Mês: janeiro 2014

Fugindo do Rolezinho

De tempos em tempos alguns temas tomam os meios de comunicação de assalto. Posta a questão, vemos rápida divisão de pontos de vista sem que tenha transcorrido o necessário tempo para reflexão.

O assunto do momento são os chamados “rolezinhos”. Segundo noticiado por alguns veículos de informação, eles se constituem grupos de jovens que se reúnem em shoppings, andam pelos corredores, cantam raps ou funks e não compram nada.

Incapazes de raciocinar, os afoitos comentaristas rapidamente passaram a adotar suas premissas para a novidade do momento, utilizando para isto os velhos arquétipos dos grupos de que participam.

Para os que se identificam com o chamado pensamento de esquerda brasileira, trata-se de um movimento de ocupação pelos pobres negros dos espaços higienizados criados para os brancos ricos. Assim, de acordo com esta facção sectária, os rolezinhos são um fato novo positivo que deve ser encampado pelos demais movimentos sociais. Se havia alguma espontaneidade nestes movimentos, podemos estar certos de que ela se encerrou com a adesão do Black Blocs, da Mídia Ninja, de alguns Sindicatos, da UNE, do Passe Livre, etc…

Para os que se identificam com o chamado pensamento de direita brasileira, tudo isto não passa de baderna de jovens desocupados, que deveriam estar na escola estudando. Tendo isto em vista, o polícia deveria agir com rigor para conter os pobres, já que os shoppings são um espaço privado, sujeito às normas dos donos desses estabelecimentos.

Sofro de certo cansaço com estas discussões, em especial por mitigar sua espontaneidade e por transformar um movimento que pode até ter nascido espontaneamente em símbolo da disputa política que oblitera os debates que dignificariam a esfera pública. Ao final, tudo se reduz ao velho fla-flu em que uma luta de classes criada pelo próprio debate tem preponderância. Uma vez estabelecido o embate entre opiniões bem conhecidas, cada um passa a exercer um papel que deles se espera, onde o hábito supera em muito a reflexão.

Apesar de o socialismo ter sido derrotado pelo capitalismo naquilo que é mais importante – dar melhores condições de vida às pessoas -, a análise das situações sociais no Brasil deve muito ao marxismo (e talvez também a Rousseau). Foi Marx que descreveu como ninguém o conflito entre as classes existente na sociedade no século XIX, opondo a burguesia ao proletariado. Foi também Marx que defendia o uso de força (mas não da violência) para alterar a relação de poder entre as classes.

O fato é que aquelas categorias distinguidas por Marx já não existem, mas nossos pensadores ainda não se deram conta. Continuamos, ingenuamente, a separar pessoas por classe, tentando adaptar ao momento atual algo que já fez algum sentido no passado. E os oportunistas de aproveitam disso, distorcendo conceitos e fazendo mau uso da esfera pública.

A verdade se perde então em um mundo de opiniões alicerçadas em terreno sem fundação. Mas, como dizia Gottfried Keller, a verdade não nos foge. Não deixamos de notar que, em determinado contexto, um grupo social é tratado ora como pobres ora como nova classe média. Outro grupo social é tratado ora como elites ora como classe média. É neste alagadiço terreno que ocorre o debate, feito antes para esconder que para revelar.

E se forem me chamar para dar um rolezinho neste debate, desistam. Prefiro seguir interessado em discussões inúteis sobre a verdade, a antiguidade, a tradição e sua influência sobre a contemporaneidade.

Gustavo Theodoro

Considerações sobre a Verdade

O espírito dos tempos do iluminismo privilegiou o racionalismo, a certeza de que o mundo seria complemente dominado e explicado pelo homem por meio de seu intelecto.

Alguns idealistas se opunham a esta ideia. Goethe, por exemplo, mostrava-se absolutamente inconformado com o empirismo e o racionalismo e dizia frases como eu me submerjo em mim mesmo e encontro o mundo (frase que poderia ter sido proferida por Platão) e a natureza emudece quando é torturada.

Este idealismo, como sabemos, foi derrotado pelo racionalismo e pela crença do progresso e na possibilidade da criação da Teoria de Tudo (que Einstein passou o restante de sua vida tentando formular).

No final do século XIX, havia uma certeza na física de que todos os fenômenos estavam prestes a serem plenamente explicados. Houve um cientista que chegou a dizer: dêem-me as condições iniciais e as forças que eu descreverei o mundo. Estávamos indo além das aparências, vendo o invisível por meio dos microscópios e dos telescópios, parecíamos que invadíramos a Caverna de Platão e estávamos levando seus habitantes para conhecer a verdade e o esclarecimento.

