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Homem de Bem

O nome do Deputado carioca Marcelo Freixo foi citado por diversas vezes nos últimos dias. Após a morte do jornalista Santiago Andrade e a identificação dos Black Blocs como os responsáveis pelo disparo do rojão que o matou, o nome do Deputado Marcelo Freixo foi envolvido na polêmica, fato este que desencadeou uma imensa polarização dos debates, o que nem sempre favorece o esclarecimento da situação.

Para tratar do assunto, é inevitável retornar às manifestações que assombraram o Brasil em junho de 2013. Pela primeira vez, foram observados no Brasil membros de um movimento muito presente em movimentos de jovens em diversos países do mundo, os Black Blocs. Aqui no País, a redução do número de manifestantes foi acompanhada do aumento de sua violência.

Cria das manifestações de junho foram os movimentos havidos no Rio de Janeiro. O primeiro a dar sua cara foi o movimento Ocupa Cabral, que teve inspiração nos movimentos Occupy que se espalharam pelo mundo. O desgaste do Governo Cabral, que já havia sido detectado pelas pesquisas de opinião, deveu-se a diversas causas, mas foi agravado pelo movimento aéreo das babás de suas crianças e do pequeno Juquinha, o simpático cão da família. A população não aceitou muito bem o fato de eles se deslocarem de helicóptero do Estado para a casa de praia do Governador

No movimento Ocupa Cabral, a Polícia reprimiu com violência os manifestantes, gerando o costumeiro efeito de dar combustível à manifestação. Com a polícia contida pelas autoridades, assistimos ao vivo à destruição de lojas no Leblon e em Ipanema sem que os Black Blocs fossem sequer incomodados. Algumas caras hoje conhecidas do movimento Black Bloc começaram a surgir nas transmissões da Mídia Ninja.

Para quem não acompanhou, a Mídia Ninja é um grupo – polêmico, mas cuja polêmica não será explorada neste artigo – que utiliza celulares para fazer transmissões das manifestações ao vivo. Como a Mídia Ninja fazia uma cobertura que ganhou entre os manifestantes o status de isenta, tinha livre acesso aos manifestantes, enquanto o restante da imprensa era comumente enxotada das manifestações.

Com os problemas decorrentes da instalação da CPI dos Transportes na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, nasceu o Ocupa Câmara. Este movimento, apesar de se intitular apartidário, tinha entre seus membros diversos integrantes e simpatizantes do PSOL, partido do Deputado Marcelo Freixo. A agora conhecida ativista Sininho ganhou reconhecimento naquele movimento.

Durante a ocupação da Câmara, a aliança entre o Ocupa Câmara, os Black Blocs e o PSOL não era escondida. Posteriormente, veio a manifestação dos Professores Estaduais e Municipais do Rio de Janeiro, que evidenciou definitivamente a aliança do movimento com os Black Blocs, já que o próprio Sindicato dos Professores do Estado do Rio se manifestou a favor da presença dos Black Blocs em seus atos (Sindicato este controlado por membros do PSOL).

Para quem acompanhou esses movimentos ao vivo – transmitidos que foram pela Mídia Ninja – não é surpresa descobrir a proximidade do PSOL com os Black Blocs. Ainda que não se tenha visto, da parte de integrantes do PSOL, muitos textos ou manifestações a favor do uso da violência, o certo é que não se viu condenação explícita dela. Pelo contrário, texto em defesa do uso da violência nas manifestações foi encontrado no próprio site do PSOL.

Por outro lado, o Deputado Marcelo Freixo se dispôs há alguns anos a enfrentar algo que poucos teriam coragem: assumiu a Presidência da CPI das milícias. Como se sabe, as milícias no Rio de Janeiro são detentoras de considerável poder de fogo, há muito território em seu poder, e são formadas ou têm o apoio de maus policiais, maus políticos e bandidos em geral. As milícias pretendem substituir o Estado, mas não passam de marginais da lei, criminosos com muitos assassinatos em suas costas.

