Nacionalismo

Extremismo Político

Le Pen

Escrevi diversos textos críticos aos governos petistas nos últimos anos. Não fui condescendente com o comportamento do restante da esquerda que seguiu a reboque do PT, mesmo com sua adesão ao mesmo jogo político praticado pelos demais partidos.

Sempre entendi que havia um mundo era muito mais complexo do que a disputa entre categorias abstratas “esquerda e direita” ou, aplicando especificamente a nosso caso, entre petistas e anti-petistas. Mas a crise que levou ao impeachment praticamente extinguiu a ponderação das pessoas. A razão sucumbiu definitivamente diante das paixões.

Tem sido exigido da esquerda que apoie incondicionalmente a tese do golpe. Dos críticos ao petismo, exige-se a defesa do Governo Temer, “pois só assim se pode evitar a volta do PT”. Jucá, Geddel, Moreira Franco, Eliseu Padilha e Picciani assumem ministérios e quase não se nota crítica dos que foram para rua pelo fim da corrupção.

O Ministério da Cultura foi extinto. Há diversos argumentos que poderiam sustentar essa fusão com a área de educação. Mas o que se tem visto são argumentos defendendo o fim do financiamento público da cultura. Para isso, alguns casos emblemáticos são usados para sustentar essas teses.

A discussão do financiamento da cultura é difícil e complexa. Mas o novo Governo sequer falou em extinguir a verba para financiamento cultural. O que havia sido anunciado até então era apenas o fim da pasta, sem que a discussão tivesse avançado para o tema da necessidade de cortes de recursos.

Pronto. Foi suficiente para que a área cultural reclamasse, o que é postura absolutamente normal em ambientes democráticos. Cada grupo de pressão e de interesse deve mesmo se pronunciar sobre os seus assuntos. Os incendiários então entraram em ação.

A esquerda que tem disseminado a tese do golpe passou a denunciar o fim do financiamento da cultura. A perda da razão, no entanto, não escolheu lado. Imediatamente outro grupo barulhento passou a denunciar os artistas como parasitas estatais. A difícil discussão da aplicação de dinheiro público na cultura ficou restrita a chavões, palavras de guerra e “memes”. Em um ambiente assim, como podemos nos entender?

Apesar de os nomes para a economia terem respaldo do mercado, o restante do ministério de Temer foi forjado a partir das mesmas técnicas utilizadas nos governos anteriores: indicações de partidos buscando, quase que tão somente, maioria no congresso. O líder do governo na Câmara era da tropa de choque de Eduardo Cunha, é investigado na Lava Jato e tem sobre si acusação de tentativa de homicídio.

Não entendo o porquê de pessoas de bem defenderem esse “novo” governo apenas porque não gostam do PT. É direito de todos não gostar do PT. Argumentos teleológicos, finalísticos, quando resultados se colocam à frente de princípios, nunca me emocionaram. Seja qual for o resultado, apoio à canalha não nos enobrece. Se muitos diziam não ter “bandidos de estimação”, em uma referência aos petistas que seguiram defendendo os condenados no mensalão, agora é momento de demonstrar isso.

Há, ainda, outro incômodo que pretendo trabalhar mais nos próximos dias: a polaridade que engessa e conduz os lados em disputa a acirrarem suas posições. O exemplo venezuelano deve ser estudado com muito cuidado. A radicalização do país está prestes a produzir uma guerra civil. E foi o acirramento dos discursos que os levou a esse ponto.

Assim com a esquerda não precisa necessariamente se aliar aos pensamentos marxistas e trotskistas, nem necessariamente adotar os subprodutos culturais dos anos 1970, tampouco a direita precisa se conformar em seguir líderes xenófobos, machistas, violentos e nacionalistas.

Se de um lado a esquerda acabou se confundindo com o panfletário movimento de 1968, que atualizou conceitos do jovem Marx para utilizar seus arquétipos e criar novas “classes”, denominadas a partir de então de “minorias”, a direita não deixou por menos. As ideias de economistas austríacos foram apropriadas para se transformar em novos preconceitos nas mãos de políticos midiáticos, como Thatcher e Reagan.

O fim do comunismo criou espaço para aproximação de tendências, algo até verificado em alguns países da Europa e, de certa forma até no Brasil, quando muitos identificavam semelhanças nos dois principais partidos do Brasil, o PT e o PSDB.

O século XXI, no entanto, promoveu acirramento das divisões. Nos EUA o Tea Party levou a direita americana a outro patamar. Em quase todos os países europeus uma nova direita começa a dar as caras, reintroduzindo o nacionalismo e conceitos de raça na agenda política que tem como fundamento a xenofobia e o egoísmo.