São ambientes deste tipo que podem produzir assertivas com a de Nietzsche (Deus está morto) e o doutrinas como o materialismo dialético de Marx e Engels, que consideravam a religião o ópio do povo, um dos motivos de sua alienação.

O século XX promoveu, pelo menos no campo da física, um distanciamento nosso da verdade científica. O princípio da incerteza, a mecânica quântica, a dualidade entre onda e matéria arrefeceram os ânimos daqueles que pretendiam dominar todo o conhecimento humano e geraram os grandes debates científicos do século XX.

O objetivo ainda é a verdade, sua influência e seus efeitos sobre a política. Mas no próprio post sigo discutindo a verdade no campo da ciência e, se possível, a crença no progresso.

Gustavo Theodoro

Influência Estrangeira

 

É muito comum que um País sofra influência dos demais. Foi assim no passado quando todos copiávamos a França (muito em decorrência de sua vasta literatura). Por um breve período passamos a copiar os ingleses (fruto de seu imperialismo, que exportava costumes). Há bastante tempo, sofremos muita influência dos americanos, visto terem eles descoberto o imenso poder de sua indústria cultural.

Geralmente é saudável a influência de outras culturas. Mas devemos constantemente nos questionar se devemos importar qualquer estrangeirismo de forma impensada.

Percebi que importamos o Halloween, as cotas raciais, o Black Friday (acho que não ganhamos nada com estas importações) e importamos também uma forma extremista de dialogarmos, própria do Tea Party e de seus adversários liberais, no sentido americano da palavra.

Sim, já importamos o Fla-Flu para a política, que estranhamente divide as pessoas em petistas e tucanos, como se não tivéssemos opções. Se criticamos o Governo, somos contra nosso país. Se criticamos o cartel do metrô paulista somos petistas. E assim vai. E em todos os assuntos o acirramento do debate é observado. E este acirramento logo descamba para a ofensa e xingamentos.

Sofrer influência é bom. Expandir nosso campo de visão por meio da observação do que ocorre no mundo é bom. Mas importar defeitos para se somarem aos puramente nossos (como o jeitinho e a falsa cordialidade) acho demais.

 

Gustavo Theodoro

 

 

Sobre o Nome

                 Segue uma breve explicação sobre o nome do blog. Ágora, como todos sabem, era a praça central das Cidades-Estado gregas. Lugar de reunião, representava a esfera pública, local próprio para as discussões políticas.

Já o termo aporético não consta dos dicionários. Aporia, segundo o Aurélio, significa paradoxo ou dificuldades de ordem racional.

Os diálogos platônicos são ditos aporéticos. Isto porque, na metafísica doutrina platônica, somos seres que, quando nascemos, perdemos o contato com o mundo das ideias a que pertencemos. Com isso, nos esquecemos de toda a verdade. Isto explica por que os gregos utilizam alétheia como sinônimo de verdade, sendo que, literalmente, a expressão seria traduzida por desvelamento, no sentido de tirar o véu.

Assim, na teoria platônica, quando nascemos nos esquecemos de tudo, não cabendo, portanto, ensinar nada a ninguém, mas sim fazer as pessoas se lembrarem de um conhecimento esquecido.

Por isso, os diálogos estabulados por Sócrates não tinham por objetivo convencer ninguém de nada nem pretendiam ensinar o que quer que seja, sendo a maioria deles inconclusivo. O que ele pretendia era, por meio do debate de conceitos abstratos, aproximar da verdade os partícipes dos diálogos, dentro do pressuposto de que a verdade não está no outro, mas em nós mesmos, mesmo que esquecida.

Portanto, tomem aporético como inconclusivo, porém reflexivo.

 

Gustavo Theodoro

Rótulos

Já nas primeiras publicações envolvendo política se iniciaram debates sobre assuntos da atualidade.

O ponto que gosto de abordar nem sempre lida com as questões da atualidade, e por isso, quando me ponho a analisar uma situação concreta, por vezes sou taxado de direitista conservador, por vezes acusado de comunista.

Isto é próprio destes tempos. É comum, mas não é normal.

Nesses momentos me sinto muito convenientemente em companhia de Tocqueville, que era ‘demasiado liberal para o partido de onde ele provinha, não muito entusiasta por idéias novas aos olhos dos republicanos, ele não foi adotado nem pela direita nem pela esquerda, ele permaneceu suspeito a todos‘, como disse um pensador no passado.

É certo que a qualidade dos políticos está baixa, que os jornais só nos trazem más notícias, mas será que a humanidade deve mesmo abandonar totalmente esta nobre atividade ou mesmo delegá-las a arrivistas profissionais?

Por que, da Ágora de Atenas para os dias atuais involuímos tanto? Por que, da antiga Roma até os dias atuais passamos a olhar tudo isso com tanta desconfiança e passamos a ir na direção contrária dos antigos?