Quem enfrenta este tipo de gente merece indiscutível crédito, pois, como dizia Aristóteles, coragem é a primeira das virtudes, pois dela dependem todas as outras. E coragem Marcelo Freixo demonstrou que tem.

No entanto, decisões acertadas do passado não tornam ninguém inimputável. É nítida a aliança do PSOL com os Black Blocs. Era evidente que a violência acabaria por desaguar em alguma morte. Quem apostou na violência assumiu o risco de ter um corpo na sua conta.

A denúncia lavrada pelo estagiário do Advogado dos responsáveis pela morte do jornalista Santiago Andrade pode ser indício pequeno da ligação de Freixo com os acusados (ainda mais considerando que o referido Advogado já defendeu um miliciano). Mas a ligação de Freixo com os Black Blocs é por demais evidente para ser refutada. E dessa acusação política Freixo não pode se esquivar. Mesmo reconhecendo todos os seus méritos, Freixo e seu partido erraram ao apoiar o uso da violência em manifestações. A não ser que esta seja, afinal, a natureza do PSOL. Já que um partido que leva o nome de Socialismo e Liberdade ou não entende de Socialismo ou não entende de liberdade.

De toda forma, o maniqueísmo no julgamento do Freixo leva a esses extremismos de que somos testemunhas no debate público. O político deve ser jugado tanto pelos seus erros quanto por seus acertos. Tentar esconder seus erros atacando testemunhas ou mesmo promovendo atos de desagravo o desqualifica mais do que o simples reconhecimento de seus erros. E nesta discussão a verdade mais uma vez retirou-se de política; espero que a encontremos na ciência.

Gustavo Theodoro

De Volta às Ilusões

Nietzsche disse mais de uma vez que Deus está morto. Não era a morte de um ente externo à humanidade que havia ocorrido. Deus havia morrido dentro de cada um de nós. Apesar de ser conhecido crítico do Cristianismo, sua assertiva mais conhecida não o consolava. O risco da humanidade era adentrar a porta do niilismo, que fatalmente levaria ao cinismo, ao escárnio e à infelicidade.

Historicamente, Deus morreu diversas vezes no mundo ocidental. Quando os Romanos viraram as costas para o mundo contemplativo, fixando o olhar na vida ativa, é certo que isto significou uma morte do universo mítico (ainda que não seja exatamente este o sentido dado pela assertiva de Nietzsche).

É interessante notar que mesmo na Grécia antiga a tentativa de contato com a verdade universal, com a verdade absoluta – ou seja, com Deus – era cercada de riscos. O filósofo da alegoria da caverna, ao se desprender de seus grilhões, conseguiu perceber o mundo de sombras em que está imerso a humanidade. A verdade quase o cegou, impedindo-o de permanecer fora da caverna por muito tempo. É muito clara a referência à contemplação nesta metáfora, visto que nela também só podemos permanecer por pouco tempo.

Interessante notar que a última frase da alegoria da caverna se refere ao filósofo, àquele que conseguiu se livrar de seus grilhões e sair da caverna, e na volta, ao contar que o mundo era muito mais do que aquele que eles conheciam, ninguém nele acreditou. A última frase da alegoria se refere a este filósofo e lhe é pouco estimulante: se lhe fosse possível pôr a mão num tal homem… matá-lo-iam.

O Cristianismo adotou por um tempo a contemplação, apesar de a vida ativa nunca ter deixado de ter importância para esta religião. Mas a prática da contemplação foi abandonada lá pelo século XVIII, quase no mesmo momento em que emergia o Iluminismo e após a invenção dos telescópio, que, de certa forma, nos tirou da condição de solitários neste mundo ao mesmo tempo em que mitigou nossa importância.

De certa forma, o materialismo dialético de Marx e Engels e os exercícios literários surgidos desde então sempre lidaram com este novo retrato da humanidade: ao invés de um Ser único, criado por um Ser Perfeito, passou a ser possível que o humano não passasse de algo mais que um mero animal (a teoria da evolução acabou por dar força a esses pensamentos), de forma que nem a humanidade era especial, menos ainda o era um simples homem.

