Mês: maio 2014

Aécio e o Choque de Gestão II

Porque os pensamentos são para os desejos como batedores ou espias, que vão ao exterior procurar o caminho para as coisas desejadas.

Hobbes

Imagem

Na primeira coluna sobre o assunto foram introduzidas algumas definições que serão necessárias na análise futura dos resultados atingidos por Minas Gerais em seu choque de gestão. Neste artigo, será necessário percorrer um pouco mais o caminho da teoria, pois sem ela não seremos capazes de compreender os números produzidos pelo choque de gestão mineiro.

Donald Kettl em 1997 propôs uma classificação dos modelos de administração existentes no mundo. O primeiro, mais afinado com o nórdico, pode ser sintetizado pela expressão: let managers manage, ou seja, deixe o gerente gerenciar. O segundo modelo, mais próximo do modelo inglês, pode ser sintetizado por outra expressão: make managers manage. Ou seja, faça o gerente gerenciar.

No primeiro caso, a média gerência busca ela mesma a solução para os problemas, conversa com a equipe em busca dos melhores resultados. No segundo caso, como a cobrança será centralizada, com o tempo a gerência e a própria equipe começam a seguir ritmo de cobrança da organização. Ou seja, a cobrança centralizada esvazia as médias gerências, tornando-as inócuas, retirando sua motivação intrínseca, o que causa prejuízos ao desenvolvimento do trabalho, principalmente no longo prazo.

Raramente os indicadores podem ser considerados negativos por si sós. Pelo contrário, medir os resultados e ter metas é uma prática muitas vezes recomendável. A percepção dos indicadores também não é má entre os funcionários em geral. Entrevistas feitas em organizações que implantaram indicadores revelam frases do tipo: eles são bons; antes não sabíamos da nossa situação, agora sabemos; agora identificamos os problemas. Isto revela que, na verdade, os indicadores não são a causa dos males que eles acarretam.

No entanto, como escrevi no primeiro artigo da série, é preciso separar a atividade de construir os indicadores e medir aspectos da organização da atividade controlar e cobrar com base nos indicadores.

No sistema nórdico, indicadores são acompanhados pela organização com o objetivo de aprendizado, voltado ao autoconhecimento, em busca de identificar os pontos falhos e buscar caminhos que aumentem a eficiência e a satisfação dos servidores. No sistema inglês, indicadores são criados e utilizados para cobrança. Esta pequena distinção no uso dos indicadores pode fazer toda a diferença no ambiente e nos resultados obtidos pela organização.

Quando se utiliza os indicadores com a finalidade de cobrança ou mesmo de premiação (como vimos no primeiro artigo, tanto a ameaça de punição quando a possibilidade de premiação se relacionam à motivação extrínseca), pode emergir o fenômeno do gaming. A palavra se refere à situação em que os controlados aprendem a regra do jogo e passam a jogar segundo seus interesses, mesmo que contrários aos objetivos da organização.

Como se sabe, com a informatização é possível medir tudo (ou quase tudo). Na década de 1990, as Administrações Públicas começaram a estabelecer indicadores (que buscavam ter relação com o objetivo da organização) e, partir deste ponto, iniciou-se a busca por metas. Junto com isso veio a remuneração variável relacionada ao atingimento da meta. Voltaremos a este ponto em outro artigo da série.

Em 2007, C. Hood definiu o gaming como a deliberada distorção ou fabricação de números coletados com a intenção de melhorar a posição de um indivíduo ou organização. É forte a definição, mas hoje já se sabe que o gaming sempre acompanha a implantação de indicadores e a cobrança de metas. Passo a listar os três tipos mais comuns.

O primeiro é conhecido como rechet effect, ou efeito bola de neve. Ele ocorre quando os funcionários percebem que as próximas metas serão influenciadas pelo desempenho obtido no presente. Com isto, tem início a administração do serviço. Os funcionários começam deliberadamente a trabalhar menos, pois sabem que, se muito for feito, mais ainda será exigido no futuro.

O segundo tipo é o nivelamento por baixo – threshold effect. Quando metas iguais são impostas a todos, não há incentivos para a excelência, fazendo com que os que produzem mais se sintam desencorajados a assim procederem, o que acaba reduzindo a produtividade global.

