PT

Tudo Pelo Poder

Os recentes ataques do PT a sua ex-filiada, Marina Silva, revelam o quanto a manutenção do poder se tornou vital para o Partido dos Trabalhadores. Marina Silva esteve no PT por 24 anos. Participou de quase todas a lutas do partido. E o deixou enquanto Lula estava no poder, mostrando considerável desapego.

Dilma Roussef era do PDT. Sempre teve cargos comissionados em razão de sua filiação. No breve período em que não conseguiu alguma assessoria, na década de 1990, abriu uma loja de R$ 1,99 que trazia produtos importados do Panamá. O negócio não deu certo e fechou em menos de um ano. Quando Olívio Dutra foi eleito com apoio do PDT, Dilma voltou a ocupar cargo comissionado. Mas PT e PDT não se entendiam. O PDT deixou a aliança com Olívio Dutra em 2001. Dilma era Secretária de Minas e Energia do Governo do Rio Grande do Sul e, entre a fidelidade ao partido e o cargo, optou pelo cargo. Ela deve ter concluído que não é fácil ser empresária. Filiou-se ao PT para permanecer Secretária.

Em todo esse período, desde 1985, Marina Silva era do PT. Perdeu quatro eleições com Lula. E saiu quando Lula estava no auge de popularidade. Dilma só esteve com Lula em 2002. Interessante esse paralelo.

Por isso causa tanta estranheza a virulência dos ataques de Dilma e do PT contra Marina. Sustentada por banqueiros, contra o pré-sal, fundamentalista, contra o desenvolvimento. E Marina não passou a falar uma língua tão diferente de quando estava no PT. Ela continua tendo como principal bandeira o crescimento sustentável da economia (a mesma defesa que fazia quando estava no PT). Defende a retomada do tripé econômico, tal como foi praticado no primeiro mandato de Lula. De novidade, defende a autonomia do Banco Central, tema controverso, mas de que tratarei em breve.

A Petrobras teve como Diretor de Abastecimento dos governos petistas, por 8 anos, Paulo Roberto Costa. Dilma era Ministra de Minas e Energia quando ele foi indicado. Era Presidente do Conselho da estatal quando ele ganhou desenvoltura. Era a toda poderosa da Casa Civil quando foi feita parte significativa dos desembolsos da Refinaria Abreu e Lima – que, nunca é demais lembrar, vai custar mais de R$ 40 bi, sendo que foi orçada em menos de R$ 5 bi. Não posso deixar de lembrar esses fatos e relacioná-los à virulência dos recentes ataques do PT à Marina.

Na história escrita pelo PT, os vilões eram o PSDB e o DEM, que estavam no poder há 500 anos. Contra eles fazia sentido utilizar todas as armas disponíveis. Marina não veste o figurino do espantalho criado pelo PT. Mas está sendo transformada nele. A única justificativa que encontro para tal conduta é que o poder deve mesmo ser muito bom. E ninguém quer se desgarrar dele.

Gustavo Theodoro

Além do Tripé Econômico

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A eleição presidencial que se avizinha é a mais aberta dos últimos anos. Em 2002 havia um clima de mudança no ar. O segundo mandato do Governo Fernando Henrique apresentou crescimento econômico pífio. Diversas suspeitas foram levantadas acerca do processo de privatização de estatais. Houve racionamento de energia elétrica, revelando a carência de investimentos governamentais em área estratégica para o País.

A eclosão do escândalo do mensalão 2005 parecia pôr fim ao Governo Lula já em seu primeiro mandato. O clima era de fim de festa no dia em que Duda Mendonça confessou ter recebido a pagamento no exterior por sua atuação em campanhas do PT. Mas o Governo foi bem avaliado e já no início do ano de 2006 Lula havia recuperado a estima do povo.

Ao final do segundo mandato do Presidente Lula, com a superação da crise econômica internacional pelo Brasil, a avalição do Governo Lula era ainda melhor e, mesmo tendo segundo turno naquelas eleições, a vitória da Presidente Dilma foi razoavelmente tranquila.

O cenário hoje é muito diferente do observado nas últimas duas eleições. Há um impreciso clima de insatisfação no ar, representado em parte pelas manifestações que tiveram início em junho de 2011. Pesquisas de opinião têm relevado um contingente de insatisfeitos há muito tempo não observado no Brasil.

Diante deste cenário, faz-se mais necessária uma análise isenta da situação, uma análise equidistante, de modo que possamos entender em que medida estão corretas as avaliações aos 12 anos de Governo de PT e a pertinência das críticas e propostas da oposição neste momento. Eleições apertadas exigem maiores compromissos do eleito com os eleitores. Isso pode ser bom, desde saibamos cobrar dos políticos as respostas aos nossos questionamentos.

