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Os Donos do Poder

FHC e Lula

Eu sua famosa obra, Raymundo Faoro dizia que “o poder – a soberania nominalmente popular – tem donos que não emanam da nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre.” Muitos políticos ainda hoje se consideram donos da nação e, como tal, portam-se como se estivessem acima das leis.

Nos últimos dias fomos bombardeados com notícias envolvendo dois ex-Presidentes da República, que disputam descrições positivas de seus governos na história, Lula e FHC. Independentemente da qualidade de seus governos, parece que ambos se comportaram como a elite descrita por Raymundo Faoro.

Interessante que, para quem participa das polarizadas discussões envolvendo esses políticos, percebe-se claramente como as paixões comandam esses debates. Para petistas e simpatizantes, os fatos envolvendo FHC são gravíssimos, denotam falhas em seu caráter, sendo evidente seu comportamento antiético. Para os tucanos e antipetistas, as palavras pouco se diferem, bastando substituir PSDB por PT e FHC por Lula.

Particularmente, não simpatizo com nenhum dos dois times. Sob esse ângulo, penso que tanto Lula quanto FHC cometeram impropriedades, podendo até ter cometido crimes. O comportamento denota tráfico de influência, compadrio e acordo de bastidores, práticas claramente à margem dos princípios republicanos.

FHC teve um relacionamento com uma jornalista da Rede Globo. Em um belo acordo de cavalheiros, Miriam Dutra foi transferida para a Europa, onde permaneceu assalariada da Globo até 2015, apesar de ter trabalhado muito pouco neste período. Mas não foi só isso: durante o mandato de FHC, a jornalista começou a receber recursos de uma empresa sediada nas Ilhas Cayman. Só ouço notícias envolvendo esse paraíso fiscal quando se pretende esconder a origem de recursos. Essa empresa de Cayman pagou por anos salário em dólar para suposta mãe do filho de FHC.

A imprensa não noticiou o caso, apesar de o assunto ter sido do conhecimento de todos os jornalistas. Noblat disse que é favorável à divulgação de fatos envolvendo a vida privada de políticos em uma coluna assinada em defesa das Organizações Globo. Só faltou explicar os motivos pelos quais ele não seguiu a sua linha de pensar, evitando tratar desse assunto por todo esse tempo. Tudo isso indica que os que cercam o poder se dobram às necessidades dele, retirando empecilhos do caminho, prestando assistência e fazendo favores.

Apesar de o caso Miriam Dutra revelar práticas de compadrio muito evidentes, nas hostes tucanas o que percebi foram referências ao fato de se tratar da “vida particular” de pessoas, que não deveríamos nos envolver, com referências ainda ao possível envolvimento de membros do PT na divulgação dos acontecimentos neste momento. Para fechar o caso, ainda foi divulgado que José Serra deu emprego público, sem necessidade de comparecimento, à irmã de Miriam Dutra.

O caso Lula também retrata situações descritas por Faoro. A Bancoop quebrou. A OAS assumiu parte dos imóveis. Os clientes da cooperativa tiveram muitas dificuldades na negociação com a OAS, sendo-lhes muito custoso. Com Lula foi diferente. Seu apartamento foi terminado, com todo o revestimento trocado. Um elevador privativo foi instalado. Quando O Globo descobriu que Lula teria seu apartamento da Bancoop entregue, enquanto a maioria dos clientes perdeu os recursos, Lula passou a negar que fosse dono do apartamento, apesar de a obra ter sido supervisionada por sua família.

O caso do sítio do Lula revela como as empreiteiras se apressaram a dar conforto para a família do líder político. A Odebrecht, que usualmente não atua na área de reforma de residências, rapidamente colocou o imóvel no nível presidencial. A obra foi paga em dinheiro vivo (procedimento comum dos que têm interesse de esconder a origem dos recursos). A mesma OAS adquiriu móveis para os dois imóveis na mesma loja, a Kitchens, uma das mais caras lojas cozinhas planejadas do país. Uma operadora tratou de instalar uma antena de celular perto do sítio, para suprir a necessidade dos membros da família presidencial.

Os simpatizantes do PT procuraram relacionar a divulgação das notícias dos favores prestados pelas empreiteiras a preconceito de classe. Não sabia que a sociedade brasileira era dada a preconceito contra os donos do poder.

Apesar da movimentação das torcidas, as notícias até aqui divulgadas não deixam uma imagem muito boa das duas lideranças políticas. Favores de empreiteiras nunca são gratuitos. E políticos devem rejeitar qualquer tipo de favor. Parece que resolveram aceitar favores e não pensar muito nisso. Agora resta inventar versões razoavelmente consistentes para tentar preservar o pouco de credibilidade que lhes restou. De mim, esses donos do poder receberão apenas a minha condenação.

Gustavo Theodoro

O Espaço da Política

EUA Cuba

Marx previu que a crise do capitalismo levaria a sociedade à ditadura do proletariado e, a seguir, pelo socialismo, um mundo igual onde não haveria mais espaço para a política, que seria substituída pela “mera administração das coisas”.

Apesar de o prognóstico de Marx ter se mostrado equivocado, de certa forma o espaço para atuação política se reduziu. O paradoxo previsto por Tocqueville se confirmou: o fim da aristocracia, com a criação de um espaço público onde todos podem participar, criou condições também para que poucos efetivamente se envolvam nas questões públicas.

A evolução das burocracias também limitou a abrangência da política, pelo menos a da política interna. Talvez apenas nas relações internacionais a política tenha conseguido manter seu status.

Por isso é tão interessante, para quem gosta de política, observar a reaproximação entre os EUA e Cuba. Tratou-se de ato de vontade dos governantes, que tinham a seu dispor esse caminho, podendo percorrê-lo ou não. É provável que o regime cubano seja destruído com essa aproximação. Já vimos esse filme com a queda do muro de Berlim. Já foi superada a discussão sobre a possibilidade da transição para o socialismo democrático, tema tão comum aos socialistas ocidentais dos anos 1980.