A previsão de Nietzsche, ao que parece, não se concretizou. Seu temor era que a crença na religião seria substituída por outras (tais como política, por exemplo, e seus grandes movimentos do século XX), mas com o tempo acabaríamos desamparados por sentimentos de não pertencimento, de insignificância, cercados de objetivos sem relevância.

Hannah Arendt percebeu neste caminhar histórico da cultura humana uma simplificação do humano, uma aproximação, agora real, com o mundo animal, ainda que a vida humana estivesse a cada dia menos parecida com a de seus ancestrais. Para resumir muito suas ideias, havia uma percepção de que algo foi perdido quando nos afastamos da vida contemplativa para dar ênfase à vida ativa. Ainda assim, mesmo com a descoberta do telescópio e com o pouso do homem na lua, ainda havia algo que nos distinguia dos demais seres da terra: era nossa capacidade de agir conjuntamente, nossa capacidade de transigir, de cooperar, de arguir, de concordar e de construir, a partir desta capacidade exclusiva da humanidade, algo novo, um novo País, uma nova ordem constitucional ou mesmo regras mais evoluídas de convivência.

No entanto, na visão de Hannah Arendt, apesar de a vida ativa nos reservar ainda uma vida especial, gradualmente descemos os degraus de nosso status civilizatório. Assim, se a vida ativa pode ser separada em necessidades básicas, trabalho e ação, é certo que os homens livres em Roma tinha na ação sua atividade principal. O trabalho, para Arendt, era a capacidade de construir coisas, de uma árvore fazer uma cadeira, de tecido fazer uma roupa. O resto eram as necessidades básicas.

Pois para Arendt (em livro do publicado antes de sua maturidade intelectual) o homem deixara para trás a ação política (substituindo-a pela mera administração das coisas) e com a industrialização até o trabalho (no sentido por ela empregado) havia desaparecido. Sua visão era essencialmente marxista (apesar de hoje ser difícil definir algum alinhamento para seu pensamento, já que era francamente antirrevolucionária) e ligeiramente pessimista com sua geração.

É possível dizer que nem Nietzsche nem Hannah Arendt estavam totalmente certos em suas previsões, já que o mundo hoje parece muito mais complexo e sujeito a pontos de vista do que era em suas épocas. Mas suas ideias ganham força com a atomização da sociedade, com a desagregação da vida em comunidade, com o afastamento das pessoas da política e com a inaudita valorização da vida privada.

Ao mesmo tempo, o império da técnica e a confusão de política com a administração das coisas, aliados à extrema valorização da vida privada, reforçado ainda pela recente importância das relações públicas e da publicidade, impuseram a redução do espaço público de que somos testemunhas.

Apesar desses acertos, o niilismo não prevaleceu. A teia de ilusões em que a humanidade sempre se apoiou segue firme, ganhou novas feições e está cada dia mais longe de se ver superada. Se em algum momento no século XX a literatura e a filosofia tentaram dar adeus às ilusões (O Estrangeiro, de Camus, Esperando Godot, de Beckett, O Mal Estar na Civilização, de Freud), o mundo contemporâneo trouxe de volta as ilusões que imaginávamos abandonadas. E não pudemos descobrir o que havia além do niilismo. A atitude dionísica propunha o avanço rumo ao desconhecido.

Não importa aqui indagar se estamos no caminho certo. Trata-se, antes, de perceber o caminho percorrido e seguir os caminhos ao nosso alcance nesta aventura que é a vida. No próximo post volto a temas mais prosaicos, tratando de avaliar a política sob a luz da economia.

Gustavo Theodoro

O Sentido da Vida

É certo que prometi revelar o sentido da vida. No entanto, o blog ainda está no segundo mês de existência. Não precisamos ter pressa para tratar disso. Para muitos é surpreendente que um blog que trata essencialmente de política tenha pretensões de revelar o sentido da vida. Mas os conhecedores de algumas lições de Aristóteles, Santo Agostinho e, principalmente, Kant, não devem se surpreender com isso. Vamos com calma que chegaremos lá.