Interessante observar que, em latim, vivere significa estar entre as pessoas, cuidando de assuntos públicos.

Gustavo Theodoro

Certezas e Dúvidas

Preconceitos, como todos sabemos, nos são muito úteis. Nos dispensam de pensar sobre centenas de assuntos para os quais tomamos caminhos quase sempre automáticos. Nem sempre este termo teve a conotação pejorativa que tem hoje. Já foi um termo utilizado positivamente, representando o conhecimento acumulado por um grupo.

Ainda assim, vez por outra precisamos rever algumas questões que há muito estão sedimentadas em nosso ser, mas que nunca chegaram a ser objeto de reflexão por nós mesmos. Este tipo de enfrentamento nos auxilia no esclarecimento de nossas próprias posições. Não sou muito partidário do conceito de metamorfose ambulante, pois parece indicar pessoa sem profundidade, que adere à moda do momento. Por isso, sou partidário de visitarmos a tradição, lermos os clássicos, conhecermos nosso passado e nossa história, a fim de conhecermos o terreno em que estamos pisando.

A questão que atualmente me intriga é o incrível descrédito da política nos anos em que vivemos. Na Grécia antiga, na pólis, era considerada a mais importante atividade da vida ativa, ainda que tivesse status inferior à vida contemplativa. Platão propugnava uma ditadura de filósofos – em oposição à democracia grega – pois ele percebeu o risco de sua atividade e imaginava que só um Governo de filósofos poderia garantir a vida daqueles que se propunham a pensar.

Platão, como sabemos, foi discípulo de Sócrates, personagem polêmico e considerado fundador da filosofia tal como a conhecemos hoje. Sócrates incomodava justamente por fazer pensar e, com isso, pôr em risco a juventude ateniense. Por este crime, foi julgado e condenado a tomar cicuta. Este foi seu fim.

Os romanos, ao contrário, não eram dados a abstrações. Pessoas de senso prático, consideravam a política a mais nobre das atividades humanas. Tinham especial apreço pelos contratos celebrados e pela certeza da possibilidade de entendimento entre as pessoas, ainda que reconhecendo suas diferenças (aliás, neste tempo, o princípio da igualdade estava longe de ser tratado como um direito natural sendo, pelo contrário, refutado na maioria dos textos legais da época).

Santo Agostinho, neste contexto, celebrava a capacidade humana de produzir algo novo onde antes nada existia. Isto tanto podia valer para o nascimento de alguém em um mundo preexistente como a fundação de uma cidade a partir de um acordo. É o que levou Catão a dizer que “a constituição da república não foi obra de um homem ou de um tempo”.
Rememoro estes fatos sempre ressalvando que a história, tal como a conhecemos hoje (que parece ter uma direção, um sentido), é uma invenção bastante moderna, talvez da época de Hegel. Homero, o grande historiador helênico, nunca imaginou um sentido para sua odisseia. Tratava ele da imortalidade dos grandes feitos e do relato das virtudes, mas não da condução da história da humanidade em um certo sentido.

O que tudo isto tem a ver com os dias atuais? Penso que a compreensão dos valores vigentes nos diversos períodos históricos, ainda que não nos deem de modo algum solução para os impasses atuais, podem nos ajudar a compreender o atual descrédito na política e a falta de valor da palavra como fonte de manifestação da verdade, o que impossibilita o estabelecimento de acordos e contratos que, ao lado da livre exposição de opinião e da correta representação, são o meio de ação da política.

Bom, ainda não cheguei a lugar nenhum, mas sigo nesta linha em breve.

Gustavo Theodoro

O Abandono da Política

Continuo averiguando as razões de nosso afastamento da vida política e do concomitante encolhimento do espaço público. Recente pesquisa divulgada pelos jornais nos informou que os políticos da Alemanha têm idade média de 58 anos. Média é um conceito estatístico fraco, mas podemos inferir que, mesmo em um País desenvolvido, com bom IDH e PIB per capita, a política não atrai os jovens.

Aqui no Brasil, temos o hábito de esculhambar os políticos (não chega a ser um hábito apenas nosso). E os políticos, aqui no Brasil, raramente nos decepcionam, sempre tendo o comportamento vil que esperamos deles.

A questão tem bases bastante profundas e pretendo, quem sabe, um dia respondê-la integralmente. Sinto, no entanto, que o abandono da busca da verdade e, principalmente, o abandono da verdade como conceito político tem provocado parte deste afastamento.