O reatamento das relações, quando levar à abertura comercial, aumentará a pressão para reformas no sistema político cubano. O turismo levará estrangeiros, haverá mais acesso aos bens de consumo e à informação. A pressão da sociedade cubana aumentará. E não era necessário que nada disso ocorresse. Esse fato novo só ocorreu neste momento por decisão dos líderes políticos, que “iniciaram” um diálogo por ato de vontade, exercendo a liberdade que é característica da política.

Os gregos e romanos tinham a política em alta conta. Mas dificilmente eles relacionariam o termo “política” à eleição pela liderança do PMDB na Câmara ou às disputas envolvendo Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Já o reatamento das relações EUA e Cuba é evidência de nossa milenar herança política.

Gustavo TheodoroO

A Marca do Líder

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Imaginamos que as empresas privadas são ilhas da gestão moderna, atentas à ciência comportamental, locais onde os gestores procuram extrair o melhor de cada pessoa, de modo a produzir um ambiente que propicie o desenvolvimento individual e da empresa. Seu contraponto seria o serviço público, onde a gestão burocrática, hierárquica e sem imaginação criaria ineficiência e desperdício.

Não é necessário muito esforço para verificarmos que a iniciativa privada, mesmo as empresas mais destacadas, estão repletas de exemplos de líderes controladores, irascíveis e personalistas. Steve Jobs é um típico caso de gestor controverso, idolatrado pela mídia e pelos consumidores em geral, mas que encontrava poucos defensores entre os que já trabalharam com ele.

Mas há exemplos ainda mais interessantes. Joe Cassano era CEO da AIG LP, área da seguradora responsável pelos seguros de títulos hipotecários. Cassano exigia obediência total. Gestão para ele era sinônimo de controle.

Um negociante londrino lembrou-se do estilo de Cassano: “A AIG FP tornou-se uma ditadura. Joe intimidava todo mundo e tentava compensar isso com enormes somas de dinheiro”.

Um ex-empregado da AIG disse que “o nível de medo era tão alto que, quando tínhamos essas reuniões matinais, apresentávamos o que fazíamos de modo a não o aborrecer. Se você de alguma maneira criticasse a organização, era como abrir as portas do inferno”

Em comparação com a antiga AIG, outro negociante disse: “Na administração de Joe, o debate e a discussão que eram comuns na época de Tom Savage (CEO anterior) acabaram. ”

A maioria dos empregados seguia a cartilha da empresa e aprendeu a lidar com o chefe: “A maneira de lidar com Joe era sempre começar dizendo “você está certo, Joe””. Ele valorizava a lealdade e a obediência e compensava o péssimo ambiente com altos salários.

Gene Park, funcionário da AIG LP, começou em 2005 a estudar os seguros que a AIG havia feito na área de títulos hipotecários. Ele descobriu o que alguns investidores que estavam apostando contra o mercado já haviam descoberto: empréstimos com baixíssima chance de recuperação haviam sido transformados em títulos que as agências de risco continuavam avaliando positivamente. Um pequeno grupo de investidores desvendou essa falha e passou a comprar proteção contra esses títulos (CDS). Como o nível de exposição era muito alto, os grandes bancos americanos repassaram esse risco para a AIG. Esses investidores estavam apostando contra o mercado. Ganhariam dinheiro se o mercado de hipotecas americano quebrasse. O que Gene Park descobriu é que parte dos grandes bancos transferiu esse risco para as seguradoras. E que a AIG havia embarcado de cabeça nessa onda.

Gene Park foi a uma reunião com Joe Cassano e expôs o problema. Cassano se mostrou muito contrariado e, ao término de reunião, chamou Park para uma conversa particular e passou-lhe uma terrível reprimenda. Esse tipo de crítica jamais deveria se repetir.

Apesar de ter interrompido a contratação de novos seguros envolvendo títulos hipotecários a partir de meados de 2006, a carteira de 2005 não foi desfeita. Quando veio a crise de 2007 e particularmente a crash de 2008, a AIG quebrou justamente devido ao seguro de U$ 50 bilhões em títulos subprime. Dificilmente a AIG quebraria se Joe Cassano não estivesse no controle da divisão de títulos subprime da AIG. Um único gestor antiquado pode significar o fim de uma empresa.

Marissa Meyer em 2012 era a queridinha do Google. A Yahoo vinha de dificuldades de sobreviver em tempos muita concorrência e resolveu contratá-la como CEO. Sua primeira medida foi extinguir o Home Office, símbolo das empresas do Vale do Silício. A produtividade, como era de se esperar, caiu.

Marissa detém um estilo de gestão centralizador e personalista. Nos últimos tempos tem sido comparada inclusiva à Evita Peron. Sobre o estilo de gestão de Marissa, um colaborador declarou recentemente: “Marissa é o tipo de chefe que faz com que você sinta a estar decepcionando o tempo todo, por isso sempre acho que estou a ponto de ser demitido”.

O clima no Yahoo está tão ruim que um terço dos funcionários se demitiram nos últimos 12 meses. As estratégias empresariais de Marissa não deram resultado. Não fosse a participação na chinesa Alibaba, seria mais evidente a queda nos lucros e na participação da empresa. Pesquisa realizada recentemente entre os funcionários remanescentes da empresa revelou que apenas 34% acreditam que as perspectivas para a empresa estejam melhorando. Pesquisa idêntica realizada no Twitter e no Google revelaram índices muito superiores, de 61% e 77%, respectivamente.

Acreditar que gestão é cobrança e manutenção da hierarquia podia ser admissível há algumas décadas. Com a informação que se têm nos dias atuais, chega a ser difícil compreender como grandes empresas, muitas centenárias, algumas inovadoras, mantém em seu comando gestores ultrapassados.

Talvez a grande diferença entre o setor público e o setor privado é que o mau gestor privado, em clima concorrencial, inevitavelmente termina por levar sua empresa à redução de participação de mercado ou mesmo à sua extinção, como foi o caso da AIG. O mau gestor público produz resultados muito ruins, mas como não há competição e falência, a falsificação de indicadores – gaming – pode manter a má gestão por muitos anos.

