Piketty

Reflexões sobre o Capital

capital xxi

Ao mesmo em que se transformou em best seller mundial, o livro de Piketty é visto com desconfiança nas escolas de economia. Isto porque Piketty fez uma estranha mistura de análise numérica, teoria econômica, tese social e narrativa histórica. Os livros de economia, em geral, são menos ambiciosos e, consequentemente, menos abrangentes – e, com ironia, mais precisos). Poucos se arriscam a abordar um tema tão difícil como a desigualdade utilizando método próprio e abrangendo período de tempo superior a cem anos.

Aquilo que torna o livro atraente é, ao mesmo tempo, o seu ponto fraco. A narrativa histórica da economia é extremamente envolvente, porém implica os mesmos juízos a que estão submetidos os historiadores. A ciência histórica apropriou-se dos métodos científicos, mas nem por isso tornou-se mais precisa. Enquanto as ciências naturais recuaram e reconheceram suas limitações no século XX, as ciências histórias adquiriram súbita confiança e passaram a se atribuir características de infalibilidade científica, justamente por utilizar o método que a ciência reconheceu limitado em seus experimentos.

Foi Hegel que buscou salvar a filosofia por meio da história. Marx apropriou-se do discurso hegeliano para dar um sentido para a história. Interessante observar que Sócrates buscava aproximar da verdade cada interlocutor seu. Conhece-te a ti mesmo (gnothe seuton) é o mandamento do Templo de Delfos. A verdade seria obtida por meio da maiêutica, que tem o significado de dar à luz, sendo seu método a parteira da verdade. Marx se apoiou em Hegel para, atualizando a filosofia aos tempos da revolução industrial, dizer que a violência é a parteira da história. É evidente que Marx conhecia Platão e pensava saber o que estava fazendo.

Para Marx, a história transformou-se na nova metafísica e a política transformou-se em atividade acessória para que um fim pudesse ser construído. A ideia de que um novo mundo é possível nasceu naquele momento.

Piketty é herdeiro dessa tradição. Seu livro é exemplo pronto e acabado disso. Para ele, a história fornece argumentos irresistíveis para a ciência econômica. E são essas as premissas que o levam ao cometimento de erros tão facilmente observáveis.

Logo no início de seu livro, Piketty levanta uma curva demonstrando que a desigualdade teve valor significativamente grande nos primeiros anos do século XX, caiu muito a partir da Primeira Guerra e assim se manteve até o fim da recuperação europeia da Segunda Guerra, quando voltou a crescer. Ainda não atingimos o pico de 1914, mas Piketty quer nos convencer que chegaremos lá se não fizermos nada.

São muitas as cautelas que devemos tomar com o livro de Piketty. O próprio autor faz diversas ressalvas a respeito do cálculo do PIB feito há mais de cinquenta anos. Assim, a própria série histórica de Piketty deve ser vista com bastante ponderação.

A principal fórmula de Piketty, que relaciona renda do capital ao crescimento do PIB, apresenta muitos problemas. Para Piketty, sempre que a renda de capital for superior ao crescimento do PIB estaremos produzindo desigualdade. Se esse enunciado for verdadeiro, o Brasil atual está gerando desigualdade, pois a taxa de retorno do capital está em torno dos 6%, enquanto o PIB, bem, não vamos falar de PIB, não é mesmo?

Há ainda uma excessiva preocupação com a transmissão das fortunas por herança, que significariam um atentado à meritocracia. Mas muito pouco é comentado sobre a mudança radical no perfil populacional, particularmente nos países europeus, onde casais apresentam baixíssima taxas de fertilidade. Além disso, a simples listagem dos mais ricos do mundo já nos dá notícia de que menos de 20% dessas fortunas decorrem de herança. Bill Gates, Mark Zuckeberg e Carlos Slim não me deixam mentir.

A tendência verificada em seus gráficos é de curto prazo, algo em torno de 20 anos, sendo que sua análise abrange mais de dois séculos. E a desigualdade atual, mesmo pelo método de Piketty, não é maior do que era no início do século XX.

São muitos os questionamentos ao livro de Piketty. Mesmo assim, é um livro intrigante e que merece ser lido. Só não precisamos desenterrar Marx e passar a considerar que só no passado éramos iguais e felizes. Retoma a mais que precisa frase de Camus, que nos lembra que os únicos paraísos são aqueles que perdemos. É a nostalgia que edulcora nosso passado.