Gustavo Theodoro

Estatais e Privatização

Tratei anteriormente de como a derrocada do comunismo estreitou os limites dos debates e de como a chamada esquerda teve que substituir uma utopia distante de uma sociedade igual, passando a defender a mitigação dos efeitos da distribuição desigual de riqueza.

No entanto, o fim do socialismo real trouxe para o debate um submarxismo que introduziu novas dificuldades aos velhos debates. O controle dos meios de produção pelo proletariado, proposto por Marx e que os países da cortina de ferro substituíram pelo controle estatal dos meios de produção, degenerou para a mera defesa das empresas estatais em oposição às empresas privadas.

Nessa visão, empresas estatais preservam a riqueza do país, enquanto empresas privadas tornam os empresários ainda mais ricos, aumentando a desigualdade já natural do capitalismo.

Desde as privatizações iniciadas por Itamar Franco, debates quase sempre irracionais tomaram conta dos processos eleitorais, agravados ainda por processos de privatização regidos por regras nem sempre justas e transparentes. Além disso, as principais empresas privatizadas foram vendidas em momento inoportuno, quando crises internacionais rondavam os países emergentes.

Nas eleições vencidas pelo PT, as privatizações realizadas no período Itamar e FHC foram reiteradamente utilizadas como recurso final para a hora decisiva da campanha. Com isso, mesmo o partido mais identificado com as privatizações, o PSDB, deixou tratar do assunto e deixou até mesmo de defender as privatizações realizadas no período de seu Governo.

O resultado disso é que a discussão econômica acerca da melhor utilização dos meios de produção, do aumento de produtividade, do fornecimento de serviços mais eficientes e mais baratos foi inteiramente descartada.

Situação absolutamente incompreensível foi observada na concessão de alguns aeroportos à iniciativa privada. Os aeroportos foram concedidos pelo PT (contrários às privatizações) e a concessão à iniciativa privada foi criticada pelo PSDB (favorável às privatizações, até pelo menos 2001).

Essa inversão de posições é sintoma do envenenamento do ambiente político que bloqueia os debates, o que impede, com isso, o avanço da sociedade, visto que a pequena política, a simulação, a mentira, a retórica e a hipocrisia obliteram totalmente a possibilidade de exposição de idéias e de convergência. Neste ambiente, só as torcidas se manifestam. Os demais cidadãos preferem cuidar de suas vidas.

É certo que Clausewitz dizia que a guerra é a continuação da política por outros meios. Mas esta afirmação foi feita tendo como foco a política externa e antes da invenção da bomba atômica. O acirramento dos debates políticos em ambientes mais amadurecidos pode até se aquecer, mas nunca deixa de mirar a substância dos argumentos. O que temos visto no debate destes assuntos é a simples substituição da discussão pela menção a palavras chaves (privatização, Consenso de Washington, elites, povo, bolsistas), sem que o julgamento das formas mais adequadas de gerir os meios de produção fossem feitos, caso a caso.

No próximo post, trato de outra dessas falsas polêmicas, a regulação da economia.

Gustavo Theodoro

Política e Violência

A violência é tida por muitos como forma de ação política. No século XX, houve um autor, líder sindical, George Sorel, que escreveu um livro muito lido sobre a violência. Fazia ele ligações entre o socialismo utópico e a violência. Na sua forma de pensar, era necessário criar o mito de uma outra sociedade, mais humana, mais solidária, composta apenas por pessoas boas. Depois ele explicou que o objetivo do mito é preparar as pessoas para a destruição de tudo o que existe. Aquele que mitifica o futuro acaba acreditando que temos que matar e destruir no presente.

Hoje morreu o cinegrafista Santiago Andrade, obra do movimento Black Bloc, que adotou a violência como forma de ação. É necessário lembrar: nem Marx defendia o uso da violência, pois ele tinha conhecimento de que a violência não é arma da ação política. Pelo contrário. Nesse sentido, a lição de Cícero é inequívoca: cercada de armas, as leis se calam (inter arma leges silent). Pois lei, para os romanos, significa ligação duradoura e, por conseguinte, contrato, o que pressupõe discussão e acordo. Logo, para os romanos, os inventores da política, nada se parece menos com política do que a violência.