O terceiro tipo é a distorção de objetivos – hitting the target and missing the point -, ou seja, atingir o alvo mas não o objetivo. São os casos em que mais trabalho é feito com menos qualidade ou mais pessoas são atendidas sem resolver o problema, entre outros.

Esses efeitos colaterais, em muitos casos, fazem com que a produtividade após a implantação dos indicadores seja inferior à havida antes de sua implantação. Muito interessante tudo isso, não é mesmo? Detalhe: isto acontece sempre, em qualquer organização, de qualquer país, que se aventure a estabelecer metas rígidas em um ambiente de forte cobrança.

Vai abaixo um glossário com as mais diversas técnicas de gaming, tal como proposto por P. Smith:

Visão tunelada – Diante de diversas possíveis metas, gestores escolhem aquelas mais fáceis de serem mensuradas e ignoram as restantes.

Sub-desempenho – Ocorre quando gestores trabalham de forma a atingir suas metas específicas mesmo que isso gere consequências negativas para o sistema como um todo.

Miopia – Ocorre quando gestores focam seus esforços em metas de curto prazo em detrimento de objetivos de longo prazo.

Fixação na medida – Quando impactos são difíceis de medir, existe a tendência natural de utilizar indicadores baseados em produtos/serviços. A fixação na medida ocorre quando esse indicador torna-se o foco em detrimento do impacto desejado.

Distorção oportunista – É uma forma de fraude que ocorre quando a informação sobre desempenho é reportada de forma oportunistamente negligente ou ainda distorcida para causar boa impressão.

Interpretação distorcida – Ocorre em função da imprecisão de medidas estatísticas, em situações onde listas com ranqueamento de desempenho tenham resultados muito próximos, fazendo com que desempenhos semelhantes sejam reportados – e interpretados – como distintos.

Efeito bola de neve – Ocorre quando gestores oportunistas buscam resultados ruins no período corrente para não serem desafiados com metas ousadas no próximo período.

Cristalização da medida – Ocorre quando um indicador de desempenho anteriormente utilizado perde seu propósito, mas ninguém tem a iniciativa ou interesse de retirá-lo.

Como se pode notar, a implantação de indicadores é mais arriscada do que pode parecer inicialmente. Os indicadores e metas foram implantados nos países de língua inglesa na década de 1990, mas hoje são motivo de piada por lá. Duas séries televisivas dos anos 2000 tratam das metas com escárnio, ou deboche mesmo, denunciando as práticas de gaming que passaram a predominar nas organizações. Uma delas é a inigualável The Wire, provavelmente uma das melhores séries da história, que revela o traço cruel dos indicadores aplicados nas áreas de educação e segurança. O mesmo fenômeno é descrito em uma série inglesa de nome Line of Duty, que revela as táticas utilizadas pela polícia para driblar as estatísticas – aumentando a taxa de resolução de crimes por meio de acordos em que culpados por outros crimes confessam crimes de terceiros -, sem atentar para os verdadeiros objetivos da organização.

Tanto os EUA como a Inglaterra aderiram com disposição a esses sistemas de metas, indicadores, remuneração variável, rankings, bônus e cia. Por isso, a TV de lá, quando o sistema caiu em descrédito há cerca de 15 anos, começou a escarnecer desse sistema. Aqui ainda estamos em uma fase embrionária, ainda tendemos a considerar moderno quem fala em indicadores, metas e choque de gestão. Tanto é assim que Aécio Neves pretende utilizar esta bandeira em sua campanha.

Na coluna da próxima quarta-feira teremos um pouco mais de teoria e, a seguir, passaremos a analisar os números do choque de gestão mineiro extraídos da Tese de Mestrado de Luís Otávio Milagres de Assis apresentada à Escola de Administração da FGV São Paulo, de onde foi obtida parte da teoria acima exposta.  

Gustavo Theodoro

O Novo Capital

Imagem

A última moda é comentar o livro de Thomas Piketty (será lançado no Brasil pela Intrínseca com o título O Capital no Século XXI), que tem causado alvoroço na imprensa e provocado embates acirrados entre progressistas e conservadores. Segundo todas as resenhas que li, o livro é bom, tem pesquisa rigorosa e merece a atenção que lhe tem sido conferida. Os direitos para sua publicação aqui no Brasil já foram negociados, mas seu lançamento em português ainda deve levar alguns meses.