Gustavo Theodoro

Declaração de Voto – Segundo Turno

Dilma e Aecio

No primeiro turno escolhemos o candidato que mais bem representava nossos anseios. Sou liberal no que se refere (já estou até falando como a Dilma, de tanto assistir a debates na TV) à economia, mas sou contra a pena de morte, contra a redução da maioridade penal e a favor dos programas sociais focalizados como o bolsa-família. Além disso, considero que tanto FHC quanto Lula deram sua contribuição ao desenvolvimento social e econômico do País. Entendi que Marina Silva era a candidata cujas propostas mais se assemelhavam às ideias que defendo.

Para o segundo turno, a escolha se torna menos pessoal. Não se trata mais de meu candidato, mas dos candidatos escolhidos pela maioria. É essa a escolha que se põe diante de nós. Eu fiz minha escolha.

Em artigos anteriores elenquei algumas críticas ao Governo Aécio Neves em Minas Gerais e ao Governo Dilma Rousseff. Contra Aécio pesa a ineficácia de seu choque de gestão, principalmente nas áreas de educação e segurança. A “meritocracia” implantada na área de educação entregou evolução semelhante à média dos demais Estados do País. Na segurança, o número de homicídios não se reduziu com os métodos de premiação de funcionários públicos instituídos pelo choque de gestão. Isso tudo está bem relatado nos artigos publicados nesta Ágora de nome “Aécio e o Choque de Gestão”. Com relação às finanças de MG, houve recuperação, apesar de a dívida mineira continuar impagável. No entanto, antes da gestão de Aécio, a situação era desesperadora. As contas apresentaram melhora, ainda que insuficiente.

Com relação ao Governo Dilma Rousseff, há três aspectos positivos que, em princípio merecem ser destacados: 1) a desemprego baixo (5%); 2) a queda na desigualdade; 3) a redução na pobreza.

Sobre esses aparentes avanços, já escrevi alguns textos, que agora trato de resumir. Sobre o desemprego baixo, o fenômeno não parece ser muito saudável. Os números da população ocupada indicam que há maior percentual de população em idade ativa sem emprego no país do que na Europa em crise. Ou seja, mesmo com desemprego médio na casa dos 20%, a Europa emprega cerca de 65% de sua força de trabalho, enquanto o Brasil emprega apenas 55%. A principal explicação para este fenômeno está na mudança nas regras de concessão de seguro-desemprego. Com a flexibilização das regras, mais pessoas recebem salário sem procurar trabalho e, consequentemente, sem aparecer nos números de desemprego. Os gastos com seguro desemprego dispararam e a mão-de-obra encareceu, aumentando a renda – aspecto positivo – ao mesmo tempo em que reduziu a produtividade do país, já que o aumento da renda não veio acompanhado de aumento da produtividade. Com isso, nos tornamos menos competitivos. Nossa balança comercial se inverteu e nossas contas externas se complicaram. Não há modo indolor de reverter esse ciclo. Logo, o número de desempregados não é assim tão bom. O desemprego caiu no mundo todo. A taxa brasileira ainda é superior à mundial. E isso considerando apenas os números de desemprego. Se passarmos a comparar a população ativa empregada, o Brasil pode ser considerado uma aberração.

Por diversas vezes, vi-me sensibilizado com os números que indicavam queda da desigualdade. No entanto, toda a propalada queda na desigualdade era baseada nas PNADs, que, segundo Marcelo Neri, não captam bem a renda dos ricos e do capital em geral. Por isso, Marcelo Neri não acredita em estimativas de ricos no Brasil a partir de pesquisas domiciliares. Quem afirmou isso é o inventor da nova classe média, ex-presidente do IPEA e atual titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Pesquisas recentes realizadas com a utilização de dados combinados das PNADs e do Imposto sobre a Renda revelaram que a desigualdade não caiu no período de 2006 a 2012. Isso mesmo, o período em que teria havido a maior queda na desigualdade quando considerada apenas a PNAD não produziu queda mensurável quando é incluída a análise do IR. Para essa pesquisa, foi utilizado o método criado por Piketty, o sucesso editorial do ano, cultuado pela esquerda.

A queda na miséria é a falácia mais evidente. Trata-se de simples manipulação dos números. Esqueça tudo o que foi divulgado sobre o assunto nos últimos dias, inclusive o mapa da fome da ONU, pois ele usa os mesmos números manipulados pelo Governo brasileiro.