No meio desse tiroteio, quase não sobra lugar para a socialdemocracia de formulação europeia, baseada no livre mercado, mas com garantias de direitos básicos a todos os cidadãos. É de se notar que essa socialdemocracia, apesar de ser usualmente identificada como fruto do pensamento moderado de centro-esquerda, apresenta diversas ligações com os pensadores liberais, no sentido inglês do termo. A começar por Locke, Mill, mas principalmente com os pensadores do século XX, que conviveram com o fascismo e com o comunismo, foi formulado um conjunto de ideias que estão na base de uma direita moderada, que presa a liberdade acima da igualdade, que acredita no livre mercado e na livre iniciativa, mas que atribui considerável papel para o Estado como necessário a garantir os direitos mínimos aos cidadãos.

A partir de 1989, com o fim do comunismo, imaginou-se que as divisões se dariam basicamente em torno do tamanho dos mecanismos de compensação utilizados, ou seja, o quanto de igualdade o Estado iria garantir sem impor demasiados limites à liberdade. O que se vê, no entanto, é um resgaste do feminismo, dos mitos dos bons selvagens, no valor da “mistura de raças” como elementos de valor, de um lado, e xenofobia, revisionismo histórico e excesso de pragmatismo de outro.

O radicalismo a que assistimos no Brasil está muito longe de ser caso isolado. Costumo dizer que quase sempre as explicações são locais, mas os fatores indutores da história são globais. Ou seja, o choque do petróleo dos anos 1970 e 1980 gerou desequilíbrio que desaguou em hiperinflação em diversos países. Governos caíram, assim como ditaduras. Nos anos 1990, quase todos os países da américa latina venceram a guerra contra a inflação. Governos se tornaram populares.

Nos anos 2000, tivemos a maior fase de crescimento da história mundial, pelo menos até 2008. Os governos locais acabaram sendo beneficiados, sendo muitos deles prolongados. A quebra das subprime levou crise aos países que passaram a substituir seus governos. Agora vemos a onda de radicalismo que essas crises, em grande parte, provocaram.

Assim, quando vejo nascer um movimento de apoio incondicional ao Governo Temer, quando me incitam a fechar os olhos aos Jucás e aos Geddeis, pois senão há risco da volta do PT, lamento, mas nessa escolha prefiro ficar com os princípios ao pragmatismo de boteco.

Eu sei que o período que passamos foi duro, o PT se excedeu na mentira e na manipulação e que todos gostariam que tivéssemos entrado em um “novo amanhã”, uma fase macia e doce, onde mel jorra nos campos e os pássaros cantam.

Mas vejam. Apesar das boas escolhas para a área econômica, houve pouca mudança na composição da base aliada e do próprio ministério. Alguns ministros, inclusive, passaram menos de vinte dias fora do governo, mal tendo tempo de trocar a cor da gravata.

Aí vão de dizer que eu não me contento com nada e que é necessário suportar o mal passageiro para se obter um bem maior. Diria Platão que o bem não será obtido a partir do mal. Vejam, o líder do governo recém escolhido está sendo acusado de tentativa homicídio. “Ah, mas é necessário garantir a governabilidade”. Sei não. Bom, o texto ficou longo e acabei não abordando todos os assuntos que pretendia. Volto ainda para falar sobre essa direita que está se apresentando no Brasil, a direita de Bolsonaro, que homenageia torturador e se vangloria disso.

Eu sei que não estou muito otimista. Mas é como dizia o mestre Pessoa: “O emprego excessivo da inteligência, o abuso da sinceridade, o exemplo da justiça, são qualidades que não permitem nenhuma ilusão de felicidade.” Ele sempre parece estar certo.

Gustavo Theodoro

O Que Vem Por Aí

Alguns fatos merecem análise mais detida e não passaram despercebidos pela nossa Ágora. A renúncia do Joaquim Barbosa, a nova onda de nacionalismo não vista por aqui desde Médici, o rumo das manifestações e da economia. Tudo isso será tratado neste espaço assim que forem superados alguns temas já antigos nossos, como o choque de gestão mineiro e a questão das drogas. Aguardem. Hoje terá mais um Portas da Percepção, a questão das drogas sob a ótica da saúde pública.

Direita e Esquerda – Nacionalismo

 

Um dos fenômenos mais complexos nesta tentativa de diferenciação entre a esquerda e a direita diz respeito ao nacionalismo. Como se sabe, é causa antiga da esquerda mundial o fim dos Estados-Nação tal como os conhecemos. Já na Revolução Francesa havia sido identificado forte relação entre os Estados com a aristocracia, a realeza e o clero. O fim dos Estados prometia o fim das classes privilegiadas.