É o primeiro assassinato dos Black Blocs. Sim, pois quem aposta na violência assume o risco de suas consequências. Veremos se ainda haverá quem defenda suas práticas e sua forma de ação.

Gustavo Theodoro

Liberalismo, Intervencionismo e Economia Planejada

                Conforme tratei em posts anteriores, as classificações herdadas da tradição são pouco claras (esquerda e direita, liberal e conservador, revolucionário e reformista). A necessidade de pertencimento a um grupo social ou a um grupo de pensamento, aliada a um discurso segregacionista por parte da intelectualidade e da classe política, criou este simulacro de guerra, da qual testemunhamos seu aspecto mais evidente, que são as discussões política acerca de diversos temas de relevância duvidosa.

                Ainda tratarei das consequências do foco em temas secundários da política, mas hoje quero seguir a trilha herdade pelos nossos antepassados e introduzir o tema acerca das razões pelas quais o tamanho do Estado e a intervenção na economia têm papel de destaque no debate político atual, tanto nos países centrais como aqui na periferia.

                Como se sabe, o século XX foi testemunha de um grande embate entre os ideólogos do marxismo e do liberalismo. O liberais (no sentido Inglês do termo, isto é, os que defendem uma economia de mercado livre das amarras do estado) criticavam aqueles que defendiam que a economia poderia ser planejada e defendiam que era a liberdade econômica que criava riqueza, sendo que o planejamento da economia impedia o pleno desenvolvimento da criatividade humana, da identificação das virtudes do trabalho e inibia o mérito, na medida em que o benefícios obtidos pelo criativo e pelo inovador eram divididos por toda a sociedade.

                Já os defensores da economia planejada, do socialismo, criticavam em especial o grau de desigualdade econômica proporcionada pelo liberalismo, na medida em que criava uma sociedade de vencedores e perdedores. Além disso, os socialistas se apoiavam em vasta literatura humanista e cristã (ainda que os comunista fossem contra as religiões em geral), que induzia a compreensão de que a introdução de um regime que reduzisse à força a desigualdade poderia produzir uma sociedade mais solidária.

                Como se nota, a discussão não produziu consenso, dado que o tema é apaixonante e a realidade do século XX parecia indicar que era possível criar uma sociedade comunista sem que ela inibisse o desenvolvimento econômico.

                Ocorre que boa parte destas discussões foram travadas no campo da filosofia, da sociologia e das ciências humanas em geral. Habermas, grande filósofo humanista do século XX, ainda vivo, chegou a dizer que, se pudesse voltar no tempo, teria estudo economia, já que a ciência econômica é complexa, ainda que tenha, por vezes, características não-científicas, e já que ela é central na discussão do desenvolvimento humano.

                Com a derrocada do comunismo, houve brutal redução da influência das ideias econômicas de Marx. A economia integralmente centralizada e planejada, tal como defendida pelos socialistas do século XX, deixou de ter defensores (exceto por alguns guetos de pensamento).

                No entanto, há três questões que ainda são atuais que decorreram daquelas velhas discussões: o intervencionismo (ou a regulação) na economia, o tamanho do estado e o controle de alguns meios de produção (que degenerou na discussão privatização e estatização). É sobre estes temas a que me dedicarei no próximo post.

Gustavo Theodoro         

Direita e Esquerda IV

                Como havia prometido, passo a tratar dos sintomas de uma doença que contaminou o ambiente político brasileiro, mas que nasceu na Europa do século XX. Havia uma sensação entre nós, logo após a democratização, de que as pessoas boas, bem intencionadas, eram de esquerda, enquanto a direita era bem representada por ditadores, facínoras, empresários inescrupulosos, banqueiros corruptos e por políticos da ARENA. Ao contrário do que pudesse parecer, este não era um fenômeno nacional.