Um pouco de história se fez necessário. Durante a campanha eleitoral de 2002, Lula permitiu a gravação de um documentário lançado poucos anos depois. Trata-se de Entreatos, produzido por João Moreira Salles (se João Santana se esquecesse de que lado está poderia até dizer que Lula estava aliado a um banqueiro, já que Moreira Salles é herdeiro de grande banco brasileiro). No documentário, Lula fez uma declaração de uma sinceridade comovente: ele estava espantado com o número de miseráveis a que ele constantemente fazia referência, 50 ou 60 milhões. De onde saiu esse número, ele se perguntava. Na época, apesar de utilizar o número com certa irresponsabilidade, não acreditava nele. Achava que o Brasil não tinha tantos miseráveis.

Observando apenas o Governo Dilma, percebe-se que ela trabalhou o número de miseráveis para produzir a redução da miséria. No início de seu governo, foi estabelecido, segundo recomendação do Banco Mundial, que era miserável que tivesse renda per capita inferior à R$ 70. Dilma assumiu então o compromisso de acabar com a miséria. Havia duas maneiras de fazer isso: acabando com a miséria ou trabalhando o indicador que media a miséria. O Governo optou por trabalhar o indicador. Apesar do recrudescimento da inflação, o indicador não foi corrigido e cerca de 30 milhões de miseráveis desapareceram. A mesma manipulação operada nos indicadores econômicos – como superávit primário e endividamento – foi também operada no indicador da miséria. Com isso, só o indicador da miséria melhorou. A miséria em si não se sabe.

Há um aspecto que merece uma consideração. Importantes economistas da Europa vêm defendendo que as economias maduras devem estar preparadas para lidar com o fim do crescimento econômico. É uma corrente que vem ganhando adeptos, mas só se aplica a países com alto grau de desenvolvimento. Países emergentes ainda precisam percorrer longo caminho até que possamos abrir mão do crescimento econômico. Qualquer comparação do crescimento do Brasil com a Alemanha ou a Espanha deve ser vista, portanto, com muita desconfiança. A população mais pobre só verá sua situação melhorar se passarmos a crescer a taxas superiores a 4% ao ano. O Governo Dilma deverá entregar crescimento inferior a 2% em seu Governo. É o menor crescimento dos últimos 100 anos. Nem no Governo Getúlio, que teve que lidar com os efeitos da maior crise da história da humanidade, entregou crescimento tão pífio.

Se é verdade que o baixo crescimento pode estar sendo influenciado pela crise de 2008, é certo que o Brasil é um dos que menos crescem dentre os emergentes. E esse resultado é decorrente de fatores internos. A taxa de investimento está na casa dos 16% do PIB, sendo das mais baixas da história. O programa de Aécio observa essa distorção e indica caminho que nos levaria a taxas de 24% do PIB, necessárias para a obtenção do crescimento de pelo menos 4% ao ano. Sem crescimento não haverá o que distribuir. E é a política econômica de Dilma que produziu a redução de nossa capacidade de investimento. É interessante observar que mesmo com a ampliação do uso dos bancos públicos, o investimento só fez cair.

Aécio Neves tem a seu lado uma excelente equipe. Além de Armínio Fraga, um dos poucos operadores de mercado que têm empatia suficiente para se interessar pelo bem comum, há Monica de Bolle (tradutora de Piketty), Marcos Lisboa (que foi da excelente equipe do primeiro mandato de Lula), Eduardo Loyo, dentre outros. Com o apoio de Marina Silva, Aécio recebeu ainda em sua campanha Eduardo Giannetti e André Lara Resende. São economistas capazes de devolver a credibilidade perdida pelo atual governo. Tomadas as decisões corretas, podemos ter uma rápida mudança de perspectivas para nossa economia sem que isso implique os sacrifícios que seriam impostos ao novo Governo Dilma, que assumiu na campanha o papel de adversário dos bancos e dos empresários em suas peças publicitárias.

Por último, creio que Aécio é o mais preparado para tirar o País dessa imensa divisão que agora se encontra. Aécio aposta menos no discurso nós contra eles, tão utilizado pela campanha petista (pobres contra ricos, nordestinos contra paulistas), sendo mais capaz de promover a conciliação das mais importantes forças da sociedade civil. Resumidamente, é por essas razões declaro meu voto em Aécio Neves para Presidente, pois não vamos desistir Brasil. O País evoluiu bastante nos períodos FHC e Lula, mas parou de evoluir nos últimos quatro anos. Agora meu voto é pela mudança. Agora é Aécio Neves Presidente.

