Conservadorismo

Bolsonaro Anti-Conservador

Nas últimas semanas surgiu nos grandes jornais discussão em torno do voto em Bolsonaro de ditos “Conservadores” que, após terem declarado voto e participado ativamente da campanha, agora se dizem arrependidos, apontando as inconsistências entre o bolsonarismo e o conservadorismo. É, de fato, surpreendente que alguém que se identifique como conservador em algum momento tenha cogitado votar em Bolsonaro.

É certo que o movimento conservador pode em muitos momentos ser confundido com reacionarismo, com nostalgia e até mesmo com algum novo tipo de religião com aspectos aproveitados de características do cristianismo. São poucos os autores conservadores que seriam capazes de apontar semelhanças entre esses movimentos.

Prudência talvez seja a característica comum dentre as correntes que compõem o movimento conservador. Basta tomar conhecimento de alguns momentos-chave da vida de Jair Bolsonaro para asseverarmos que não há traços dessa característica nele. Vamos nos lembrar de que ele, quando era Tenente do Exército, elaborou croqui, de próprio punho, com planos de colocar bombas na adutora do Guandu, no Rio de Janeiro, em sua luta por melhores salários. Posteriormente, defendeu o assassinato de parte da população brasileira, o fuzilamento do Presidente da República e o fechamento do Congresso como medidas necessárias para a melhoria do Brasil, mesmo que no processo morressem inocentes.

Esse desprezo por vidas inocentes deu as caras novamente com a emergência da Covid-19, que levou o Brasil a ser referência negativa na mitigação dos efeitos da pandemia. Na história moderna são os defensores das revoluções que, em geral, consideram aceitável a perda de vidas em busca de um bem maior: o “progresso” ou uma “nova sociedade”. É a herança do iluminismo e da Revolução Francesa que justifica a perda de vidas inocentes em troca de um futuro benefício da sociedade. Lembremo-nos de Sartre, que defendia que “julgássemos o comunismo por suas intenções, não por suas ações”, ao admitir a existência dos campos de concentração. Nada está mais distante do conservadorismo do que essa forma de ver o mundo.

Outra característica marcante do conservadorismo é o ceticismo. Ao contrário daqueles que têm como certo que o futuro da sociedade será estável, tranquilo e livre de conflitos, como vimos nas expectativas em torno do Comunismo de Karl Marx e com o fim da história de Francis Fukuyama, o conservadorismo reconhece a imprevisibilidade da política, entende que mesmo as melhores intenções podem levar aos piores resultados e, por isso, prefere melhorias incrementais às ações disruptivas. A certeza, a partir da visão de Hegel da história, de que o destino de qualquer sociedade é o Comunismo ou a sociedade liberal ocidental leva a tentativas de apressar a história por meio de revoluções ou guerras para espalhar democracias liberais pelo mundo.

O conservadorismo sofre influências ainda das sociedades gregas e romanas, em especial desta última, que se moveu em torno a necessidade de preservação de Roma e da importância de sua fundação, tal como os americanos hoje reconhecem a importância da Revolução Americana, das ações dos fundadores da república e de sua Constituição. A mensagem é de preservação das instituições, da necessidade de controles sobre os homens públicos com algum poder e da importância da preservação do espaço público para o exercício da política.

Evidente que, como qualquer conceito, não é possível esgotar todas as características do conservadorismo sem enfrentarmos alguma contradição. Edmund Burke, que para muitos é uma das maiores referências do conservadorismo, até por sua renhida oposição à Revolução Francesa, escrevia seus textos de uma forma eloquente e emocional, nem sempre condizente com a prudência e o ceticismo próprios de seu campo de pensamento.

As dificuldades de conceituação, no entanto, não chegam ao ponto de aproximar o bolsonarismo do conservadorismo. Bolsonaro é um oportunista que soube se aproveitar dos flancos deixados pela “alt-left” e suas infindáveis discussões de gênero, raça, cor, da cultura de cancelamento que ela trouxe consigo e do anseio por alguém não ligado à corrupção revelada pela Lava Jato. Bolsonaro soube, ainda, atiçar os preconceitos de um Brasil profundo, que resiste às mudanças no campo dos costumes e à redução da religiosidade de parte da sociedade ocidental; que busca soluções rápidas no combate à criminalidade por meio de ações em que nem sempre os direitos humanos são observados. A cereja do bolo de sua eleição foi sua transformação em um liberal no campo da economia com a aproximação de Paulo Guedes.