Por isso se faz ainda mais necessário que, no serviço público, a estabilidade do servidor seja utilizada não para se aproveitar do cargo, eximindo-se de tarefas, mas utilizando-a para buscar um ambiente de trabalho que aproxime a organização do interesse público. Não é difícil identificar o mau gestor ou as organizações que funcionam mal. O que cabe a cada um é atuar para que gestores personalistas e controladores não permaneçam em suas funções. Aos que pretendem, um dia, assumir um cargo de gestão, cabe estudar o que a academia tem a dizer sobre o assunto. É uma das áreas que mais produziram resultados palpáveis nas últimas duas décadas. Fica a dica.

Gustavo Theodoro

A Ética dos Mercados

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O mercado, quando é livre, cria suas anomalias e as corrige por meio de desvalorizações abruptas e, geralmente, descontroladas. A febre das tulipas na Holanda do século XVII ilustra bem o fenômeno.

Tulipas eram flores raras, de longa maturação, cujo desenvolvimento se dava em até 12 anos. O mercado girava em torno dos bulbos das tulipas. Devido ao tempo de maturação das tulipas, as tulipas foram substituídas por contratos. Especuladores passaram a comprar e vender o direito sobre as tulipas quando desabrochassem. Esse é talvez o primeiro exemplo de contrato futuro, fundado na expectativa de valorização do ativo (no caso, as tulipas).

Esses contratos chegaram a Londres e a Paris. Os preços desses contratos subiram exponencialmente até que um comerciante resolveu não exercer o direito da compra da tulipa no vencimento do contrato. Subitamente, a desconfiança com o preço exorbitante do bulbo se espalhou e o valor das tulipas chegou a um centésimo do valor do pico. O estouro da bolha provocou recessão e desconfiança quanto a esse tipo de investimento.

No século XX assistimos ao amadurecimento dos mercados, principalmente a partir da crise de 1929. Mas não se pode dizer que tenhamos, de fato, aprendido algo. Nos acostumamos a duvidar da ética dos políticos, principalmente depois do que escreveu Maquiavel, mas ingenuamente acreditamos nas instituições de controle criadas pelo próprio mercado.

O filme concorrente ao Oscar The Big Short – A Grande Aposta – ajuda a contar como a crise econômica de 2008 teve início com a criatividade dos operadores de mercado, mas foi o absoluto desprezo pelo comportamento ético que atrasou as avaliações e levou os bancos e seguradoras a uma queda ainda maior.

O milagre da segunda hipoteca por quem não podia sequer pagar a primeira foi percebido por muitos. As agências de avaliação de risco sabiam que títulos de boa qualidade estavam misturados a títulos cujo pagamento dependia da contínua valorização dos imóveis. O esquema de pirâmides, proibido na maioria dos países há quase um século, estava de volta. Mas ainda assim as agências de risco continuavam atribuindo nota máxima aos títulos hipotecários mistos, os subprimes.

Quando as duas empresas autorizadas a conceder empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e Freddie Mac, empresas de capital aberto mas garantidas pelo governo americano, começaram, ainda em 2007, a apresentar dificuldades, uma parte dos analistas teve certeza de que a crise do subprime estava a caminho. Naquele momento, uns poucos abnegados gestores já estavam apostando muito dinheiro contra os títulos hipotecários.

Ocorre que os bancos, a essa altura, estavam sentados em bilhões de dólares de títulos impagáveis. Ninguém queria – nem podia – reconhecer o prejuízo. Assim, apesar de evidente a crise, os títulos continuaram subindo e as agências de risco não rebaixaram a nota dos bancos e seguradoras.

Entre a ética e o dinheiro, os que operam no mercado raramente se questionam: o dinheiro sempre ganha. Os bancos pressionaram as agências de risco, que mantiveram baixo o risco das hipotecas. Ao invés de ajustar, o sistema deu corda à exuberância irracional, aumentando sua disfuncionalidade. Nem na quebra do Bear Stearns, no início de 2008, o risco foi admitido. Foi necessário que o centenário Lehman Brothers quebrasse, levasse junto a AIG e centenas de outras financeiras e seguradoras, para que a crise fosse reconhecida.

Só então aventou-se o risco de quebra dos maiores bancos americanos, em uma crise que se alastrou para os sistemas bancários de todo mundo. Foi quando os Estados foram chamados a cobrir o rombo.

Desregulado, livre, criativo, quando vencido o mercado foi em busca do estado. Sim, o mesmo Estado que cuja intervenção era combatida, cuja forma de gestão era considera ultrapassada, o mal necessário foi convertido em solução para os problemas. “É necessário proteger os que donos de hipotecas”, passaram a dizer os banqueiros.

Por ser o fiador do mercado, entendo que seja dever dos estados estabelecer regras para o seu funcionamento. O estado interventor é tido por corrupto e ineficiente. Vimos no escândalo da Enron que as empresas de auditoria independente podem se corromper. Na crise dos subprime, vimos que as agências de classificação de riscos também têm seus interesses.

Assim, quando virem por aí a defesa de que o Estado não deve estabelecer regras e controles, pensem consigo próprios: mas quem exercerá essa tarefa? O mercado ou os empresários não são necessariamente mais éticos, tal como nos informa o preconceito que grassa por aqui, devido à presença do Estado em muitos setores da economia. Pelo contrário: por ter outros objetivos, aqueles que atuam em nome do Estado costumam agir com muito maior compromisso com o interesse público do que aqueles que têm por objetivo principal fazer dinheiro. É grande a corrupção nos órgãos de Estado. Mas ela é continuamente denunciada e combatida. Já o escândalo financeiro deste século, passados poucos anos, já está sendo visto como mero ajuste cíclico da economia. E quase ninguém foi punido.

Gustavo Theodoro

Da Defesa das Instituições

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As apurações da Polícia Federal, em especial nas operações Zelotes e Lava-Jato, gradualmente se aproximam do ex-Presidente Lula. O recebimento de recursos por parte de um filho dele e as histórias muito mal contadas envolvendo sua tríplex no Guarujá o colocam no foco da investigação.