Gustavo Theodoro

Piketty e o Brasil

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Com o lançamento do livro de Piketty, que provocou um verdadeiro terremoto no debate político e econômico neste ano, tomamos conhecimento de que o Brasil não quis fornecer dados para sua pesquisa. Vizinhos nossos como Argentina e Chile forneceram seus dados, mas o Brasil se escondeu sob restrição do sigilo fiscal.

Quem conhece o mínimo de legislação tributária sabe que o sigilo fiscal restringe apenas a divulgação de dados que revelem posições individuais. O que a pesquisa de Piketty demandava eram os dados agregados por faixa de renda e patrimônio. Não há nada que limite o acesso a essas informações que, afinal, são compartilhadas com o IBGE e com o IPEA.

O método utilizado por Piketty indicou que a desigualdade tem aumentado há algumas décadas nos países pesquisados e que não há sinal de reversão dessa tendência. A fórmula mais importante de Piketty relaciona remuneração do capital com o crescimento da economia. De forma bastante simplificada, sua tese infere que, se o crescimento da remuneração do capital é maior do que o crescimento da economia, a desigualdade está aumentando.

Na última década, o Governo tem constantemente divulgado pesquisas indicando a redução da desigualdade no Brasil, refletida principalmente no índice de Gini. É importante ressaltar que o método de Piketty mostrou aumento na desigualdade mesmo quando o índice de Gini apontava direção contrária.

Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, publicou uma coluna no dia 29/04/2014 em que retrata a queda da desigualdade brasileira como pura lenda. A tese do jornalista é a de que foi a renda de salários que apresentou redução na desigualdade. Como a renda do capital apresenta diversas falhas na medição, é provável que a desigualdade tenha seguido seu ciclo de aumento.

O economista Marcelo Neri, inventor na Nova Classe Média e Ministro do SAE, criticou Clóvis Rossi na Folha de São Paulo de ontem. Para o economista, pelo PNAD é possível constatar que a renda do capital também mostrou redução na desigualdade. Para isso, Neri combina informações da PNAD de 2012 com as do IRPF. Logo no início de seu artigo, Marcelo Neri reconhece as dificuldades de utilização dos dados do IRPF justamente por terem base de dados defasadas, tanto mais após a explosiva valorização imobiliária dos últimos cinco anos. Além disso, é alta a taxa de informalidade no aluguel de imóveis. Ainda assim, é com base nesses dados que o SAE chega à conclusão de que a desigualdade está, sim, caindo.

A discussão da desigualdade é tema por demais importante para ser tratado assim, por meio de discussões em artigos de jornal. É pena que o IPEA tenha voltado suas atenções para outras áreas – como pesquisas sociais, por exemplo – deixando de executar, com isenção, estudos de que somos tão carentes.

Alguns dos livros de história do mundo mais citados no exterior, escritos por europeus ou americanos, só mencionam o Brasil para tratar de desigualdade social. Logo, desigualdade é, de fato, um assunto que muito nos interessa.

De tudo isso, só podemos lamentar que o Governo do Brasil não tenha compartilhado seus dados com a equipe de Piketty, pois assim não estaríamos discutindo suposições em artigos de jornal. Infelizmente, os dados mais recentes, publicados pelo IBGE, indicam que mesmo a desigualdade de renda começou a aumentar a partir de 2012. Com os dados divulgados nos últimos dias pela economia americana, é provável que nossa crise só venha a se agravar.

O ano já começou sob a sombra das manifestações, da inflação e do baixo crescimento. Estamos no meio do ano e as perspectivas continuam negativas. Tudo isso pode ter grande efeito sobre as inegáveis conquistas na área de desigualdade de renda no trabalho observadas nos últimos anos. Se isso ocorrer, toda essa discussão sobre o método utilizado para o cálculo da desigualdade torna-se desnecessária: a desigualdade tenderá mesmo a aumentar.

Gustavo Theodoro

Piketty e a Matemática

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Nesta semana, o colunista da Folha de São Paulo Hélio Schwartsman citou experimento de Dan Karam. Neste experimento restou demonstrado que as preferências políticas de um indivíduo prejudicam até mesmo sua capacidade de fazer cálculos matemáticos. O tema foi evocado diante das discrepâncias entre os números do rombo causado por decisão do STF relativa à constitucionalidade de um reajuste aplicado na caderneta de poupança nos anos 1990.