O livro de Piketty destaca o aumento da desigualdade entre ricos e pobres verificado nos países centrais. Houve um pico de desigualdade entre o final do século XIX e início do século XX, que foi revertido após a Primeira Guerra Mundial. Segundo Piketty, a onda de liberalismo inaugurada por Thatcher e Reagan aumentou novamente as diferenças sociais em termos muito parecidos ao pico verificado no período de 1900 a 1913.

Foram levantadas poucas críticas ao diagnóstico de Piketty. Sua pesquisa foi bem elaborada e suas conclusões parecem estar corretas; pelo menos quanto ao diagnóstico. Já as suas propostas merecem um exame mais detido. E o debate de suas teses no Brasil demanda considerável ajuste de perspectiva, visto que a situação aqui é bastante diferente da constatada nos países centrais.

A solução para o problema do aumento da desigualdade, na visão de Piketty, passaria pelo aumento da progressividade nos impostos sobre a renda e sobre a herança. Em alguns casos, a proposta é que a tributação atinja 80% da renda auferida ou do patrimônio transmitido.

Os EUA são o palco ideal para as discussões propostas por Piketty, já que o Partido Republicano, desde Reagan, tem defendido a tese de que os mais ricos devem ter uma tributação menor, visto que são eles os responsáveis pelos investimentos que geram o efeito multiplicador na economia. Nessa visão, a geração de empregos e o crescimento do país dependem de uma tributação mais favorável àqueles que auferem maiores lucros e acumulam capital.

Culturalmente, os americanos relacionam a capacidade de ganhar dinheiro ao mérito pessoal. Assim, aqueles que enriquecem teriam vencido em sua sociedade, enquanto os que ficaram para trás são taxados de loosers (perdedores). Neste cenário, impor maior taxação aos mais ricos seria equivalente a punir o mérito.

Lançada a tese, a sociedade americana se dividiu instantaneamente. Economistas liberais (no sentido americano) tais como Stiglitz e Krugman imediatamente apoiaram as ideias de Piketty. Analistas conservadores consideraram as ideias de Piketty mais uma tentativa de intelectuais franceses de trazer o socialismo para o solo americano. Ou seja, lá, como aqui, o debate segue com boa dose de irracionalidade, com os grupos se alinhando automaticamente a seus velhos e confortáveis conceitos.

Aqui no Brasil já temos visto a esquerda se alinhando às ideias de Piketty, saudando-o como o legítimo representante da nova esquerda. Rodrigo Constantino escreveu na Revista Veja desta semana um ataque ao livro de Piketty bem ao gosto dos conservadores americanos, acusando-o de comunista e de seguir a cartilha de Marx. Não se pode esperar mesmo muito do Constantino.

É bom que importemos este debate para o Brasil, ainda que seja necessário ressalvar que nossa situação é totalmente diferente da dos países centrais. Aqui, desde 1994, a desigualdade entre ricos e pobres vem caindo continuamente. Portanto, a principal premissa de Piketty não se aplica à nossa realidade. Em razão disso, a discussão de suas teses, aqui no Brasil, deve ser muito mais cuidadosa.

No entanto, há algo na proposta de Piketty que deve nos interessar: o aumento da progressividade dos impostos diretos. Como já me referi em colunas anteriores, o país não é só injusto: é pobre também. Aqui, os 5% mais ricos tem renda mensal na faixa de R$ 10 mil reais (segundo os órgãos oficiais). Logo, devemos ter sempre muito cuidado quando propomos tributar os mais ricos. A classe alta assalariada já é submetida a uma carga bastante elevada.

Há espaço para a adaptação das teses de Piketty para o Brasil. Somos um país que tributamos excessivamente o consumo. E tributamos pouco algumas rendas e patrimônio. Nosso IRPJ apresenta alíquota máxima de 15% – porta usualmente utilizada pelos empresários e pelos banqueiros para auferir suas rendas – enquanto a pessoa física assalariada está submetida a uma alíquota de até 27,5%. O IPVA não incide sobre embarcações e aeronaves. O ITR dos grandes latifúndios é irrisório se comparado ao IPTU e ao IPVA. E os impostos sobre herança são muito inferiores aos praticados pelos países desenvolvidos.