                Com o fim da possibilidade de opor o proletariado à burguesia, novos parâmetros foram postos em seu lugar. Este movimento teve início no século passado, mas segue a todo vapor neste novo milênio.

                O socialismo foi tido por boa parte da intelectualidade europeia do século XX como o representante dos valores humanistas. Ora, quem é contra defender a pobreza, a solidariedade e a igualdade, não é mesmo?

                Mesmo a solução proposta por Bobbio, de certa forma, nos induz a considerar os simpatizantes dos ideais de livre mercado insensíveis às distorções ligadas ao capitalismo, principalmente no que tange a sua característica de gerar desigualdade. Ainda vou analisar mais a fundo estas questões ligadas à igualdade, pois é um dos conceitos que mais sofrem com a guerra política que se estabeleceu nos dias atuais.

                O certo é que o socialismo e a esquerda venceram a batalha de opiniões travada no século XX, mesmo com o capitalismo se mostrando muito mais capaz de produzir riqueza e inovação do que o socialismo.           Isto levou William Harcourt a dizer, no início do século XX, a seguinte frase: somos todos socialistas. Nos anos 1980, poderíamos proferir sentença semelhante aqui no Brasil: éramos todos de esquerda.

O pensamento da época era mais ou menos o seguinte: se os socialistas são humanistas, se são eles os defensores do bem, da solidariedade, da igualdade, quem é contra estes conceitos só pode encarnar o mal radical, o egoísmo, o hedonismo e a ambição desmedida.

                Para agravar o quadro, a esquerda herdou o discurso da divisão da sociedade da Revolução Francesa e da adaptação a esses conceitos feita por Marx no século XIX. Antes do fim do bloco soviético, os socialdemocratas eram os novos representantes da burguesia, o inimigo a ser batido.

O mito do bom selvagem adentrou o espaço político ocidental, o que ajudou a criar toda a sorte de preconceitos contra o homem civilizado e educado. O europeu era prontamente identificado com o opressor imperialista. Esta forma de pensar autorizou Sartre a dizer que abater um europeu é matar dois pássaros com uma só pedra… obtém-se um homem morto e um homem livre. Marx jamais concordaria com tal assertiva.

Nos anos 1970s, vimos surgir com força uma nova esquerda, pautada nas ideias de divisão da sociedade. Vimos o surgimento das doutrinas feministas. Os Panteras Negras e os demais grupos raciais deram nova cara ao movimento negro (que começou de forma legítima e espontânea como movimento de resistência a uma discriminação estatuída por lei). O movimento gay ganhou força nos anos 1980s. Este é o embrião da nova esquerda. Com a queda do comunismo, estas teses marginais de divisão da sociedade assumiram um protagonismo que antes era totalmente ocupado pelas questões econômicas.

A velha crítica de Marx à alienação adentrou neste novo discurso, impedindo que uma mulher seja apenas uma mulher: ela deveria ser, antes de tudo, engajada, ligada aos seus movimentos em defesa da mulher, deveria ser favorável ao aborto e a favor das cotas nas atividades com predominância masculina.

É nesse contexto que os princípios da igualdade e da liberdade passaram por uma releitura, fazendo com que nova ponderação fosse a eles atribuída e criada a obrigatoriedade de que uma pessoa de um grupo social não seja apenas uma pessoa, mas que ele ocupe o papel social das minorias.

De certa forma, esta nova pauta traz consigo a reconfiguração das lutas que mobilizam as pessoas em grupos distintos. E cerceia a liberdade da pessoa enquadrada em algum grupo minoritário sujeito ao ativismo político, não dando a ele possibilidade de se alienar (segundo jargão marxista). Ou seja, se um negro passa a apresentar o Jornal Nacional, ele deve ostentar a defesa da causa negra. Se uma mulher escreve uma coluna em um jornal, ele deve ter as ideias corretas.