Como era de se esperar, imediatamente os defensores do PT começaram a se manifestar da maneira habitual. O site Brasil 247 repercutiu a fala do Deputado Waldir Damous, do PT, que disse que o envolvimento do Lula é para “dar manchete”. Luis Nassif questionou o destaque dado à notícia. O Diário do Centro do Mundo repercutiu uma nova postura do Governo, dizendo que a época do “republicanismo ingênuo” já passou. A rede de desconfianças acerca de possível golpe das elites, da imprensa, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal é tema dominante e cotidiano desses sites.

O filme Spotlight – Segredos Revelados é uma demonstração eloquente de como o andar de cima pode se aliar e pode, em nome de valores nobres, deixar pessoas indefesas ao relento. O aliciamento, a afabilidade, o pertencimento à sociedade e até mesmo ameaças são usadas para fazer impedir a polícia, o judiciário e a imprensa de fazer o seu trabalho.

É evidente que cada um de nós deve ler as notícias com olhar crítico, deve perceber se, em alguma notícia, não houve destaque exagerado ou minimizado. Em especial aos menos favorecidos, aos que estão em posição mais frágil e desprotegida, a esses devemos nos manter mais vigilantes, para que evitemos nos aliar justamente àquele que tem mais poder e que, possivelmente, oprime.

Pois bem. O PT ocupa a Presidência da República há mais de treze anos. Como o estado brasileiro concentra boa parte do poder na União, é evidente que o grupo que está no poder representa uma elite política. Sendo assim, o partido do governo concentra considerável poder, seja por meio do uso da máquina governamental, seja por meio do despejo de verbas na publicidade, seja por meio do controle de importantes estatais, dentre outros. O PT e seu governo é forte e poderoso. Os dirigentes do PT e do governo denunciados todos contaram com a defesa das mais importantes bancas de advogados do país. Não se trata de pessoas indefesas, nem de perseguição ao fraco.

No entanto, apesar de tantos anos dominando a política nacional, está totalmente disseminado, pelo menos entre os defensores do governo, que a instituições brasileiras atuam em alinhamento com as “elites” com o objetivo de destruir o PT e sua principal liderança, o Presidente Lula.

É esperado que críticas e acusações de adversários políticos sejam levados para o campo da opinião. Por meio desse expediente, o ataque ad hominem, à pessoa que faz o ataque, torna-se prática corriqueira. É muito eficiente esse contra-ataque, pois de fato adversários políticos se utilizam de denúncias para fazer política.

A história se complica quando outras instituições começam a ser reiteradamente criticadas pelo partido do governo. Quando o mensalão foi julgado, o STF sofreu com essa tentativa de desqualificá-lo. A ampla cobertura da imprensa gerou acusações de parcialidade. Mas os problemas no governo foram se intensificando. Ações da Polícia Federal levaram o PT a se referir a uma suposta “ala tucana” da PF.

O mais novo odiado é o Juiz Sérgio Moro, que conduz a lava-jato. Junto dele, lideranças do governo e até mesmo a Presidente da República manifestam-se levantando dúvidas sobre a condução das investigações, sugerindo parcialidade e acusando a ocorrência de “vazamentos seletivos”. Na esteira desse pensamento, quase todas as instituições do Estado são colocadas sob ataque. Instituições que a Presidência da República deveria proteger são alvos de contínuos ataques. Vimos em alguns países da América Latina essa tática sendo aplicada para mitigar esses poderes, tornando-os inócuos e descaracterizados. Aqui no Brasil essa tática até o momento só gerou desconfiança de uma parte da população contra nossas instituições.

Incomoda-me particularmente a utilização do ceticismo e da empatia que seriam necessárias para defender pessoas em posição de fragilidade para capturar a simpatia a um grupo poderoso, uma elite política e econômica. Nunca é demais lembrar que o governo do PT contrariou pouquíssimos interesses, não fez reforma agrária, não instituiu tributação progressiva, não tornou os gastos públicos menos regressivos, não diminuiu ou participou do lucro dos bancos e fez alianças no mínimo suspeitas com parte do empresariado. Os rentistas, os bancos e as empresas amigas ainda são os maiores vencedores da disputa por nossas escassas riquezas.

Só a conta do swap (operações com dólar realizadas pelo banco central) já rendeu mais dinheiro ao andar de cima do que toda a distribuição de renda do bolsa-família. Simular estar ao lado dos desprotegidos e dos mais fracos para dar verossimilhança ao ataque a nossas instituições é medida canalha, que deve ser denunciada continuamente, com a mesma persistência utilizada pelo partido do governo.

Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa são instituições humanas e falíveis; mas penso que devemos olhar com desconfiança esse ataque reiterado por quem tem poder similar ou até maior. A cada dia parece mais que o PT chegou ao poder e se aproveitou da estrutura existente. Depois que várias de suas lideranças foram presas e condenadas, as instituições passaram a ser tratadas como partidos políticos. Isso é ruim para as instituições – que estão continuamente sob ataque – e para o PT, que não faz uma autocrítica. E atenção: não é difícil que essa postura tenha por resultado o fim do PT.

Gustavo Theodoro

Sobre o Tempo

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O ser humano mistura-se e distrai-se para não dar de cara com ele mesmo. A psiquiatria trata por pânico ou ansiedade generalizada a preocupação exagerada quanto ao futuro, e depressão a preocupação com o passado.

Há uma fábula da antiguidade, atribuída a Higino, utilizada por Heidegger, que parte da preocupação para, em algum momento, vincular o Ser ao tempo:

 Quando certa vez a Preocupação atravessou o rio, viu um terreno argiloso. Refletindo, pegou um pedalo dele e começou a formá-lo. Enquanto refletia sobre o que estava criando, Júpiter aparece. A Preocupação pede-lhe que confira espírito à argila formada. Júpiter lhe concede isso com prazer. Mas quando ela quis dar seu nome à figura, Júpiter proibiu e pediu que lhe desse o nome dele. Enquanto Júpiter e a Preocupação brigam por causa do nome dela, também a Terra se manifestou e quis que a figura tivesse nome dela, pois afinal ela lhe dera um pedaço de seu próprio corpo. Os litigantes chamaram Saturno como juiz. E Saturno deu-lhes a seguinte decisão aparentemente justa: Tu, Júpiter, porque lhe deste o espírito, terás o seu espírito depois da morte; tu, Terra, que lhe deste o corpo, receberás seu corpo. Mas porque a Preocupação formou essa figura antes das demais, enquanto ela viver será propriedade da Preocupação.