Se a discussão das propostas de Piketty nos levar a uma análise técnica de nossa tributação sobre o patrimônio e a renda, será vantajoso para o Brasil a importação deste debate. Se continuarmos tratando apenas do conflito de classes, utilizando os velhões chavões marxistas (elite x trabalhador proletariado) ou os igualmente velhos chavões do Partido Republicano americano (que transforma pessoas em vencedores e perdedores), não traremos nenhum ganho dessa discussão.

Infelizmente, o livro está sendo lançado em um período de acirramento eleitoral (tanto nos EUA quanto no Brasil), o que nos faz crer que dificilmente obteremos efeitos positivos da discussão sobre os instigantes diagnósticos trazidos pelo livro. Pretendo acompanhar os debates por aqui e talvez volte ao tema daqui a alguns meses.

Gustavo Theodoro

A Economia da Crise

Imagem

                Os países desenvolvidos e parte dos países em desenvolvimento viveram um período de exuberância irracional, marcado por forte crescimento econômico e melhoria geral dos indicadores do setor público e privado entre o final da década de 1990 e os anos 2000.

                O Brasil demorou um pouco para participar da festa, visto que tentava se recuperar de décadas de desajuste, com a constante instabilidade das contas do setor público provocando descontrole inflacionário. Quando o Brasil finalmente começou a sentir os efeitos na bonança internacional, a festa acabou.

                Não há dúvidas de que a crise de 2008 foi a maior observada no mundo capitalista desde o crash de 1929. Poucos analistas previram a crise, apesar de alguns sinais estarem presentes. Os países centrais estavam com suas contas públicas razoavelmente equilibradas, no entanto o endividamento privado havia chegado a níveis nunca antes registrados.

                A dívida privada americana em 1929 era da ordem de 300% do PIB. Depois do terrível ajuste daquele ano, o endividamento privado jamais havia ultrapassado 150% do PIB. Na véspera da crise de 2008, a dívida privada americana tinha atingido o recorde de 350% do PIB. Apesar deste indicador apontar para uma possível crise, a maioria dos economistas atribuía ao mercado de capitais moderno mecanismos de controle muito superiores aos existentes na crise de 1929, acreditando ser possível manter o ritmo de endividamento sem estar sujeito a um forte ajuste.

                Em 2008, havia o temor de que um ajuste na economia americana poderia se assemelhar ao ambiente de estagnação e deflação observado no Japão desde 1990. André Lara Resende lembrou que Ben Bernanke, Presidente do Fed, havia proferido uma palestra no ano 2000 em que tentava apontar saídas para a deflação nipônica. Após apontar as diferenças entre depressão de 1929 e a deflação sem crescimento japonesa, observou que as soluções propugnadas por Keynes não se aplicavam ao Japão. Isto porque a estagnação não estava ligada à falta de crédito privado, mas à falta de demanda por crédito de uma população que preferia poupar.

                Assim, Bernanke havia chegada a uma solução perturbadora: a melhor forma de sair de um regime deflacionário é não entrar nele. Coincidentemente, Bernanke teve que tentar superar seu próprio pensamento ao se confrontar com a crise de 2008. A economia americana parecia acometida do mesmo mal observado no Japão.

                Evidentemente a situação americana era diferente da japonesa. Sendo moeda de lastro, era possível emitir dólares no mercado sem que isso provocasse inflação. No entanto, isso é tanto bom quanto ruim, visto que provocar um pouco de inflação era de interesse da autoridade monetária. O setor público americano teve que absorver quase US$ 1,3 trilhão de dívida privada, de forma a permitir que os demais bancos americanos não sucumbissem, levando com eles parte das empresas americanas.

                A Islândia tinha um setor público extremamente organizado. No entanto, as dívidas contraídas pelo setor privado – e que foram absorvidas pelo setor público – levou à quebra de sua economia. Ou seja, a solução americana aplicada à Islândia provocou sua ruína, o que mostra a peculiaridade de cada problema.