Isto lembra-me a velha crítica da esquerda ocidental aos intelectuais que lutavam por liberdade sob a cortina de ferro soviética. Lembro aqui uma declaração de Jan Kavan, diplomata nascido na Inglaterra, mas filho de Tchecos, acerca dessa crítica: “Os meus amigos da Europa Ocidental têm me dito que estamos apenas lutando por liberdade democrático-burguesas. Mas não consigo distinguir entre liberdades capitalistas e socialistas. O que reconheço são as liberdades humanas básica.”

O que resta dessas reflexões é determinar se os direitos das minorias devem se sobrepor aos direitos básicos da pessoa humana, se ainda faz sentido retratar como de direta aquele que luta pelo direito de todos, sem fazer as distinções das pessoas em grupos sociais, tal como nos é cobrado desde a inauguração deste novo fenômeno político e se ainda se justifica a disseminação o preconceito contra as elites, os empresários, os banqueiros, preconceitos esses que foram colocados no lugar dos demais preconceitos observados comumente na sociedade.

Gustavo Theodoro

Dilma em Portugal e a Verdade na Política

                Nos últimos dias pudemos presenciar a confusão estabelecida nas relações públicas do Governo Federal, confusão criada em decorrência de seu hábito de não dizer sempre a verdade. A Presidente Dilma fez uma pernoite em Portugal não prevista em sua agenda. Diante do fato noticiado pela imprensa, o Palácio do Planalto informou que a pernoite foi decidida na véspera, em razão da mudança nas condições climáticas que desaconselhavam voos noturnos. No entanto, posteriormente, o restaurante e o hotel em que a Presidente estive confirmaram que a visita foi preparada com dias de antecedência. Trata-se de fato menor, uma pequena mentira, mas que revela bastante sobre a confusão que os Governos fazem sobre o texto de Maquiavel e seu discurso sobre meios e fins.

Na filosofia, é pela verdade que se busca. Já na política, em geral – e é natural que assim seja -, impera a lógica utilitária e as posições são discutidas em razão dos meios e fins. O estadista visa ao bem público e, por vezes, é necessário manter sigilo sobre alguns fatos, especialmente no que tange à política externa.

A filosofia é campo da verdade. E é perigoso falar a verdade. Esta foi a lição aprendida por Platão com a condenação de Sócrates à morte. Foi a partir deste momento que Platão passou a defender uma tirania de filósofos, para que seus pensamentos – e, consequentemente, a verdade – fossem protegidos. É interessante observar que também Cícero, político e filósofo,  acabou seus dias na ponta de uma espada, condenado que foi à morte.

É de se reconhecer que Platão não estava pensando como um ser político ao defender a tirania, já que não era o bem comum que ele tinha em mente, mas sim a segurança dos filósofos. Montesquieu, que conhecia bem o assunto, sabia que as tiranias são condenadas porque destroem a união dos homens; isolando uns dos outros, elas buscam destruir a pluralidade humana. No entanto, o caso ilustra adequadamente o antagonismo existente entre filosofia e política, antagonismo decorrente, em grande parte, da diferença de objetivos entre eles (verdade e bem comum).

Ao contrário do que imaginam os assessores dos Governos e os responsáveis pelo marketing e pelas relações públicas, não é porque o político nem sempre é obrigado a dizer a verdade que suas atividades devam ser constantemente protegidas por mentiras deliberadas, a não ser que tenham objetivos muito específicos.

De Gaulle propagou, durante a Segunda Guerra, a ideia de que uma França livre lutava contra a Alemanha. Mas é fato bem conhecido que a França havia sucumbido e que os franceses, em larga maioria, não estavam lutando contra os Nazistas. O certo é que mesmo a teoria política, muito afeita à teoria dos meios e fins, admite em pouquíssimos casos a mentira deliberada, mesmo assim em condições extremas.

O que se percebe com essa pequena mentira contada pelo Governo acerca da estadia da Presidente em Portugal é que a mentira deliberada passou a ser utilizada, indiscriminadamente, como prática corrente; foi incorporada à cultura de governo. Nas últimas décadas, parece ter havido uma grande extrapolação dos já discutíveis parâmetros maquiavélicos – em que a exceção da verdade tinha motivos e condições bem estabelecidas – para um absoluto descaso com a verdade.