Nesta semana, o Financial Times colocou em cheque os cálculos realizados por Thomas Piketty em seu O Capital do Século XXI. Segundo o jornal, para alguns dados contidos no livro, em especial no que tange à desigualdade entre ricos e pobres, não foi possível justificar sua origem. E o foco das críticas é justamente o capítulo 10 do livro, considerado central pela maioria dos resenhistas, visto que congrega os dados sobre a desigualdade de patrimônio entre ricos e pobres.

Uma das críticas mais relevantes do Financial Times diz respeito a um dado sobre o Reino Unido: Piketty estima que 10% dos britânicos têm 71% da riqueza nacional, enquanto o governo do país fala em 44%.

O tema é complexo, já que nem sempre é possível confiar nos dados disponíveis referentes a essas grandezas. Aqui no Brasil compradores de imóveis costumam registrar a transação por valor inferior ao efetivamente desembolsado. O Reino Unido e especialmente os EUA incentivam, por seu sistema tributário, a criação de Fundações para gestão do patrimônio próprio. Além disso, dentre os cálculos efetuados pelos órgãos governamentais – como desemprego, PIB e inflação – não está o cálculo da desigualdade de renda e patrimônio.

Assim, cada pesquisador deve buscar as melhores maneiras de se mensurar desigualdades de renda – que normalmente é mais facilmente medida – e de patrimônio. Piketty criou, em parceria com algumas dezenas de pesquisadores, um sistema de informações cujos dados foram divulgados para a comunidade científica antes da publicação do livro. Assim, os dados do livro partem com relativa credibilidade.

No entanto, como analista Piketty se mostrou parcial e, por que não dizer, marxista, no pior sentido do termo. Ou seja, Piketty parece acreditar na profecia de Marx de que o capitalismo tende à sua própria destruição, pois a concentração de renda levaria, inevitavelmente, à revolução deflagrada pelos que estão na base na pirâmide. Ao mesmo tempo, a solução apontada por Piketty – de estabelecer um imposto agressivamente progressivo sobre o patrimônio – foi majoritariamente refutado pelos estudiosos em tributação em razão dos conhecidos efeitos contrários aos pretendidos.

É de se notar que o Financial Times é jornal de perfil liberal, sempre pronto a combater qualquer iniciativa dos estados nacionais tendentes ao aumento da regulação da economia ou da carga tributária. Com essa vocação, é provável que o escrutínio dos repórteres buscasse erros nos fundamentos ou na argumentação. Após poucas semanas de pesquisa, o jornal deu apenas um dia para que o autor se manifestasse sobre as críticas levantadas. A seguir publicou a matéria. Piketty disse que precisará de tempo para responder às críticas, mas reiterou que não há erros em seu livro.

Voltemos a Dan Karam. Tanto o Financial Times quanto Piketty têm preferências políticas que justificam o surgimento das diferenças nos cálculos formulados. É certo que a discussão, que ganhou destaque na imprensa mundial, tende a se esclarecer nas próximas semanas. Ao contrário dos desejos de Piketty, o acerto de seus números deve contribuir apenas para reduzir a desigualdade, e não para por fim ao capitalismo como sistema dominante no mundo.

Isto porque a economia é ciência social e não exata. Nela, a política desempenha importante papel, provocando até a derrubada de governos que não promovem suficiente justiça social. Como escreveu Delfim Netto nesta semana, a economia sempre implicará uma valorização filosófica. E esta valoração acionará os mecanismos de controle de que os estados dispõem. Seguiremos acompanhando este assunto por aqui.

Gustavo Theodoro

O Novo Capital

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A última moda é comentar o livro de Thomas Piketty (será lançado no Brasil pela Intrínseca com o título O Capital no Século XXI), que tem causado alvoroço na imprensa e provocado embates acirrados entre progressistas e conservadores. Segundo todas as resenhas que li, o livro é bom, tem pesquisa rigorosa e merece a atenção que lhe tem sido conferida. Os direitos para sua publicação aqui no Brasil já foram negociados, mas seu lançamento em português ainda deve levar alguns meses.

O livro de Piketty destaca o aumento da desigualdade entre ricos e pobres verificado nos países centrais. Houve um pico de desigualdade entre o final do século XIX e início do século XX, que foi revertido após a Primeira Guerra Mundial. Segundo Piketty, a onda de liberalismo inaugurada por Thatcher e Reagan aumentou novamente as diferenças sociais em termos muito parecidos ao pico verificado no período de 1900 a 1913.