                A crise nos países centrais, em especial dos EUA, é mais grave do que a dos países periféricos porque o que começa a entrar na agenda econômica é o próprio modelo de consumo americano, é o american way of life que está em jogo. O planeta começa a dar sinais de esgotamento, as mudanças climáticas demandam novas soluções e a maioria dos economistas reconhece que o modelo de consumo americano não pode ser replicado para os países em desenvolvimento.

                Ao mesmo tempo, sem aumento da riqueza a economia americana não oferece condições de melhoria da renda e do emprego, que é demanda cultural da sociedade americana. Shumpeter pensou na inovação como força motriz do crescimento. Ocorre que agora a inovação tem o papel de manter o crescente consumo americano, que muitos consideram desmedido e insustentável.

Apesar de acompanharmos com interesse as discussões envolvendo as economias centrais, a situação brasileira se apresenta de forma totalmente diversa. Aqui ainda há muito espaço para o crescimento e as novas tecnologias na área de energia nos permitem a adoção de caminhos mais sustentáveis.

No entanto, o enfrentamento da crise pelo Governo Lula, que se afigurou a muitos como bem sucedido, tem mostrado suas inconsistências. Como se sabe, o enxugamento do crédito privado em razão da crise americana espalhou uma crise de crédito pelo mundo. Como os mercados centrais deixaram de importar commodities, era mesmo necessário provocar algum crescimento do mercado interno.

Crises costumam gerar explosão de nacionalismo e protecionismo. Esses fenômenos se alastraram pelo mundo, tornando as economias mais fechadas. O Brasil, uma das economias mais fechadas do mundo, quase extinguiu a importação de veículos por meio de medidas tarifárias associadas a forte incentivo à indústria automobilística local. Esta situação provocou um boom na venda de veículos, o que agravou nosso déficit de infraestrutura.

A solução de Keynes de fato sugere medidas expansionistas no combate à contração provocada pelo desaparecimento do crédito privado e da queda nas expectativas futuras de crescimento. No entanto, apesar de qualquer estímulo ser bem-vindo em situações como essa, recursos públicos direcionados para investimentos poderiam gerar efeitos multiplicadores de longo prazo.

O despejo de recursos no consumo aliado à expansão do crédito teve um efeito eleitoral significativo, como era de se esperar, melhorando a situação presente das classes menos favorecidas. O risco desta situação é o governo político se tornar refém do bônus eleitoral. Esta narrativa explica muito bem as atuais crises da Venezuela e da Argentina, nas quais a única alternativa de permanência no poder é por meio do acirramento do conflito de classes, opondo pobres a ricos.

Ao dobrar a aposta, ou seja, manter o incentivo ao consumo ao mesmo tempo em que protegia a economia, o Governo brasileiro cultivou uma inflação persistente que desafia a elevação de juros pelo Banco Central. O congelamento das tarifas produz impacto eleitoral e segura a inflação, mas contribui para a deterioração das contas públicas ao mesmo tempo em que produz impacto negativos nas perspectivas futuras.

Por contraditório que possa parecer, é muito provável que a crise que vem se desenhando no cenário futuro brasileiro decorre inicialmente da crise do subprime de 2008, mas foi alimentada pelos remédios utilizados pelo próprio Governo. Hoje a crise é de natureza fiscal e de balanço de pagamentos, mas a baixa produtividade da economia, o núcleo da inflação persistente, a estagnação no campo da educação e o baixo nível de investimentos (que impacta a infraestrutura, impedindo o desenvolvimento de novos negócios e encarecendo o custo brasil) indicam que podemos estar mais próximos da Argentina do que do Chile. E o ambiente de crise impede o País de pensar na aplicação de alternativas sustentáveis ao modelo de sociedade de consumo que importamos dos EUA.

A ciência econômica é muito complexa e comporta todo tipo de argumentação. No entanto, ao fim de algum tempo, erros contínuos e repetitivos tendem a se mostrar com mais clareza. O embate eleitoral impõe ao Governo e oposições enfrentamento desses temas espinhosos, reafirmação ou abandono de posições, e correções de rumo. No momento, a equipe de Eduardo Campos (herdada de Marina Silva, cujas figuras de proa são Eduardo Giannetti e André Lara Resende) é a que parece estar na dianteira dessas discussões. Torçamos para que a atual disputa política vá um pouco além dos velhos embates que caracterizaram as últimas eleições.

Gustavo Theodoro