Preocupação, para Heidegger, relaciona-se com a atividade de prever e planejar. É a finitude da vida – e a consciência dela – que nos coloca diante das preocupações. Apesar do belo e difícil capítulo sobre a morte presente em Ser e Tempo, a preocupação não se relaciona com o medo da morte; se está relacionado ao medo de algo, trata-se de medo da vida.

Esses pensamentos foram propagados por vários pensadores dos anos 1920. Mas Heidegger sempre negou que sua doutrina tivesse algo relacionado com a crítica da vida de seu tempo. Em dizer mais erudito, suas preocupações eram ontológicas, e não ônticas.

Seguindo a esteira do pensamento disposta em Ser e Tempo, o ente seria naturalmente disposto a alguma coisa. Para Heidegger, essa disposição é tratada por ele como uma impropriedade. É na indisposição que surgem o fastio e o tédio. No que ele conclui que o ser evidenciou-se um ônus. Assim, as distrações se tornam “necessárias”, como uma fuga do tédio e do medo, que aproximariam o ser dele mesmo.

Tal como a transformação kafkiana em Metamorfose que trata de nossa inadequação para a vida, Heidegger busca revelar que, se a vida das distrações é repleta de preocupações, a vida do ente voltado para ele próprio também é repleta desse sentimento de inadequação.

A não-adaptabilidade poderia reduzir as chances de sobrevivência biológica de nossa espécie. Por isso o ser humano age de acordo com o princípio do alívio. Assim, ele passa a evitar aquilo que, para os filósofos, seria a essência da dignidade humana: a espontaneidade, a reflexibilidade e a liberdade.

Com o tempo o ser humano cai no inevitável e deixa que a civilização alivie o peso do ser. Nesse sentido, é Robert Musil (citado por Rüdiger Safranski), que conclui: “é preciso valorizar quando um homem ainda tem o desejo de ser algo inteiro”.

Heidegger suspeita que o alívio seja uma manobra de fuga, uma impropriedade. O propriamente herói carrega como Atlas o peso do mundo em suas costas. Aqui se antevê a crítica à massificação, à urbanização e a indústria da diversão, tão presente nos tempos de Weimar. Nessa vida cada um é outro e ninguém é ele mesmo.

Saindo de Ser e Tempo e voltando às palestras do tempo de Freiburg, em 1929, Heidegger deixa seus conceitos um pouco mais claros. É no momento do medo que as dissimulações se quebram. A filosofia só começaria de fato quando temos a coragem de deixar o nada acontecer. É impossível ler Heidegger e não pensar em Nietzsche, que lançou o mesmo desafio, de olhar de forma arregalada para o abismo em busca do Ser. E de Platão, que levou seu filósofo para além das fronteiras do visível em busca da verdade, o tirando da caverna, do mundo de sombras.

Heidegger deu importantes passos em sua filosofia. Infelizmente a leitura de sua filosofia é incognoscível para a maioria das pessoas. É importante considerar que, ao contrário de Nietzsche, Heidegger jamais pode ser tomado como guia de vida. Suas análises são desinteressadas e, em certo momento, – de forma surpreendente – é feita uma inversão em que o ser impróprio passa a ser mais natural do que o próprio, na linguagem de Heidegger. Ou seja, a vida de distrações passa a ser a natural. Antes de conselhos úteis para a vida, sua filosofia trata de refletir sobre o que nos constitui sem necessariamente chegar a um desfecho. Trata-se de filosofia de alta qualidade.

Recomendo aos aporéticos que chegaram ao final deste texto que deixem, neste momento, as preocupações de lado, ainda que nossa vida pertença a elas. Sabemos que nossa dívida é apenas com a Terra, que terá de volta nosso corpo, e com Júpiter, a quem devolveremos nosso espírito. Enquanto esse momento não chega, desejo a todos um feliz ano novo, pois o tempo e sua passagem é também tema desse artigo. E se estamos preocupados com algo, isso é sinal apenas de que estamos vivos. Feliz 2016.

Gustavo Theodoro

Extremismo

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A entrada de imigrantes na Alemanha tornou relevantes grupos de extrema direita que condenam a política de Angela Merkel de abrigar refugiados sírios em seu país. Mais de um milhão de refugiados foram acolhidos por aquele país em 2015.

Os grupos extremistas alemães, minoritários, classificam os políticos de “traidores do povo” e os jornais são chamados de “conformistas”. Esses grupos tratam a imprensa por termos como “mídia mentirosa”, por evitar criticar a política de Governo alemã. Mas uma característica nesse grupo chamou-me a atenção: o fato eles evitarem a mídia convencional e confiar mais em suas próprias fontes de informações, como blogs independentes.

Esse fenômeno está muito longe de ser isolado. Os EUA convivem com a Fox News há algum tempo e é muito provável que uma candidatura com a de Donald Trump não se mostraria tão resistente sem o radicalismo presente nesse veículo de mídia.

Da mesma forma, aqui no Brasil o caminho tomado pela Revista Veja e pela Carta Capital, para citar apenas dois exemplos, revelam como a informação pode ser tratada de uma maneira especial com vistas à formação e manutenção de grupos bem definidos. Eu não me considero nem de esquerda nem de direita, pois esses conceitos me parecem insuficientes para abrigar minha personalidade – modestamente, por certo -, e talvez por isso percebo imediatamente, nas redes sociais, a forma de propagação das informações disseminadas, inicialmente, por esses e outros veículos mais radicais.