Foram levantadas poucas críticas ao diagnóstico de Piketty. Sua pesquisa foi bem elaborada e suas conclusões parecem estar corretas; pelo menos quanto ao diagnóstico. Já as suas propostas merecem um exame mais detido. E o debate de suas teses no Brasil demanda considerável ajuste de perspectiva, visto que a situação aqui é bastante diferente da constatada nos países centrais.

A solução para o problema do aumento da desigualdade, na visão de Piketty, passaria pelo aumento da progressividade nos impostos sobre a renda e sobre a herança. Em alguns casos, a proposta é que a tributação atinja 80% da renda auferida ou do patrimônio transmitido.

Os EUA são o palco ideal para as discussões propostas por Piketty, já que o Partido Republicano, desde Reagan, tem defendido a tese de que os mais ricos devem ter uma tributação menor, visto que são eles os responsáveis pelos investimentos que geram o efeito multiplicador na economia. Nessa visão, a geração de empregos e o crescimento do país dependem de uma tributação mais favorável àqueles que auferem maiores lucros e acumulam capital.

Culturalmente, os americanos relacionam a capacidade de ganhar dinheiro ao mérito pessoal. Assim, aqueles que enriquecem teriam vencido em sua sociedade, enquanto os que ficaram para trás são taxados de loosers (perdedores). Neste cenário, impor maior taxação aos mais ricos seria equivalente a punir o mérito.

Lançada a tese, a sociedade americana se dividiu instantaneamente. Economistas liberais (no sentido americano) tais como Stiglitz e Krugman imediatamente apoiaram as ideias de Piketty. Analistas conservadores consideraram as ideias de Piketty mais uma tentativa de intelectuais franceses de trazer o socialismo para o solo americano. Ou seja, lá, como aqui, o debate segue com boa dose de irracionalidade, com os grupos se alinhando automaticamente a seus velhos e confortáveis conceitos.

Aqui no Brasil já temos visto a esquerda se alinhando às ideias de Piketty, saudando-o como o legítimo representante da nova esquerda. Rodrigo Constantino escreveu na Revista Veja desta semana um ataque ao livro de Piketty bem ao gosto dos conservadores americanos, acusando-o de comunista e de seguir a cartilha de Marx. Não se pode esperar mesmo muito do Constantino.

É bom que importemos este debate para o Brasil, ainda que seja necessário ressalvar que nossa situação é totalmente diferente da dos países centrais. Aqui, desde 1994, a desigualdade entre ricos e pobres vem caindo continuamente. Portanto, a principal premissa de Piketty não se aplica à nossa realidade. Em razão disso, a discussão de suas teses, aqui no Brasil, deve ser muito mais cuidadosa.

No entanto, há algo na proposta de Piketty que deve nos interessar: o aumento da progressividade dos impostos diretos. Como já me referi em colunas anteriores, o país não é só injusto: é pobre também. Aqui, os 5% mais ricos tem renda mensal na faixa de R$ 10 mil reais (segundo os órgãos oficiais). Logo, devemos ter sempre muito cuidado quando propomos tributar os mais ricos. A classe alta assalariada já é submetida a uma carga bastante elevada.

Há espaço para a adaptação das teses de Piketty para o Brasil. Somos um país que tributamos excessivamente o consumo. E tributamos pouco algumas rendas e patrimônio. Nosso IRPJ apresenta alíquota máxima de 15% – porta usualmente utilizada pelos empresários e pelos banqueiros para auferir suas rendas – enquanto a pessoa física assalariada está submetida a uma alíquota de até 27,5%. O IPVA não incide sobre embarcações e aeronaves. O ITR dos grandes latifúndios é irrisório se comparado ao IPTU e ao IPVA. E os impostos sobre herança são muito inferiores aos praticados pelos países desenvolvidos.

Se a discussão das propostas de Piketty nos levar a uma análise técnica de nossa tributação sobre o patrimônio e a renda, será vantajoso para o Brasil a importação deste debate. Se continuarmos tratando apenas do conflito de classes, utilizando os velhões chavões marxistas (elite x trabalhador proletariado) ou os igualmente velhos chavões do Partido Republicano americano (que transforma pessoas em vencedores e perdedores), não traremos nenhum ganho dessa discussão.

Infelizmente, o livro está sendo lançado em um período de acirramento eleitoral (tanto nos EUA quanto no Brasil), o que nos faz crer que dificilmente obteremos efeitos positivos da discussão sobre os instigantes diagnósticos trazidos pelo livro. Pretendo acompanhar os debates por aqui e talvez volte ao tema daqui a alguns meses.

Gustavo Theodoro