O que a mim me parece certo é que os Governos – todos eles – vêm cometendo erros nos últimos anos que fazem com que o Brasil tenha inflação alta (1973 a 1994), cambio artificial (1995 a 1998), juros altos (1999 a 2008) e juros e inflação acima do desejável (de 2008 até agora) por todo esse tempo. Poucos economistas conseguem explicar por que a taxa de juros no Brasil precisa ser tão alta e por que ela é tão pouco eficiente no combate à inflação. Mas é certo que isso tem relação com erros cometidos por nossos governos desde a ditadura militar.

Na próxima coluna – que deve ser entremeada por mais uma porta da percepção – vou rever meu próprio histórico em busca de avaliar se eu tenho condições de fazer uma análise isenta do assunto. A seguir, devo destacar alguns pontos da política econômica e social do PT que muito me agradam. Só então passarei a tratar das críticas a essa política econômica, muitas delas já levantadas por outros economistas. Pretendo, outrossim, ir além da velha discussão de câmbio, juros e tripé econômico, se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

Gustavo Theodoro

Do Esvaziamento da Esfera Pública

Conforme observamos no post anterior, mesmo na ciência o acesso a verdade é mediado pelo mundo das aparências. E a falta de acesso à verdade é que torna possível que opiniões e fatos verdadeiros se tornem indistintos de opiniões e fatos falsos.

É corriqueiro notar que o debate político, ao mesmo tempo que tem se profissionalizado, tem também empobrecido. E está empobrecido a ponto de fazer sentido perguntar se os termos direita e esquerda na política ainda fazem algum sentido.

O debate na imprensa americana, por exemplo, se mostra a cada dia mais centrado em questões periféricas daquela sociedade, enquanto os temas tradicionais da política são deixados em segundo plano.

No Brasil ocorre situação similar, mas com muitas particularidades. A todo momento surge uma questão supostamente nova que mobiliza os debates. Nestes últimos anos vimos isto acontecer diversas vezes: fome zero, bolsa família, etanol, modelo de exploração de petróleo, autossuficiência da produção de petróleo, extradição de terrorista/ativista italiano, cotas raciais, comissão da verdade, médicos cubanos, as manifestações de junho, ENEM, aborto, privatizações, “rolezinhos”.

Em todas estas discussões aqueles mais afinados com a esquerda ou com a direita (posteriormente tratarei da definição destes termos com mais apuro) imediatamente tomam seus postos e inicia-se o combate, cada um defendendo os argumentos de seu time ou facção.

Para a maioria dos pensadores, o conhecimento congrega um conjunto de pensamentos coerentes em que, inicialmente, parte-se da parte para o todo e, uma vez formulada a teoria, resolve-se questões relacionadas às partes pela teoria geral.

Em analogia com a ciência, foi com a queda de uma maçã que supostamente foi extraída a ideia da gravitação universal de Newton. Uma vez criada a teoria, ela poderia descrever o movimento de diversos astros celestes.

No entanto, nem todos concordam que esta regra que claramente se aplica às ciências naturais poderia se aplicar, também, às ciências humanas. Edmund Burke, por exemplo, dizia que são as circunstâncias que fazem com que qualquer plano político ou civil seja benéfico ou prejudicial para a humanidade. Para Burke, portanto, pelo menos no que se refere às ciências políticas, cada caso merece uma análise em separado independentemente das formulações gerais.

É evidente que há um caminho do meio entre estas posições: há diversos conhecimentos que podem ser sistematizados, mesmo no campo da ciência política, e podem ser utilizados para formulação a questões usualmente feitas na política. No entanto, a simples localização do sujeito em seu grupo não deveria ser suficiente para formar sua opinião. Importar médicos cubanos, por exemplo, poderia, em princípio, ser providência de um governo de esquerda ou de direita. O mesmo pode ser dito, por exemplo, do bolsa-família, conforme post publicado anteriormente.

O que se quer demonstrar é que, seja nas discussões pela internet, seja nas discussões presenciais, assim que nascem, os temas ganham proporção, engrossam torcidas e esvaziam o debate político, seja por sua monotonia ou por sua irrelevância. Ambos os lados têm profissionais em formular teorias e argumentos que, ao final, todos os debatedores acabam reproduzindo. E isto resulta em uma surpreendente redução do espaço público, visto que ele é ocupado por falsas questões ou questões de importância menor.

Há quase 20 vinte anos aqui no Brasil há um embate entre dois partidos que emulam ideias muito parecidas, o PT e o PSDB, ambos camuflando posições supostamente antagônicas, mas tendo práticas similares no Governo.

É certo que este encolhimento do espaço público não se deve unicamente a este bipartidarismo sem antagonismo de ideias. Mas certamente o grito dos populares nas manifestações de junho por um movimento sem partido tem alguma relação com isso.

Gustavo Theodoro