Talvez também por começar a ter idade de comparar períodos bem diferentes de nossa história, os eventos às vezes parecem se repetir como farsa. Lembro-me claramente de Marília Pera ser ofendida por petistas por seu apoio à Collor. Lembro-me de Regina Duarte ser defendida por algumas publicações simpáticas ao Governo FHC quando ela começou a sofrer patrulha por sua atuação nas campanhas do PSDB.

De uns tempos para cá, petistas e simpatizantes passaram a ser vaiados e xingados nas ruas por anti-petistas. Cada episódio desse cria uma onda de indignação de um lado e propagação satisfeita de outro. Joaquim Barbosa foi abordado por simpatizantes do petismo na última semana e fenômeno semelhante ocorreu, com sinais trocados.

No episódio envolvendo Chico Buarque, a divisão das redes rapidamente se fez presente. De um lado, os que manifestaram aprovação pelo fato de “petistas” serem cobrados nas ruas. De outro, vi correr uma onda de indignação. Ambos os lados recorriam a palavras e termos que buscavam ressaltar preconceitos contra os quais deveríamos nos resguardar: “petista”, “mora em Paris”, “Leblon”, “Garneiro”, “coxinhas”, “Rouanet”, os termos se propagam e se disseminam, mas poucos de fato parecem ter assistido ao vídeo, ou o assistiram já contaminados por sua torcida.

A principal discussão ocorreu entre um “rapper” e Chico Buarque. Foi uma discussão típica de rua, com alguns personagens nitidamente alterados (para não dizer bêbados). O “rapper” foi agressivo em certo momento, Chico foi irônico, mas reagiu com tranquilidade. O episódio terminou com um aperto de mãos.

Não fosse o atual clima de extremismo que se observa no país, seria incompreensível um episódio como esse causar tanto debate. Pior é que o debate é, usualmente, maniqueísta, com cada grupo repetindo suas verdades e suas indignações.

Eu estou só assistindo a esse acirramento de ânimos. Participação política é necessária. Mas o extremismo não é requisito para se discutir política. Penso que deveríamos ouvir mais os argumentos dos outros, abrir o leque de leituras e evitar participação em grupos sectários ou radicais. A história nos mostrou que os radicalismos quase sempre levaram a rupturas institucionais e crises do Estado. E a Alemanha Nazista é um bom exemplo disso. Por mais difícil que seja a situação atual, o caminho institucional, do respeito às leis e aos próximos continua sendo o recomendado.

Gustavo Theodoro

A Crise da República

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Estamos em profunda crise. O noticiário frenético é prova disso. Cada dia de noticiário a que nos furtamos de acompanhar implica considerável desatualização do cenário político. Os números da economia não cansam de apontar o caminho da depressão. As informações do judiciário não parecem indicar que estamos perto do fim das investigações. O governo dá sinais de que não será capaz de entender o momento em que vivemos.

Nesse cenário, tivemos uma das semanas mais conturbadas dos últimos tempos. O STF definiu o ritmo do impeachment, privilegiando o rito já aplicado no caso Collor e o voto aberto. A questão de possível suspeição de Eduardo Cunha – tema que eu abordava com desconforto – foi enfrentada e superada. O papel do Senado foi valorizado (tal como já fora no impedimento de Collor, ainda que não déssemos a devida atenção àquele fato) e a votação da comissão por votação secreta e sem a indicação de líderes foi adiada.

Não escondo que não sou defensor desse governo. Acho-o perigosamente amador no campo da economia e incompetente da atuação política. Além disso, seu pragmatismo, acompanhado de uma leitura muito malfeita de Maquiavel, levou sua atuação no campo ético para padrões semelhantes ao do PMDB (se é que isso já não estava presente no DNA do PT). Ainda assim, no regime presidencialista, a importância do escrutínio, da eleição, por ser direta, deve ser constantemente valorizada.

Em um regime parlamentarista, o governo Dilma já teria sofrido seu voto de desconfiança e estaríamos já, a essa altura, livres disso. Mas escolhemos, mais de uma vez, o regime presidencialista. Nesse regime, o presidente é um dos poderes da república e sua legitimidade advém do voto popular. Removê-lo é um processo traumático, que exige um rito específico e 2/3 dos votos das duas casas legislativas.

Sob esse prisma, foram importantes as decisões do STF desta semana. Ao deliberar sobre o rito, a atuação de Eduardo Cunha, o papel do Senado e a abrangência do voto secreto, o STF deu as condições para o impedimento. O processo, no entanto, é político, visto que são políticos, e não juízes, que apreciarão a matéria. Cumprindo o rito, indicando os crimes cometidos e sendo aprovado pelas duas casas legislativas, não há quem poderá dizer que impeachment se confunde com golpe. Quer dizer, sempre haverá, mas creio que quem o fizer estará no campo das torcidas. Mas é certo que o impeachment, se aprovado agora, com esse rito, será legítimo. Agora não vai ter golpe mesmo; se a presidente for afastada, terá havido impeachment.

 Duas áreas atuam fortemente sobre os prognósticos para o futuro. Os desdobramentos criminais da operação lava-jato tendem a influenciar de forma flagrante esse processo. Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, peças fundamentais desse jogo, estão sob forte pressão, sendo que os dois últimos já foram denunciados pelo Janot. As forças policiais e judiciárias se aproximam inexoravelmente de Lula, de seus amigos e de seus filhos. E será difícil que campanhas políticas, inclusive da Dilma, não tenham recebido dinheiro fruto da corrupção (prática semelhante à adotada pelo tucano Eduardo Azeredo, ex-Presidente do PSDB, que, aliás, foi condenado por peculato nesta semana).

No campo da economia, é bastante provável que o cenário se deteriore daqui para frente (ainda que possa esboçar alguma reação no curto prazo). Quem acompanhou as ruas na semana que passou deve ter percebido que os ditos movimentos sociais queriam a cabeça de Joaquim Levy e o fim de sua política de ajuste fiscal. Nossa dívida pública – na casa dos 70% do PIB – tem padrões europeus, sem a renda per capita deles, o que torna nossa situação muito pior. Nessa crise política, o Governo não tem maioria e sequer vontade para levar a cabo as necessárias reformas estruturais.