Cultura vem do latim colere e tem significado bastante próximo do atual: significa cultivar, habitar, tomar conta, criar, preservar. Já no latim era utilizado na agricultura (daí vem a ideia mais forte atualmente, pois as plantas precisam de cuidados constantes para ser mantidas).

A importância das relações públicas – atualmente sob cuidado de marqueteiros – tem papel na criação deste ambiente cultural que incentiva o uso da mentira. Episódios como este, de grande repercussão, mas de baixo impacto sobre o futuro de uma País ou de um Governo, revelam que mentir se tornou prática comum e que o primado de verdade deixou de prevalecer não em razão do bem público, mas do costume de sempre moldar a realidade à conveniência dos Governos. E é bastante provável que o descrédito da política – em que o lema sem partidos das manifestações é emblemático – decorra, em parte, de a mentira ter sido incorporada como meio de ação política.

Gustavo Theodoro

A Copa é de Esquerda ou de Direita?

Copa do Mundo é um bom exemplo do alinhamento automático observado no debate das polarizadas posições políticas da população brasileira. Em geral, quem se julga de esquerda defende a realização da Copa, dizendo que trará mais recursos e empregos para o País. Para quem é contra o Governo – que acaba se classificando sem maior reflexão como pertencente à direita – diz que temos muitas urgências e que não deveríamos investir em estádios que terão pouco uso após a Copa.

Em qualquer sistema que utilizarmos, avaliando os temas comumente divisores entre esquerda e direita (tamanho do Estado, universalização x focalização, pena de morte, aborto, eutanásia, drogas, armas, maioridade penal), não é possível classificar, a priori, se alguém alinhado com alguma ideologia dessas deve ser contra ou a favor da Copa.

No entanto, o bipartidarismo que nos é constantemente imposto – ainda que existam dezenas de partidos – nos impõe um alinhamento a um dos grupos que são os únicos aparentemente existentes. Assim, quem se julga de esquerda se sente premido a defender a liberação da maconha e do aborto, deve esgrimir argumentos a favor das cotas raciais, deve defender a importação de médicos cubanos e deve defender a Copa.

Quem se enquadra no outro campo, em contrapartida, alinha-se imediatamente ao outro lado, criticando a política econômica do Governo, a realização da Copa, exigindo educação padrão Fifa.

Tenho tentado rememorar as razões pelas quais nos definíamos como esquerda e direta no passado para que, quem sabe, possamos fazer escolhas mais racionais e debates voltados ao aprendizado, e não ao convencimento.

Vejo que para muitos assuntos políticos simplesmente não interessam. Pois prometo em pouco tempo tratar da razão pela qual a política já foi a mais importante atividade da vida ativa e como o rebaixamento de seu status pode ter nos feito menos “felizes”, se é que este é o termo mais adequado.

Por ora, fiquemos com a reflexão sobre nossos alinhamentos automáticos e sobre a desnecessidade de tratarmos a política com paixão. Hobbes dava um conselho a todos os que se envolviam com política: Nosce te ipsum (Lê-te a ti mesmo). Este deve ser o ponto de partida, pois é a partir dos valores de cada um, da reflexão individual, que cada ponto deste pode ser decidido.

O posicionamento acerca da Copa dificilmente poderia ser resolvido pelo esquema imaginado pelo Bobbio (que retrata o conflito entre igualdade x liberdade). Dificilmente poderia ser resolvido por meio de um embate do tipo burguesia x proletariado ou elites x pobres. Fica a provocação para aquele que ainda não refletiu sobre o assunto mas já se alinhou a alguma das correntes de discussão. É certo que Burke nos aconselhava a nunca separar por completo o mérito de uma proposta dos homens envolvidos nela. Mas isto não nos autoriza a desconsiderar as teses por trás das ideias, pois, se assim fosse, tomaríamos a posição de seguidores ou asseclas, abrindo mão de nossa personalidade política.

Gustavo Theodoro