O suposto conservador que votou em Bolsonaro deixou de lado as principais referências de seu campo de pensamento: a prudência e o ceticismo. Até hoje vemos autodenominados conservadores com fé na moderação de Bolsonaro e relevando suas atitudes imprudentes. Se você é um deles, talvez seja hora de reavaliar sua concepção de si próprio, pois Bolsonaro não passa de um ignaro reacionário aspirante a tirano.

Gustavo Theodoro

Conservadorismo Americano

Esses conceitos de esquerda x direita andam bastante imprecisos atualmente. Mas uma característica marcante do pensamento conservador é projetar no passado uma época de grandeza, ressaltando a decadência dos tempos modernos.

E uma das marcas do pensamento “progressista” é projetar no futuro a redenção da sociedade (vide Marx e seu socialismo utópico); trata-se de herança também de Hobbes e do Iluminismo, que transladaram para a política a tendência à evolução constatada nas demais áreas do conhecimento.

O protecionismo e o nacionalismo, no entanto, dificilmente poderiam ser claramente identificados com a direita ou a esquerda, mas certamente é característica dominante do conservadorismo.

Trump só destoa do perfeito conservadorismo em sua visão sobre o uso de drogas e à união de casais do mesmo sexo. Mais do que tudo, sua eleição nos deu um bom retrato da sociedade americana, conservadora, anti-intelectual e nacionalista.

Essa eleição nos mostra também que a desconstrução de adversários nem sempre apresenta os melhores resultados. O candidato precisa também ser capaz de apresentar caminhos que apresente ganhos à sociedade.

A vitória de mais um outsider da política com discurso claramente xenófobo em relação aos muçulmanos e mexicanos não deixa de ser um alerta para todos nós. Pois a direita pode ser majoritária no mundo. Mas o conservadorismo não me parecia ter essa preponderância até o momento. Vamos ter que conversar ainda muito sobre isso.

Gustavo Theodoro

Para Além do Passado

isaiah berlin

Por muito tempo, dei conselhos à esquerda. De longe, ficava parecendo que eu queria ensinar a esquerda a ser esquerda. A forma como eu percebia a realidade nos anos do PT indicavam-me que a existência de uma esquerda mais autêntica parecia comprometida em face do espaço que o PT e seu Governo ocupavam. O lixo cultural da esquerda dos anos 1960 e 1970 nunca contribuiu muito para o movimento, por dividi-lo em torno de teses improváveis.

Tudo indica que teremos à frente – se ele vingar – um governo conservador. Não gostei do primeiro retrato. Quando me afastei da esquerda há alguns anos descobri que havia muitos pensadores críticos da esquerda, mas ao mesmo tempo muito pouco afinados com a nova direita – que teve seu início com Thatcher e Reagan, mas que culminou em Tea Party e Fox News –, e em total oposição à velha direita, representada pelo comportamento autoritário, cuja expressão pode ser encontrada, de alguma forma, no fascismo.

Eu pretendo contribuir formulando alguns pensamentos e críticas a esse movimento que parece se enamorar de políticos populistas, grossos e autoritários, como Bolsonaro, ou, em outro campo, buscam um resgaste às tradições aristocráticas, resgatando imagens do passado para reembalá-las e apresentarem aos incautos como novidade.

Assim como para a esquerda havia alternativas ao populismo nacionalista em conchavo com a nata da corrupção, à direita há opções às alternativas conservadoras, elitistas e autoritárias. Não sei se esses caminhos alternativos algum dia deixarão de ser minoritários.

Na esquerda, Léon Blum, histórico líder do partido socialista Francês, esteve brevemente no Governo graças à sua persistência em manter seu partido fora do campo de influência dos soviéticos. Alexis de Tocqueville nunca foi apreciado pela direita ou pela esquerda, em face de seu pensamento singular. Isaiah Berlin tampouco era cortejado pelos movimentos organizados face à sua crítica ao determinismo (que afastava os marxistas), à sua defesa do pluralismo, à sua crítica a Hegel e Rousseau – e até a Kant – e sua condenação do autoritarismo, da conformidade e do “procustianismo”*.

O mundo é esse mesmo que temos diante de nós. Mas nossos alinhamentos não precisam ser automáticos nem irrefletidos. É essa a discussão que me interessa no momento.

Gustavo Theodoro

*Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente.