Filosofia

Inútil Pensar

O sucesso junto ao grande público de alguns “filósofos” brasileiros contemporâneos, como Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho, impressiona, pois não se pode dizer que a filosofia viva seu grande momento na história. Pelo contrário, parece que quem se dedica à filosofia na atualidade raramente consegue ir além da história da filosofia. Ou, como fazem os ilustres pensadores citados, produzem uma sopa de autoajuda regada a citações filosóficas, quase se aproximando de um “stand up comedy” erudito, com muitos aforismos e pouco conteúdo.

Robert Pirsig, autor do clássico “Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas”, sentia-se frustrado com o fato de a filosofia ter se transformado em uma espécie de história do pensamento. No entanto, quando se aventurou a tratar de um tema que lhe era caro, a Qualidade, acabou produzindo um livro superficial e sem consistência. A explicação para esse resultado não é trivial, mas se relaciona com sua recusa em se aprofundar no estudos dos filósofos mortos.

No princípio, a filosofia era altiva e pretensiosa. Os pré-socráticos se dedicavam a abstrações, ao Ser, aos questionamentos sobre o movimento e o caráter cíclico do mundo. Foi só a partir do período socrático que as perguntas clássicas da filosofia foram formuladas: O que posso fazer? O que devo fazer? O que posso esperar?

Platão erigiu a filosofia do diálogo, em que o conhecimento era produzido – ou quase sempre destruído – a partir de emparelhamento de pontos de vista. Como os diálogos de Sócrates eram quase sempre inconclusivos, para os observadores a filosofia não passava de atividade para desocupados. O constante repensar dos conceitos fez com que os cidadãos atenienses considerassem os filósofos “perigosos”, capazes de provocar desordem nas cabeças dos mais jovens.

Aristósteles foi mais ambicioso. Seus temas envolviam da ética à física. É daqueles filósofos de mão cheia, mas que teve parte de sua filosofia abandonada nos séculos recentes, pois o método científico ainda não havia amadurecido e suas reflexões sobre as ciências exatas eram, quase sempre, equivocadas.

Os epicuristas e estoicos se dedicaram a construir uma teoria do viver bem. Santo Agostinho colocou o amor no centro de suas reflexões, enquanto São Tomás de Aquino buscou unir razão à fé. Não é fácil fazer filosofia a partir da simples observação da natureza desprezando todo esse conteúdo disponível.

Kant criou uma vasta filosofia moral, que tirou Deus e a metafísica da equação para introduzi-los novamente, suave e disfarçadamente, pela porta dos fundos de seu edifício filosófico. Shoppenhauer percebeu essa fragilidade e buscou dar outra solução para o problema, mas a falta de exposição de suas ideias (ele vivia de rendas, pouco conviveu com outros pensadores e alunos) acabaram limitando sua obra. Hegel, seu contemporâneo (e por quem Shoppenhauer nutria indisfarçável inveja), construiu notável filosofia, que influenciou quase todos os importantes filósofos do século XX e ainda estabeleceu as bases conceituais utilizadas por Marx em seus escritos.

Nietzsche apoiou-se nas metáforas como modo de ir além de seus antecessores. O tradicional método analítico não lhe parecia bastar. Tampouco era apreciador da dialética, que mais se assemelhava a uma disputa. Chegou o momento em que os aforismos se apresentaram como uma forma eficaz de pensamento. Provavelmente Nietzsche mais destruiu do que construiu, mas é certamente o filósofo mais influente do século XIX.

Edmundo Husserl, no início do século XX, percebeu que a filosofia havia se afastado da vida cotidiana, da análise do ser e das coisas livres de conceitos. Criou um novo ramo do pensamento, a fenomenologia, que buscava voltar a olhar os objetos tal como eles se apresentam, dispensadas as classificações que previamente se estabelecem. A ideia era deixar de ver o filósofo como aquele pensador solitário, com a cabeça enfiada nos livros, gastando suas vidas escrevendo livros para pouquíssimos lerem. A fenomenologia teve o existencialismo como filho.

Heidegger devolvia a filosofia para o mundo, sendo considerado o pai do existencialismo alemão. A dificuldade de fazer filosofia do cume do conhecimento filosófico erguido por seus antecessores o levou a expandir a própria linguagem. É comum se dizer que só se faz filosofia em alemão. Heidegger é, em grande parte, responsável por isso. O alemão permite naturalmente a criação de novas palavras a partir da composição de substantivos. Heidegger abusou desse mecanismo, buscando principalmente evitar os reflexos condicionados que os antigos termos provocavam sobre os leitores habituais de filosofia.

O existencialismo francês era mais verborrágico e mundano. A ideia de poder filosofar sobre qualquer coisa, sobre uma bebida servida em um bar ou sobre um objeto deixado no chão, atraiu os pensadores do período entreguerras. A urgência do mundo parecia não mais comportar filósofos fechados em suas universidades discutindo temas sem impacto no mundo real. “A existência precede à essência”, era o lema dessa nova corrente de pensamento.

Infelizmente para a filosofia, a mais popular corrente filosófica do século XX não serviu a suas figuras mais destacadas. Heidegger foi promovido a reitor no primeiro ano do Nazismo e sua biografia ficou marcada para sempre por esse episódio. Sartre, que passou a defender o engajamento dos intelectuais, fez defesas injustificáveis de regimes totalitários. Quanto mais envelhecia, mais parecia perder sua capacidade de discernimento.

Dos pós-modernistas e os estruturalistas que os seguiram, não se encontram termos elogiosos a descrevê-los. O caminho aberto por Heidegger, de utilizar termos pouco claros que davam impressão de conter conceitos profundos, foi levado às últimas consequências por seus sucessores. O charlatanimo confundiu-se com pensamentos supostamente profundos. Não é difícil explicar o silêncio dos intelectuais na contemporaneidade. Em um mundo em que não se consegue distinguir uma pós-verdade de um fato, colocar-se nele significa, aparentemente, nivelar-se por ele.

Além disso, filósofos mostram-se capazes de erros de julgamento tão brutais como o cidadão comum. Vide o apoio de Platão ao despotismo, de Heidegger ao Nazismo e de Sartre a Stalin e Mao. Diante desse quadro, não chega a surpreender a vitória de Trump nos EUA ou de uma possível, mas não provável, vitória de Bolsonaro no Brasil. Se nem quem fez do ofício o pensar conseguiu tomar decisões sensatas, o que esperar da população em geral?

Nesse mundo fluido (líquido), há uma perplexidade da filosofia atual que envolve sua própria existência: ainda é possível fazer filosofia de fato nos dias atuais? Ou não passaria ela de um inútil pensar? Ou será que essa aparente inutilidade da filosofia não é mesmo seu elemento de reconhecimento? Merleau-Ponty dizia que “o filósofo é marcado pelo traço distintivo de possuir inseparavelmente o gosto pela evidência e o senso da ambiguidade”. E que é necessário um movimento constante entre eles, “que vai incessantemente do conhecimento à ignorância, da ignorância ao conhecimento”. O insight dele é o de que nunca passaremos da ignorância à certeza definitivamente, pois o fio do questionamento sempre nos levará de volta à ignorância. Nessa época de tantas certezas, não será essa a melhor defesa da filosofia?

Gustavo Theodoro

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Daquilo Que Eu Sei

pensador

Sartre dizia, quando jovem, que tinha o livro como um objeto sagrado, representando para ele muito mais do que tão somente a perspectiva de novos conhecimentos. Era a própria verdade, pura, inata, que cedo ou tarde se desvelaria por meio da leitura.

Eu já fui grande apreciador de Sartre. Li quase tudo que ele escreveu. Até mesmo seu livro sobre Freud, de quem sou crítico, acho admirável. Com o tempo fui me afastando de Sartre. Hoje só aprecio O Diabo e O Bom Deus – muito – e A Náusea – menos. Mantenho, no entanto, parte do sentimento pelos livros descrito por Sartre. As capas, as orelhas, as sinopses, tudo isso enceta a promessa de encontrar, senão a verdade, aquele pensamento inédito ou uma reflexão brilhante sobre o mundo ou sobre a vida.

É evidente que, com o tempo, com a maturidade, muitos escritos se tornam comuns, às vezes até banais, mesmo quando referendados pela crítica. A filosofia tampouco foi capaz de produzir, a partir da segunda metade do século XX, algo realmente original. Há ainda boa literatura sendo produzida, mas ela é claramente menos essencial do que a dos clássicos.

Foi Adorno, em 1945, quem cunhou o termo indústria cultural, que interpretou a arte como uma forma de manufatura. Tal como um tijolo, a produção de livros passou a depender de investimento para subsistência do autor durante sua escrita, para adquirir papel, para pagar encadernação e para fazer frente aos demais custos de produção. Como dinheiro foi investido, passou a ser necessário que o produto fabricado tivesse mercado, pois senão o editor capitalista não se reembolsaria nem obteria lucro. Esse método fabril teve grande impacto sobre o meio literário, provocando incremento na produção e nas vendas, com consequente redução na qualidade.

Eu tenho fortes ligações com a indústria cultural contemporânea. Aprecio alguns filmes – cada dia menos -, uma boa quantidade de séries e poucos autores literários. Mas se é profundidade o que se busca, não há como fugir das velhas obras.

É bom advertir que, para quem busca a verdade, com V maiúsculo, não há esperança, mesmo que se recorra aos clássicos. Não que ela não esteja lá. Mas há uma máxima que diz que o verdadeiro clássico nunca diz tudo. Seja na literatura, seja na filosofia, sempre que um autor se aproxima das mais quentes questões de nossa existência, a verdade nos foge. O famoso princípio da incerteza da física, que impõe limites a nosso conhecimento do mundo, parece se estender para além de sua aplicação original.

A filosofia historicamente evoluiu como exercício de refutação e recomposição. Aristóteles tem Platão como mestre e o refuta. O mesmo se viu com Schopenhauer e Kant, Nietzsche e Schopenhauer, Heidegger e Husserl. Assim, o pensamento pode ser contado como uma história de construção e desconstrução, tese e antítese, mas sem revelar um sentido evolutivo, como se percebe nas ciências exatas.

Com o estupendo avanço das ciências físicas, a filosofia e a política se viram diante da necessidade de responder a esse tipo de questionamento. Hobbes tentou – e fracassou -, a partir da observação da realidade e de dados empíricos, descrever a política a partir de relações de causa e efeito. Essa busca por encontrar equações tal como a lei da gravitação universal para o campo das ciências humanas fracassou redondamente. A política remanesce imprevisível e o pensamento filosófico segue sem dar mostras de que está evoluindo.

Nietzsche percebeu o impasse que vivia a filosofia. Tentou o raciocínio analítico, a crítica, as metáforas e as alegorias. Chegou até a declarar que só era possível filosofar por meio de aforismos. Ao final enlouqueceu (foi a sífilis, mas isso não importa).

Na segunda metade do século XX a filosofia caiu em descrédito, tendo utilidade, quando muito, para fornecer argumentos de autoridade ou para ser consumida – e destroçada – pela indústria cultural. Em outras palavras, a mensagem contemporânea é a de que não se deve perder tempo lendo obras mais profundas, sendo apenas exigida socialmente a exibição de algum conhecimento de autores, quiçá de alguns aforismos, com objetivo autopromocional.

Essas observações fazem surgir a dúvida se devemos ou não investir tempo enfrentando autores muitas vezes herméticos, acompanhar intrincados exercícios de pensamento ou mesmo ler bons clássicos de conteúdos aparentemente superados.

Apesar de não entregar aquilo que os livros prometiam a Sartre, um bom romance de Tolstoi, Vitor Hugo ou Thomas Mann, por exemplo, oferece material para reflexão muito superior, por exemplo, do que livros conhecidos como de “autoajuda”. Ou seja, além de oferecerem entretenimento de muita qualidade, essas obras contribuem para o tão buscado “desenvolvimento pessoal”.

Some-se a isso o fato de que as obras filosóficas colocam o leitor em contato com refinados exercícios de pensamento, cujas técnicas podem ser utilizadas como ferramentas na observação de qualquer fato da vida social. É raro encontrar algum erro na construção do raciocínio por parte de um grande filósofo como Hegel ou Heidegger. Esse tipo de leitura torna nosso software cerebral mais apto a atuar quando exigido.

Além dessas funcionalidades de caráter instrumental, volta e meia a leitura de boas obras responde questões que não tínhamos sequer cogitado elaborar, assim como nos leva a elaborar perguntas que alargam nossa concepção de mundo assim que a formulamos.

Em regra, o ser humano busca mais do que apenas sobreviver, se divertir e “curtir a vida”. O caráter superficial de nossa sociedade, a valorização excessiva do modo de vida “jovem”, a entronização da satisfação imediata e constante de qualquer desejo e a imensa disponibilidade de “produtos culturais” pode estar afastando as pessoas desses outros “desafios”.

O que nem sempre está claro é que é possível também se divertir e “curtir a vida” com outros tipos de experiência que, colocadas em concorrência, acabam sendo preteridas. Martin Seligman defende inclusive que as pessoas são mais felizes, “autenticamente felizes”, quando praticam e completam atividades de maior fôlego.

O principal argumento, no entanto, não comporta argumentos utilitaristas. Disse o filósofo conservador contemporâneo Roger Scruton, que, fora do campo das necessidades,  o que é importante na vida não tem qualquer utilidade. E o que é importante transborda da leitura dos clássicos.

E aí? Animou?

Gustavo Theodoro

O Espanto do Filósofo

A alta velocidade da vida moderna nos aliena da reflexão sobre o mundo ao nosso redor. O sentimento de urgência é incentivado pela atualidade. Carpe Diem, expressão que contém uma mensagem positiva, pode também trazer angústias quando fazemos apenas o que a vida nos exige, sem conseguir cumprir as expectativas próprias e externas. Com isso, a urgência por aproveitar a vida nos impede de aproveitá-la. Voltaire chegou a tratar do assunto quando disse que a busca pela felicidade tornou a humanidade mais infeliz. E o grau de infelicidade aumenta com a intensidade da busca.

A leitura de autores clássicos, filósofos antigos e contemporâneos, nos dá uma boa indicação deste fenômeno. As perguntas essenciais da filosofia helênica envolviam o termo por que. O objetivo da busca pela filosofia era encontrar a verdade, que deveria estar em algum lugar dentro de nós mesmos, cuja porta de acesso era, provavelmente, a contemplação. A política gozava de baixo interesse, refletindo a desimportância atribuída à vida ativa na época.

Apesar de os romanos terem concepção oposta a dos gregos, sendo homens essencialmente práticos, a filosofia que vicejava no período ainda se ocupava dos porquês, era ainda resistente a deixar a essência de lado. Foi com o Iluminismo que os homens abandonaram a busca pela verdade por algo mais imediato, cuja resposta poderia ser obtida de outra maneira.

São diversos os sinais de que foi a era da razão que promoveu essa revolução no modo de conceber o mundo e que, quem sabe, é a origem dos atuais males de nossa sociedade. Aqui não se está minimizando ou desconsiderando os enormes avanços científicos promovidos pela elevação da razão e da vida ativa ao centro de nossa vida na terra. A contemplação era prática corrente no Cristianismo até o século XVI, pelo menos, havendo relatos dessa prática no catolicismo até no século XVII.

A escola da dúvida, criada por Descartes, penetrou nos mais diversos ramos do conhecimento. Os limites do incognoscível foram delineados. Kant tratou a coisa-em-si, ou seja, aquilo que existe independentemente de nossa nossa existência, com certo descaso. Assim, Kant escreveu o epitáfio da metafísica, ao mesmo tempo que a substituição do por que pelo como fazia a ciência e a técnica progredirem.

Kierkegaard, que se tornou cristão, procurou escapar da dúvida, mas acabou por levá-la para dentro da religião. Sem querer, também os filósofos não se deram conta dos possíveis efeitos do império da razão sobre a filosofia. Goethe lutou com todas as forças contra as evidências científicas da época. Escreveu um livro magnífico sobre a teoria das cores, erudito e belo, porém reprovável pela falta de método científico. Goethe seguiu a velha escola e disse algo que poderíamos muito bem colocar na pena de Platão: eu submerjo em mim mesmo e encontro o mundo.

Como diria Robert Pirsig, autor venerado de Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas, deixamos de filosofar para fazermos filosofosofia, ou o estudo dos filósofos. Nada mais distante das ideias de Platão, que dizia que o filósofo não nascia da leitura, mas da observação do mundo, do espanto por sua existência ou, em suas palavras: “O assombro é o que mais sente o filósofo, e a filosofia não tem outra origem senão esta”. Confirmando que era esse o espírito da época, Aristóteles também deixou escrito algo parecido: “Pois é devido ao seu espanto que os homens começam a filosofar, tanto hoje como antes”.

Os tempos atuais são outros. Não sei se tenho alguma proposta de solução para a crise do homem moderno e sua incessante e infrutífera busca pela felicidade. Mas os que se aventurarem pelo caminho da filosofia devem ter em mente que é o estar no mundo que nos desperta para a filosofia; é o tipo de olhar próprio do filósofo, interessado e espantado, afeito mais ao porquê que ao como. É a observação do mundo e a coragem para fazer as perguntas sem respostas que forjam o verdadeiro filósofo, ainda que as respostas não estejam ao nosso alcance.

Gustavo Theodoro

Universo Eterno

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Hannah Arendt se recusava a reconhecer que a modernidade teria criado novos sistemas políticos. Retornando a Atenas e a Roma, poderíamos identificar todas as formas de sistemas políticos de que somos testemunhas: a tirania, o despotismo, a república, a democracia e a monarquia. Com o aparecimento do totalitarismo, Arendt foi forçada a reconhecer que estava diante de uma novidade, de algo inédito na história da humanidade.

A antiguidade nos legou um conjunto de saberes que até hoje nos influenciam. Demócrito, filósofo pré-socrático, formulou o atomismo, fundada na tese de que tudo o que conhecemos poderia ser reduzido a um pequeno constituinte, uma unidade fundamental microscópica constituinte de todas as coisas. As ciências físicas no século XX reciclaram as ideias de Demócrito, explicando o mundo por meio da teoria atômica. Atualmente, o que denominamos átomo não se confirmou como a unidade básica da matéria, sendo substituído pelos quarks e léptons.

É da antiguidade que primeiro emergiu as teorias que descreviam o mundo como algo único, imutável em sua essência, ou como algo em permanente mudança. Para Parmênides, toda mutação é ilusória. Já Heráclito era o representante da impermanência do mundo. Para ele: Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado… Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo…É na mudança que as coisas acham repouso…

Essa discussão marcou a filosofia, reaparecendo nas obras de diversos filósofos modernos. Mas esses pensamentos não influenciaram só a filosofia. A física, que nasceu da filosofia, herdou essa discussão e a levou para análise da formação do universo.

Chegou a ser consenso na comunidade científica a tese de que nosso universo teve origem em uma grande explosão, o Big Bang, ocorrida há alguns bilhões de anos. Apesar de não implicar necessariamente um início do mundo, a teoria do Big Bang parece ser mais bem adequada a um momento de começo de tudo, parece referenciar um momento de formação de todas as coisas, um início. No entanto, não é a física que nos leva ao Big Bang, mas nossa cultura, nossa forma de pensar, nossa cultura. A física explica como o universo se expandiu após a explosão, mas não é possível explicar os primeiros momentos de existência do universo.

É dessa brecha que se aproveitam os cientistas céticos do Big Bang. O universo pode não ter tido início, mas oscilar entre expansão (a fase em que estamos no momento) e compressão (tal como ocorre nos buracos negros). Provavelmente, Parmênides teria maior simpatia por teorias como essas, sem rupturas nem inícios. Essas ideias, muito menos populares do que as do Big Bang, estão congregadas na Teoria do Universo Eterno. Mario Novello, físico brasileiro, é autor de uma dessas teorias.

Gustavo Theodoro

Filosofia e Política

A dissociação entre verdade e política se reflete, também, na dissociação entre filosofia e política. A filosofia foi marcada, desde de a antiguidade, por um sentimento de desconfiança da política pelos filósofos. A morte de Sócrates marca o momento em que os filósofos perceberam os riscos que corriam.

Sócrates foi condenado à morte em razão da livre atividade de pensamento que exercia. Como incitava o debate com o objetivo mais de provocar dúvidas que certezas, os tribunais de Atenas julgaram que ele desencaminhava a juventude. Platão, que era seu discípulo, passou a insistir em um modelo político que tinha os filósofos como tiranos, pois – assim ele pensava – só dessa maneira os filósofos poderiam prosseguir em sua busca pela verdade. Para Platão, não era o gosto pela política que levariam os filósofos a praticá-la. O que estava em jogo era a própria segurança física.

O episódio é importante para ilustrar que, se é fato que os políticos não são bons filósofos, é igualmente de se esperar que os filósofos não sejam bons políticos. Quase parafraseei Kant, que dizia que não é de se esperar, nem é desejável, que os reis filosofem e os filósofos reinem.

Heidegger foi um dos maiores filósofos do século XX, influenciou mais de uma geração e ainda hoje é muito lido e estudado. No entanto, quando resolveu participar da vida ativa, quando buscou seu espaço na esfera política, associou-se ao Nazismo, filiou-se partido e foi Reitor da Universidade de Freiburg entre 1933 e 1934.

Assim como políticos têm dificuldades com a filosofia – até pela falta de familiaridade com a verdade -, filósofos têm dificuldades com a política, talvez por desconhecimento da vida prática. Além disso, nunca se pode esquecer que a atividade política exige compromissos, com consequente redução da liberdade que caracteriza a atividade do filósofo. Na descrição de Schopenhauer, o verdadeiro filósofo vive perigosa, mas livremente (Gefährlich, aber frei).

Fernando Haddad, Prefeito de São Paulo, é Doutor em Filosofia. Político e filósofo, talvez para desafiar a experiência histórica. Apesar de elogiado em pequenos círculos intelectuais, já apresenta taxas de aprovação muito baixas. Não é meu interesse tratar disso. Interessa-me mais seu modo de pensar, descobrir se é possível fazer uma composição adequada entre os campos da filosofia e da política. Diversos atos dele são capazes de demonstrar que a incompatibilidade permanece presente. Ou talvez só demonstrem que filosofia talvez não seja mesmo sua vocação. Cito apenas uma frase de sua autoria proferida quando ainda era Ministro da Educação:

Há uma diferença entre o Hitler e o Stálin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stálin lia os livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferença.

Não sei se Haddad é um bom político. Mas estou certo de que quem profere uma sentença como essa jamais será um grande filósofo.

Gustavo Theodoro