Copa

Minha Escalação

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Todo brasileiro é um técnico de futebol em potencial. Somos 200 milhões de treinadores. Neste momento de aparente crise de nossa seleção, não poderia deixar de escalar meu time ideal.

Antes, algumas considerações. A Espanha ganhou quase tudo o que disputou nos últimos seis anos. Há dois anos, ganhou a Eurocopa, repetindo o feito de seis anos atrás. É a atual campeã do mundo. Fez um bom primeiro tempo contra a Holanda. Podia ter sido vitoriosa no primeiro tempo não fosse o voo de Van Persie. Após levar o segundo gol, se desestruturou e levou a goleada.

Contra o Chile, a Espanha começou bem de novo. Mas o Chile corria mais e teve mais posse de bola do que a Espanha (mais de 60%), o que é bastante incomum para o tik-taka espanhol. A análise das distâncias percorridas revelou que o Chile corre cerca de 20 quilômetros a mais do que os demais times. Ou seja, é como se o Chile jogasse com dois jogadores a mais.

Logo, a Espanha não era uma galinha morta e o Chile não se classificou por acaso: tem um excelente time e poderia sim ter ganho do Brasil. A confiança de nossa torcida no time brasileiro é demasiada. Temos chances de chegar lá, mas vai ser muito difícil, pois não temos uma geração de craques como já tivemos.

De todo modo, temos chances. Mas o jogo contra o Chile evidenciou nossa principal dificuldade: ter o domínio do jogo. Felipão não construiu nosso time para ter o meio campo. Para ele, era importante tornar a defesa consistente e jogar com objetividade, sempre tentando o gol. Sem toques de lado, não teríamos mesmo posse de bola. Deu certo na Copa das Confederações. Um Brasil diferente ganhou aquela Copa. De lá para cá, no entanto, algo mudou. E não foi na tática de jogo, mas no desempenho individual de alguns jogadores.

Oscar passou a ser questionado no Chelsea e foi para o banco de reservas. Nossa esperança de criação passou a atuar melhor como defensor. Pode ser cansaço, pode ser que se recupere ainda. Mas seu ano foi muito ruim e ele continua jogando o mesmo futebol na Copa. Eu o tiraria do time.

Só o Felipão insistiria tanto com o Paulinho. No Tottenham foi para o banco de reservas. Quando jogou foi muito mal, tal como na seleção brasileira. Fernandinho foi titular como primeiro volante no time campeão inglês, o Manchester City. Para mim, seria titular desde o início.

Daniel Alves nunca foi bem na seleção. No Barcelona continuou como titular, mas foi sua pior temporada e o Barcelona quer negociá-lo. Além disso, nossos laterais jogam no ataque em seus times. O esquema de Felipão, com quatro jogadores ofensivos (em tese), exige que os laterais guardem posição. Tanto Daniel Alves como Marcelo não são bons marcadores. Logo, para aproveitar os laterais, é necessário mudar o esquema tático. No caso da lateral direita, a temporada do Maicon foi melhor do que a do Daniel Alves. Maicon caiu de produção devido ao excesso de noitadas, mas neste ano voltou a se dedicar à profissão e merece a vaga de titular no time.

Hernanes tem feito sucessivas boas temporadas europeias e tem condições de brigar por uma posição no time. Willian, no Chelsea, barrou Juan Mata, grande jogador espanhol e foi fundamental para a temporada do time inglês. Seria titular do meu time desde o início. O Ramires não tem entrado bem na seleção, mas quase sempre joga fora da posição que rende mais.

Hulk foi o melhor jogador do campeonato russo. Pode não ser um excelente campeonato, mas jogou o tempo todo e foi bem. Lógico que, como atacante, prefiro Romário ou Ronaldo. Mas essa geração produziu excelentes zagueiros, mas nenhum grande goleador. Assim, dentre os convocados, Hulk seria o meu nove, o centroavante. Ele já jogou nessa posição, apesar de preferir jogar na direita, onde o Felipão raramente o escala.

Neymar é nosso craque e não pode jogar longe do gol. E não pode voltar para marcar. Deve jogar avançado, girando próximo à área adversária ou iniciando contra-ataques. Não vou perder tempo falando do Fred e do Jô. Bernard teve bom começo aqui, mas não jogou, pois foi para a reserva do ucranião, o fortíssimo campeonato da Ucrânia.

Contra a Colômbia, precisamos de mais meio campo. Nossa defesa é boa, mas precisamos do meio campo. Como não temos um excelente ataque, melhor jogar sem ele e apostarmos no Neymar, nas bolas aéreas e em alguns chutes do Hulk.

Meu time, com a convocação do Felipão, para enfrentar a Colômbia seria: Júlio Cesar, Maicon, Tiago Silva, David Luiz e Marcelo; Fernandinho, Hernandes, Ramires e Willian; Hulk e Neymar. Por favor, mandem esta escalação para o Felipão.

Gustavo Theodoro

Short Cuts – Cenas da Copa

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O dia da abertura da Copa das Copas poderia render um tratado de sociologia. Ainda bem que não sou sociólogo, pois assim posso me permitir a apenas enumerar os acontecimentos do dia, revelando seus aspectos contraditórios, violentos, irônicos ou simbólicos.

As manifestações de junho do ano passado já indicavam que aquele clima que assistimos há cerca de sete anos, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, não existia mais. Ao mesmo tempo em que a seleção brasileira se mostrou competitiva na Copa das Confederações, o humor do brasileiro piorou.

A folclórica cordialidade brasileira tem se revelado mais violenta do que seria de se esperar. E a violência deixou sua marca no primeiro dia da Copa da FIFA. Nas manifestações deflagradas em São Paulo no dia de ontem emergiu a violência, que partiu tanto dos manifestantes quanto da Polícia. Duas repórteres da CNN foram feridas, o que gerou uma cobertura ao vivo daquela emissora por mais de uma hora. Antes da partida, a imprensa internacional só queria saber da violência das manifestações e das incríveis cenas de depredação e de violência policial, que abusou das bombas de efeito moral (cujos estilhaços causaram ferimentos nos manifestantes) e das balas de borracha.

No campo, vimos um estádio muito bonito, quase todo pronto, com pequenas falhas na iluminação, na telefonia e na internet. Ninguém se lembrou da invasão ocorrida perto dali, do condomínio de barracos autodenominado Copa do Povo, cujos moradores criaram sérios problemas de mobilidade nos últimos dias, mas na hora do jogo pararam para torcer para o Brasil.

A imprensa internacional não gostou da abertura, que também não empolgou o público presente, composto, segundo Juca Kfouri, pela elite branca brasileira. A recepção da plateia à abertura foi, para dizer o mínimo, fria, o que indica que a FIFA entende mesmo é de estádios e, possivelmente, de dinheiro e, talvez, de futebol. A Rede Globo estava tão desatenta que perdeu o momento do pontapé inicial do menino paraplégico com seu exoesqueleto.

Pela primeira vez na história das Copas, o evento não teve a abertura oficial declarada pelo Chefe de Estado do País sede, indicando que já era esperado um público hostil à presença de autoridades. A elite branca que se fez presente ao espetáculo repetiu o hino à capela que tanto emocionou na Copa das Confederações e arrancou lágrimas do capitão da equipe brasileira, revelando certo descontrole emocional do time. A seguir, o público do estádio, a elite branca educada nas melhores escolas do Brasil, passou a ofender a Presidente Dilma com os gritos, em coro, de Ei, Dilma, vá tomar no cu. O espetáculo se repetiu por quatro vezes durante toda a partida.

No campo, o que se viu foi um jogo duro, de boa qualidade, de duas boas equipes. Do lado brasileiro, Oscar, Neymar e Luiz Gustavo se destacaram; a Croácia, como era de se esperar, fez suas principais peças funcionar e endureceu o jogo, não se intimidando com a torcida local. O jogo acabou sendo decidindo por um detalhe, um terrível erro de arbitragem, fruto da simulação de pênalti bem encenada pelo atacante Fred. O momento era difícil, o jogo estava empatado e igual, era meio do segundo tempo, momento usual de definição de jogos de futebol. O árbitro japonês errou em momento decisivo do jogo e o Brasil ganhou, O jeitinho brasileiro, consagrado por nossos sociólogos, deu sua cara logo na abertura da Copa. Ganhamos, mas roubado. Há quem pense que roubado é mais gostoso. Eu gostei de ver o Oscar voltar a jogar bem, depois de uma temporada abaixo de sua média no Chelsea, que gosto de acompanhar. Mas o gol que resultou do jeitinho brasileiro dá um sabor ruim a esta vitória.

A imprensa internacional, que tinha voltado todas as suas atenções para o país por conta dos incidentes da manhã, criticou a abertura da Copa e, depois do jogo, só destacou o erro do Juiz. Foi mencionada a antiga relação de Ricardo Teixeira com a Comissão de Arbitragem da FIFA. Lembraram a atuação dos árbitros na Copa da Coreia/Japão, que muito favoreceram os times da casa, particularmente o da Coréia do Sul.

No Brasil, o dia terminou com festa, com as naturais racionalizações de que é melhor ganhar roubado do que perder. O movimento não vai ter Copa pode não ter conseguido impedir a realização da Copa. No entanto, é difícil eleger o grande vencedor deste dia de tantos significados.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda – Nacionalismo

 

Um dos fenômenos mais complexos nesta tentativa de diferenciação entre a esquerda e a direita diz respeito ao nacionalismo. Como se sabe, é causa antiga da esquerda mundial o fim dos Estados-Nação tal como os conhecemos. Já na Revolução Francesa havia sido identificado forte relação entre os Estados com a aristocracia, a realeza e o clero. O fim dos Estados prometia o fim das classes privilegiadas.

Volto a Marx, não é por gosto, mas pela influência que ele teve no pensamento dos séculos XIX e XX. Hoje ele já não é tão relevante, mas para o filósofo que pretende colocar os dias atuais em perspectiva, torna-se difícil não citá-lo. Marx não acreditava no Estado. Para Marx, a ditatura do proletariado – que seria a etapa intermediária rumo à sociedade sem classes, naturalmente alcançada com o esfacelamento do capitalismo – teria por objetivo a destruição da burocracia estatal e dos instrumentos de dominação do Estado (polícia e exército). Ainda voltarei a este ponto específico quando tratar do movimento anarquista no futuro. Registre-se, no entanto, a informação de que, para Marx, a ditadura do proletariado dispensaria a existência do Estado.

Na sociedade utópica descrita por Marx, o nacionalismo seria tratado como uma doença ou como um substituto da religião como o ópio do povo. No início do século XX, havia diversas correntes marxistas, algumas das quais propunham uma releitura da obra de Marx, condescendendo com a existência do Estado desde que ele fosse democrático, igualitário e garantisse que fossem satisfeitas as necessidades básicas do homem. Eram os sociais-democratadas aparecendo para o grande público. Na visão deste novo grupo político, era admitido o Estado uma vez que a aplicação das teorias marxistas não seria tão radical.

Os conservadores, em geral, sempre foram fortemente vinculados às tradições e à herança cultural recebida. Só por isso era, para eles, inaceitáveis teses que propusessem a extinção dos Estados-Nação.

Ou seja, no início do século XX, o quadro se apresentava da seguinte forma: os conservadores eram nacionalistas-patriotas, os sociais-democratas admitiam a existência do Estado e os comunistas e anarquistas clamavam por um mundo sem Estado e sem pátria. Como a social-democracia angariou apoio de boa parte da esquerda europeia, foi contra ela que se voltaram os comunistas.

Lenin, ainda durante o ano de 1917, dada a grande influência menchevique neste ano, escreveu com escárnio que todos os sociais-patriotas (não riam) são agora marxistas. Sim, a renhida guerra de opiniões dividia os corações. Foi essa divisão que levou os comunistas alemães, em 1932, a não apoiar os sociais-democratas, abrindo espaço para a tomada do poder pelo Nazismo.

O mundo sem Estado e sem pátria ensejou até o surgimento um hino à união dos povos, a tão celebrada Internacional Socialista. O mundo novo que emergiu da queda do muro de Berlim provocou um terremoto nos tão estáticos conceitos formulados no início do século passado. É certo que já se via sinais de confusão entre os grupos, visto que liberais defendiam a redução de barreiras comerciais e grupos de esquerda defendiam a estatização de empresas privadas (nada menos marxista do que isso).

É neste mundo do avesso, órfãos de tradição e continuidade, que devemos nos guiar tal como cegos de ideologias. É como se aqui nos tivessem colocado sem nenhuma herança pretérita. Sim, o jogo que se pratica atualmente é outro. A direita, liberal, ainda se diz nacionalista e patriota, mas costuma aprovar a desnacionalização das empresas (ainda que seja mais xenófoba, mais resistente à presença do imigrante estrangeiro). Já a esquerda, que por séculos rejeitou o Estado, o nacionalismo e o patriotismo, agora inverteu totalmente sua posição, sendo forte defensor da ação do Estado na economia, inclusive com a propriedade dos meios de produção. Mais surpreendente ainda é que os empregados das empresas públicas estão hoje no lugar que antes era ocupado pelos burgueses da literatura marxista.

