território em seu poder, e são formadas ou têm o apoio de maus policiais, maus políticos e bandidos em geral. As milícias pretendem substituir o Estado, mas não passam de marginais da lei, criminosos com muitos assassinatos em suas costas.

Quem enfrenta este tipo de gente merece indiscutível crédito, pois, como dizia Aristóteles, coragem é a primeira das virtudes, pois dela dependem todas as outras. E coragem Marcelo Freixo demonstrou que tem.

No entanto, decisões acertadas do passado não tornam ninguém inimputável. É nítida a aliança do PSOL com os Black Blocs. Era evidente que a violência acabaria por desaguar em alguma morte. Quem apostou na violência assumiu o risco de ter um corpo na sua conta.

A denúncia lavrada pelo estagiário do Advogado dos responsáveis pela morte do jornalista Santiago Andrade pode ser indício pequeno da ligação de Freixo com os acusados (ainda mais considerando que o referido Advogado já defendeu um miliciano). Mas a ligação de Freixo com os Black Blocs é por demais evidente para ser refutada. E dessa acusação política Freixo não pode se esquivar. Mesmo reconhecendo todos os seus méritos, Freixo e seu partido erraram ao apoiar o uso da violência em manifestações. A não ser que esta seja, afinal, a natureza do PSOL. Já que um partido que leva o nome de Socialismo e Liberdade ou não entende de Socialismo ou não entende de liberdade.

De toda forma, o maniqueísmo no julgamento do Freixo leva a esses extremismos de que somos testemunhas no debate público. O político deve ser jugado tanto pelos seus erros quanto por seus acertos. Tentar esconder seus erros atacando testemunhas ou mesmo promovendo atos de desagravo o desqualifica mais do que o simples reconhecimento de seus erros. E nesta discussão a verdade mais uma vez retirou-se de política; espero que a encontremos na ciência.

Gustavo Theodoro

Política e Violência

A violência é tida por muitos como forma de ação política. No século XX, houve um autor, líder sindical, George Sorel, que escreveu um livro muito lido sobre a violência. Fazia ele ligações entre o socialismo utópico e a violência. Na sua forma de pensar, era necessário criar o mito de uma outra sociedade, mais humana, mais solidária, composta apenas por pessoas boas. Depois ele explicou que o objetivo do mito é preparar as pessoas para a destruição de tudo o que existe. Aquele que mitifica o futuro acaba acreditando que temos que matar e destruir no presente.

Hoje morreu o cinegrafista Santiago Andrade, obra do movimento Black Bloc, que adotou a violência como forma de ação. É necessário lembrar: nem Marx defendia o uso da violência, pois ele tinha conhecimento de que a violência não é arma da ação política. Pelo contrário. Nesse sentido, a lição de Cícero é inequívoca: cercada de armas, as leis se calam (inter arma leges silent). Pois lei, para os romanos, significa ligação duradoura e, por conseguinte, contrato, o que pressupõe discussão e acordo. Logo, para os romanos, os inventores da política, nada se parece menos com política do que a violência.

É o primeiro assassinato dos Black Blocs. Sim, pois quem aposta na violência assume o risco de suas consequências. Veremos se ainda haverá quem defenda suas práticas e sua forma de ação.

Gustavo Theodoro