Volto a Marx, não é por gosto, mas pela influência que ele teve no pensamento dos séculos XIX e XX. Hoje ele já não é tão relevante, mas para o filósofo que pretende colocar os dias atuais em perspectiva, torna-se difícil não citá-lo. Marx não acreditava no Estado. Para Marx, a ditatura do proletariado – que seria a etapa intermediária rumo à sociedade sem classes, naturalmente alcançada com o esfacelamento do capitalismo – teria por objetivo a destruição da burocracia estatal e dos instrumentos de dominação do Estado (polícia e exército). Ainda voltarei a este ponto específico quando tratar do movimento anarquista no futuro. Registre-se, no entanto, a informação de que, para Marx, a ditadura do proletariado dispensaria a existência do Estado.

Na sociedade utópica descrita por Marx, o nacionalismo seria tratado como uma doença ou como um substituto da religião como o ópio do povo. No início do século XX, havia diversas correntes marxistas, algumas das quais propunham uma releitura da obra de Marx, condescendendo com a existência do Estado desde que ele fosse democrático, igualitário e garantisse que fossem satisfeitas as necessidades básicas do homem. Eram os sociais-democratadas aparecendo para o grande público. Na visão deste novo grupo político, era admitido o Estado uma vez que a aplicação das teorias marxistas não seria tão radical.

Os conservadores, em geral, sempre foram fortemente vinculados às tradições e à herança cultural recebida. Só por isso era, para eles, inaceitáveis teses que propusessem a extinção dos Estados-Nação.

Ou seja, no início do século XX, o quadro se apresentava da seguinte forma: os conservadores eram nacionalistas-patriotas, os sociais-democratas admitiam a existência do Estado e os comunistas e anarquistas clamavam por um mundo sem Estado e sem pátria. Como a social-democracia angariou apoio de boa parte da esquerda europeia, foi contra ela que se voltaram os comunistas.

Lenin, ainda durante o ano de 1917, dada a grande influência menchevique neste ano, escreveu com escárnio que todos os sociais-patriotas (não riam) são agora marxistas. Sim, a renhida guerra de opiniões dividia os corações. Foi essa divisão que levou os comunistas alemães, em 1932, a não apoiar os sociais-democratas, abrindo espaço para a tomada do poder pelo Nazismo.

O mundo sem Estado e sem pátria ensejou até o surgimento um hino à união dos povos, a tão celebrada Internacional Socialista. O mundo novo que emergiu da queda do muro de Berlim provocou um terremoto nos tão estáticos conceitos formulados no início do século passado. É certo que já se via sinais de confusão entre os grupos, visto que liberais defendiam a redução de barreiras comerciais e grupos de esquerda defendiam a estatização de empresas privadas (nada menos marxista do que isso).

É neste mundo do avesso, órfãos de tradição e continuidade, que devemos nos guiar tal como cegos de ideologias. É como se aqui nos tivessem colocado sem nenhuma herança pretérita. Sim, o jogo que se pratica atualmente é outro. A direita, liberal, ainda se diz nacionalista e patriota, mas costuma aprovar a desnacionalização das empresas (ainda que seja mais xenófoba, mais resistente à presença do imigrante estrangeiro). Já a esquerda, que por séculos rejeitou o Estado, o nacionalismo e o patriotismo, agora inverteu totalmente sua posição, sendo forte defensor da ação do Estado na economia, inclusive com a propriedade dos meios de produção. Mais surpreendente ainda é que os empregados das empresas públicas estão hoje no lugar que antes era ocupado pelos burgueses da literatura marxista.

Não quero me alongar no assunto. Não poderia, no entanto, deixar de fazer uma pequena provocação com relação à reedição da pátria de chuteiras, tão cara ao movimento militar, que se utilizou da Copa de 1970 para reafirmar a força do regime. Ora, militares são mesmo nacionalistas e não chega a surpreender essa postura.

Há desde o ano passado um movimento nas ruas, filho das manifestações de junho de 2013, que se identifica pelo slogan “não vai ter Copa”. É uma reação contra os gastos incorridos na construção de estádios e nas diferenças entre as exigências da FIFA (o chamado padrão FIFA) e o nível dos serviços públicos fornecidos pelo Estado. Os partidos de esquerda reagem contra esse movimento como se ele fosse contra o Brasil ou como se ele torcesse pelo quanto pior melhor. E para defender a realização da Copa no Brasil se utiliza dos mesmos argumentos a que os militares recorreram. Haja intérprete para entender essa realidade. Já estou considerando que exigir alguma coerência dos grupos políticos contemporâneos é vício inútil de quem se apegou à lógica como referência para o pensamento.

Gustavo Theodoro