A conta dos juros não para de crescer. É, ao lado da previdência, nossa maior conta. Fazer reforma da previdência tem custo político alto. Baixar os juros atende à pauta dos economistas desenvolvimentistas e aos grupos que apoiam o Governo.

Os juros não são altos porque o Governo quer, evidentemente. Se um governo gasta, continuamente, mais do que arrecada, o desequilíbrio acaba se refletindo em algum indicador. O velho método do século XX era emitir moeda e, com isso, fazer frente aos pagamentos. Mas isso gera inflação que, desde a República de Weimar e de Hayek, se sabe provoca desequilíbrios que impedem o crescimento sustentável da economia, além de aumentar a desigualdade social, por se tratar, de certo modo, de um imposto aplicado sobre as camadas mais pobres.

A maioria dos economistas defende que os juros são a principal ferramenta no combate à inflação. Isso é um problema para países em que a relação dívida é alta em relação ao PIB. Ainda mais se a renda per capita for baixa. É esse exatamente o caso do Brasil. Ao mesmo tempo em que precisamos aumentar os juros para conter a inflação, ao aumentar juros, com o atual nível de gastos, provocamos aumentos na dívida pública, o que aumenta a desconfiança dos mercados, que passam a exigir juros cada vez maiores.

É nessa ciranda que o Governo Dilma parece ter se voltado a suas próprias ideias econômicas. Para ela e para o seu grupo de economistas, juros nos são impostos pelos “rentistas”, que colocam governos de joelhos para auferir ganhos com risco zero. Ainda segundo esse modo de ver as coisas, o desenvolvimento precisa ser “orientado” pelo Estado, por meio do aumento do crédito subsidiado e até mesmo da participação do Governo em empresas privadas. Esse grupo ainda acredita – inspirado nas teorias do moto-contínuo – que o descuido nos gastos públicos, se corretamente direcionado, provocará crescimento da economia que propiciará o retorno, para os cofres públicos, do dinheiro investido.

É um conjunto de ideias mal-ajambradas, talvez inspiradas pela má leitura de Stiglitz e Krugman, mas cujo teste já foi feito no Brasil e teve como resultado o terrível ano de 2015, é esse conjunto de ideias que está sendo recuperado. Não sei quais as consequências de dobrarmos essa aposta.

Nesse cenário de depressão econômica, incertezas políticas e com a volta da nova matriz econômica, não tenho dúvidas de que o melhor para o país seria termos um novo Governo com maioria parlamentar e apoio popular. Estou certo de que não vamos começar a melhorar com essas pessoas que nos representam. Nesta semana o STF deu o caminho para o impeachment. Ele é penoso, difícil, mas agora o reconheço por legítimo.

A anulação de alguns procedimentos adotados até o momento pela Câmara talvez nos permita que o trâmite do processo se dê quando os efeitos da operação lava-jato já se façam sentir, com o afastamento de Cunha, Renan e com o comprometimento de Temer. Estaremos em uma emboscada sem tamanho. E as soluções não estarão prontamente à vista. Para os que gostam de fortes emoções, 2016 promete. Infelizmente, olhando para o tabuleiro acima descrito, não é momento de se ter muita esperança no curto prazo. A crise continua e seguimos com força rumo à depressão econômica. Não se sabe quem será o Presidente no final de 2016, tampouco sabemos se esse presidente estará à altura dos desafios que o País tem pela frente.

O que se pode recomendar às pessoas é que exerçam sua cidadania, se informem das melhores maneiras possíveis, pois, como diziam os pensadores da escola de Frankfurt com sua dialética do esclarecimento, é o acesso à informação e ao conhecimento que nos levará ao caminho da liberdade. A boa democracia se faz com cidadãos participativos. Enquanto a situação não se resolve, faz-se necessário que nos informemos, acompanhemos e atuemos nessa crise. O problema não é só dos políticos e dos economistas. Cada contribuição nesse processo, indo às ruas – para que lado for – debatendo ou formulando pensamentos pode ser importante. O momento não é de recolhimento, mas de participação. Com educação e respeito pela opinião alheia. Mas com participação.

E o ano ainda não acabou.

Gustavo Theodoro

O Peso das Instituições

Eu não gosto do Governo Dilma. Acho que ela não terá capacidade – em especial liderança – para tirar o País da crise em que estamos. Houve estelionato eleitoral. Houve erros na condução da economia. Houve descontrole nas contas públicas. Parte da crise política é de responsabilidade do PT e do Governo Dilma. No entanto, o impeachment aceito por Cunha após o PT ter anunciado que iria aceitar a denúncia contra ele no Conselho de Ética torna todo o processo viciado. Há robustas provas contra Eduardo Cunha. Dinheiro da Lava-Jato e contas na Suíça. Tudo documentado.

Já crime de responsabilidade por descumprimento da Lei Orçamentária me parece pouco para o impeachment. Pela interpretação literal, até acredito que a Lei preveja o impeachment para esses casos. Ocorre que não é assim que os tribunais entendem a matéria. Há tolerância para isso em todos os Estados e Municípios. Precatórios não são pagos. Decisões judiciais não são cumpridas. Rombos são produzidos. E a pena para esses casos é, quando muito, a inelegibilidade. Ou seja, é correto condenar a Dilma a não se candidatar de novo? Sim. Mas impeachment por isso significa utilizar duas réguas diferentes para a mesma medida.

Se e quando comprovarem que a campanha dela recebeu dinheiro de corrupção, o TSE pode cassá-la. Nesse caso há precedentes. Governadores e Prefeitos já foram cassados por isso. Mas o TSE só cassa quando julga que há provas suficientes. Julgamento político iniciado por um poder cuja liderança está comprometida com base em matéria para a qual não há precedente fará mais mal do que bem a nossas instituições. Não deixemos nosso anseio por mudança da situação atual levar a um atraso ainda maior em nossas instituições.