Os gregos tinham desprezo acintoso pela opinião (doxa), que, segundo eles, nos afastava da verdade (aletheia). Platão, na descrição do mito da caverna, revela a forma como estes conceitos eram considerados pelos gregos. Os habitantes da caverna só viam as sombras projetadas nas paredes. Para Platão, eles viviam no mundo onde imperava a opinião, a doxa. Já o filósofo tinha a capacidade de se libertar dos grilhões e até sair da caverna, onde a luz o cegava, mas onde o filósofo tinha acesso à verdade (aletheia).

Na descrição do mito, o filósofo, ao voltar para a caverna e contar a verdade, percebe que a verdade a que ele teve acesso era tratada como opinião. Nietzsche, em seu Zaratustra, descreve o mito de forma semelhante, sendo o filósofo não compreendido pelos demais.

É interessante observar como, na política, os políticos se esforçam para fazer algo pior: confundir a opinião com a mentira propriamente dita.

Os conceitos de esquerda e direita estão em constante rearranjo desde a revolução francesa (onde os termos emergiram). Lembrei anteriormente que, aqui no Brasil, nos anos 1990, focalização dos gastos públicos era programa da direita e era odiada pela esquerda. Neste sentido, tanto o Obamacare como o Bolsa Família, que são programas focalizados (isto é, são direcionados a uma parcela menos favorecida economicamente da população, ou seja, os pobres), deveriam ser encarados como programas ligados ao campo da direita.

É interessante observar que, em 2002, o então pré-candidato do PT, Lula, se manifestou contrariamente ao Bolsa Escola pois, segundo ele em declaração gravada, o importante era dar emprego e, além disso, deveríamos “ensinar a pescar e não dar o peixe”.

Esta opinião está absolutamente de acordo com o modo de pensar da esquerda até então. No entanto, passados mais de 10 anos desses acontecimentos, o debate político evoluiu. Há um partido em formação, que se diz da direita liberal (o Partido Novo), que tem defendido a redução do estado e o fim dos programas de caráter assistencial, sem se dar conta de que a direita liberal prefere programas assistenciais focalizados. E a esquerda, hoje, está bem confortável em defender o bolsa família do atual governo, sem se dar conta de que foi contra o mesmo tipo de programa há pouco mais de 10 anos. A mentira de alguns modificou a opinião de muitos.

Hannah Arendt dizia que “só se pode confiar nas palavras na certeza de que sua função é revelar e não dissimular”. Esta frase explica muito de nosso afastamento da política. Há muito a ser dito sobre a verdade, a coisa-em-si e o mundo das aparências. Mas o debate político não tem sequer arranhando estas questões, visto que o debate de ideias foi substituído, há um bom tempo, pela luta pelo poder. No próximo post, trato de fazer algumas considerações sobre a verdade na ciência.

Gustavo Theodoro

Crítica Vedada

Às vezes adquiro uma certeza absoluta de que Platão e Nietzsche estavam certos, que a vida é cíclica, que os fatos se repetem, é o eterno retorno. É neste momento em que passamos a nos sentir velhos (ou idosos, ou terceira-idade, ou melhor idade, não sei qual o termo permitido no momento).

Vejam este exemplo. Na ditadura militar, aos opositores do regime a mensagem era clara. Aqueles que não amassem o Brasil – ou a mensagem implícita, o Governo – deveriam deixá-lo (neste caso só o País). Alguns Governos depois, já com a imprensa livre, o FHC acusava as cassandras de torcer contra o País, acusando os críticos, a oposição e a imprensa de fracassomaníacos.

Este Governo repete o procedimento. Os críticos agora recebem nova nomenclatura: os Velhos do Restelo, que seriam os nervosinhos que fazem a guerra psicológica. Os inimigos agora são mais etéreos, a mídia, as elites, a classe média e quem mais aparecer pela frente.

Interessante como nossa cultura autoritária lida mal com as críticas. E como valoriza pouco a liberdade de expressão. Israel é uma ilha de democracia cercada de ditaduras. A imprensa israelense passa o dia criticando o Governo de seu país. Ironicamente, a imprensa dos países vizinhos faz o mesmo e passa o dia criticando, também, o Governo de Israel. Pergunto: qual dessas imprensas queremos ter?

Sobre o Blog

Este é apenas mais um blog que trata de temas contemporâneos, mas tentando cotejar estes fatos com o tradição do pensamento político ocidental. É um blog de livre expressão de pensamento e análise de nossa sociedade, de nosso aparente desinteresse pela política, do suposto hedonismo que ronda a sociedade, da busca pela felicidade que acaba por resultar em mais tristeza. Ou seja, é um blog que vai tentar responder, sem nunca abandonar o sentido político do viver, a questões muito simples: qual o sentido da vida? Por que existe algo e não nada? Seria a vida contemplativa superior à vida ativa? Estamos vivendo plenamente?

Se não respondi ainda a estas questões é só aguardar: no final formularei as respostas.

Gustavo Theodoro