Não quero me alongar no assunto. Não poderia, no entanto, deixar de fazer uma pequena provocação com relação à reedição da pátria de chuteiras, tão cara ao movimento militar, que se utilizou da Copa de 1970 para reafirmar a força do regime. Ora, militares são mesmo nacionalistas e não chega a surpreender essa postura.

Há desde o ano passado um movimento nas ruas, filho das manifestações de junho de 2013, que se identifica pelo slogan “não vai ter Copa”. É uma reação contra os gastos incorridos na construção de estádios e nas diferenças entre as exigências da FIFA (o chamado padrão FIFA) e o nível dos serviços públicos fornecidos pelo Estado. Os partidos de esquerda reagem contra esse movimento como se ele fosse contra o Brasil ou como se ele torcesse pelo quanto pior melhor. E para defender a realização da Copa no Brasil se utiliza dos mesmos argumentos a que os militares recorreram. Haja intérprete para entender essa realidade. Já estou considerando que exigir alguma coerência dos grupos políticos contemporâneos é vício inútil de quem se apegou à lógica como referência para o pensamento.

Gustavo Theodoro

A Copa é de Esquerda ou de Direita?

Copa do Mundo é um bom exemplo do alinhamento automático observado no debate das polarizadas posições políticas da população brasileira. Em geral, quem se julga de esquerda defende a realização da Copa, dizendo que trará mais recursos e empregos para o País. Para quem é contra o Governo – que acaba se classificando sem maior reflexão como pertencente à direita – diz que temos muitas urgências e que não deveríamos investir em estádios que terão pouco uso após a Copa.

Em qualquer sistema que utilizarmos, avaliando os temas comumente divisores entre esquerda e direita (tamanho do Estado, universalização x focalização, pena de morte, aborto, eutanásia, drogas, armas, maioridade penal), não é possível classificar, a priori, se alguém alinhado com alguma ideologia dessas deve ser contra ou a favor da Copa.

No entanto, o bipartidarismo que nos é constantemente imposto – ainda que existam dezenas de partidos – nos impõe um alinhamento a um dos grupos que são os únicos aparentemente existentes. Assim, quem se julga de esquerda se sente premido a defender a liberação da maconha e do aborto, deve esgrimir argumentos a favor das cotas raciais, deve defender a importação de médicos cubanos e deve defender a Copa.

Quem se enquadra no outro campo, em contrapartida, alinha-se imediatamente ao outro lado, criticando a política econômica do Governo, a realização da Copa, exigindo educação padrão Fifa.

Tenho tentado rememorar as razões pelas quais nos definíamos como esquerda e direta no passado para que, quem sabe, possamos fazer escolhas mais racionais e debates voltados ao aprendizado, e não ao convencimento.

Vejo que para muitos assuntos políticos simplesmente não interessam. Pois prometo em pouco tempo tratar da razão pela qual a política já foi a mais importante atividade da vida ativa e como o rebaixamento de seu status pode ter nos feito menos “felizes”, se é que este é o termo mais adequado.

Por ora, fiquemos com a reflexão sobre nossos alinhamentos automáticos e sobre a desnecessidade de tratarmos a política com paixão. Hobbes dava um conselho a todos os que se envolviam com política: Nosce te ipsum (Lê-te a ti mesmo). Este deve ser o ponto de partida, pois é a partir dos valores de cada um, da reflexão individual, que cada ponto deste pode ser decidido.

O posicionamento acerca da Copa dificilmente poderia ser resolvido pelo esquema imaginado pelo Bobbio (que retrata o conflito entre igualdade x liberdade). Dificilmente poderia ser resolvido por meio de um embate do tipo burguesia x proletariado ou elites x pobres. Fica a provocação para aquele que ainda não refletiu sobre o assunto mas já se alinhou a alguma das correntes de discussão. É certo que Burke nos aconselhava a nunca separar por completo o mérito de uma proposta dos homens envolvidos nela. Mas isto não nos autoriza a desconsiderar as teses por trás das ideias, pois, se assim fosse, tomaríamos a posição de seguidores ou asseclas, abrindo mão de nossa personalidade política.

Gustavo Theodoro