O Diabo e o Bom Deus

Obama paz

Uma das melhores obras de Sartre, O Diabo e o Bom Deus, conta a história de um governante que se assemelha ao Diabo, praticando o mal a todo momento. No meio da peça há uma virada e o comportamento adotado passa a ser de fazer o bem a qualquer custo, independentemente do resultado de cada ação. É o princípio kantinano seguido à risca, com o olhar sempre no valor moral do ato em si, sem nenhuma conexão com seu resultado.

Escrito com muita inteligência, resta ao final a dúvida sobre quem afinal era Deus ou o Diabo, tal a quantidade de injustiças e vilanias praticadas. A lição que se tira é que se devemos nos precaver é com os bons, pois dos maus já sabemos o que esperar.

Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2009. Na campanha, prometeu acabar com a guerra do Iraque, fechar Guantánamo e estabelecer diálogo mesmo com países de reputação duvidosa. Sua eleição fez a festa dos que torcem para o bem. E despertou o ceticismo de quem já conheceu políticos com esse discurso.

Os EUA são, de várias maneiras, responsáveis pelo estado como se encontra a situação no Oriente Médio. Por diversas vezes esse grande país sem nome da América do Norte atuou para desestabilizar governos, apoiando rebeldes ou mantendo ditaduras. É incontável o número de grupos terroristas que já tiveram apoio dos EUA. A começar pelos sionistas, que explodiam bombas na palestina nos idos de 1947 em busca da formação de seu Estado, contrariando vontade da Grã-Bretanha.

Em 1979, com a revolução do Irã, até então parceiro americano, o Iraque passou a ser armado pelos EUA, o que incentivou o conflito Irã-Iraque. Detentor de um poderoso exército, em 1990 o Kuwait foi invadido por Saddam Hussein. Atacado por Bush pai, o exército iraquiano foi vencido, mas Saddam não foi derrubado. Os curdos do norte do Iraque iniciaram um movimento separatista que foi duramente reprimido por Saddam. Clinton bombardeou bases iraquianas para impedir os ataques aéreos aos curdos.

Bush filho pretendia terminar o trabalho do pai. O ambiente de guerra ao terror criado após a derrubada das torres gêmeas tornou possível novo ataque ao Iraque. Sob a alegação de posse de armas de destruição em massa – cujas provas foram forjadas pela CIA -, a segunda guerra do Iraque teve início e resultou na destruição total do país. Com isso, a frágil harmonia exibida entre sunitas e xiitas foi rompida. A guerra civil não foi escancarada enquanto os EUA estavam lá.

Mas Obama fez muitas promessas. Disse que iria fechar Guantánamo. Após sete anos, os prisioneiros seguem na prisão, sem direitos de prisioneiros de guerra e sem as garantias da constituição americana. Ninguém quer os prisioneiros. Mas levá-los para serem julgados pelas leis americanas pode fazer mal à popularidade interna de Obama. A Fox News gritaria: Obama traz terroristas para dentro dos EUA. Mas Obama prometeu. E o certo a se fazer é dar direitos aos prisioneiros. A popularidade do governo Obama parece estar acima de sua disposição, reiterada e propalada, de fazer o bem.

No Iraque, Obama prometeu tirar as tropas de lá. Chega de mortos (leia-se, chega de mortos americanos). As tropas foram para o Afeganistão, mas disso os defensores do bem não fingem não enxergar. A segunda guerra do Iraque já estava com popularidade semelhante à guerra do Vietnã. E então, depois de eleições forjadas e às pressas, os americanos saíram do Iraque.

No dia seguinte à retirada dos americanos, a maioria xiita e o primeiro-ministro iraquiano passaram a perseguir os sunitas, inclusive alguns com assento no Governo. Rebeldes sunitas começaram a aterrorizar cidades no norte do país. Os EUA não iriam mais se envolver com envio de tropas, mas deixaram o Governo do Iraque com os melhores tanques dos EUAs. E seguiu fornecendo armas para o fraco governo iraquiano.

Seguindo orientação de uma passagem do Alcorão, os rebeldes sunitas decretaram o nascimento de um Estado Islâmico. Com a conquista de algumas cidades, tanques e helicópteros americanos caíram nas mãos do ISIS.

A Síria é velho aliado da Rússia. Não é de hoje a relação difícil entre Síria e os EUA. Na chamada “primavera árabe”, a revolta popular chegou ao Governo de Bashar al-Assad. O Governo Obama viu a possibilidade de conquistar mais um aliado na região. E passou a armar os grupos rebeldes de origem sunita. Terroristas, membros da Al-Qaeda, qualquer um que se identificasse como oposição ao Governo da Síria, que de fato oprimia a população, poderia receber armas do Governo Obama.

Dois países vizinhos foram desestabilizados, Síria e Iraque. Ambos tiveram forte influência americana. Com a desestabilização da Síria, o grupo que se intitulou Estado Islâmico passou a avançar rumo ao território Sírio. Enquanto o Estado Islâmico ganhava força, cortava cabeças, estuprava e escravizava mulheres, Obama insistia em apoiar os rebeldes da Síria.

O “bem” é uma força tão mobilizadora que até Dilma interveio e defendeu que o Brasil deveria “estabelecer diálogo” com o Estado Islâmico. Pois entendam: as pessoas de bem conversam; as más gostam de guerra.

Evidente que a culpa dos atentados terroristas da França não é de Obama, nem da Dilma, que queria conversar com o Estado Islâmico. Mas é certo que o Estado Islâmico não existiria se Obama não estivesse tão empenhado em “fazer o bem”. Ou talvez seu principal interesse seja “dar a impressão” de que está fazendo o bem.

Enquanto isso os presos seguem em Guantánamo – porque é popular defender o fim de Guantánamo, mas não é popular soltar os prisioneiros nos EUA -; enquanto isso o Estado Islâmico ganha força, e Obama continua defendendo a existência de um governo “democrático” no Iraque (afinal ele saiu de lá, pois a guerra era impopular); enquanto isso Bashar al-Assad, que poderia combater o Estado Islâmico, continua sendo atacado por rebeldes apoiados pelos EUA. Moral da história? Tomem cuidado com os que só fazem o bem.

Gustavo Theodoro