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Da Revolução

foto O Pensador

Nunca fui extremista. Quando jovem, era moderado em meus alinhamentos políticos. Apesar de ter lido Marx e Engels na adolescência, nunca me vi como um revolucionário. Tive muitos amigos que queriam mudar a realidade com um só golpe, com uma revolução, com a tomada de poder. Talvez George Orwell e sua Revolução dos Bichos tenha me imunizado quanto à fé nas revoluções.

Lembro-me de uma conversa que tive há mais de vinte anos com um amigo historiador e marxista. Conversávamos sobre Hannah Arendt, que eu havia descoberto poucos anos antes. Ele me disse: “é uma pensadora muito interessante; mas não defende a revolução”. Achei interessante o adversativo inserido na frase. Para maioria dos marxistas do século passado – exceto os que seguiam a linha de Gramsci -, só a revolução seria capaz de construir uma nova sociedade.

Acredito que Hannah Arendt tornou-se reformista após a leitura de Tocqueville, grande estudioso das revoluções francesa e americana. Tocqueville é pensador de difícil enquadramento. Sobre ele já se disse que era demasiado liberal para o partido de onde ele provinha, não muito entusiasta por ideias novas aos olhos dos republicanos, ele não foi adotado nem pela direita nem pela esquerda; ele permaneceu suspeito a todos.

De fato. Edmund Burke, contemporâneo da Revolução Francesa, nos dá a imagem clássica do conservador. Kant não nos remete imediatamente à imagem de um liberal, mas acompanhava o desenrolar da revolução com muito interesse, torcendo pela “maioria silenciosa” que apoiava a revolução.

A leitura da obra de Tocqueville explica as razões da dificuldade de sua classificação. Crítico da democracia representativa (que produzia bons pais de família, mas poucos estadistas), parecia ser saudoso do regime aristocrático. Ao mesmo tempo, era forte defensor das liberdades fundamentais humanas, dentre as quais a liberdade de expressão. Era um analista que se dispunha a fazer o trabalho do historiador, buscar documentos originais e se inteirar verdadeiramente sobre um assunto antes de tomar uma posição.

Apesar de não ter sido contemporâneo da revolução francesa de 1789, foi um de seus maiores estudiosos. Ainda que conhecido por seu liberalismo, Tocqueville fez um julgamento histórico bastante crítico daquele fenômeno revolucionário (que ele expandiu para as demais revoluções).

O objetivo dos revolucionários franceses era construir algo totalmente novo. Para isso, era necessário exterminar – inclusive fisicamente – qualquer resquício do velho regime. A decapitação tornou-se marca da revolução. Os revolucionários assassinaram quase todos os que se relacionavam com o antigo regime, destruíram suas instituições, seus tribunais e o poder local. Terras da Igreja e do Estado foram confiscadas. Depois da terra arrasada, novo regime foi construído.

Para Tocqueville a revolução fez muito pouco dentro da própria França. Se é fato que o mundo absorveu os ideais da revolução francesa, que passou a ser um marco em nossa história, na própria França seus efeitos não teriam sido tão notáveis.

Ao recuperar documentos históricos, Tocqueville percebeu que todas as raízes da França pós-revolucionária tinham sido plantadas no velho regime. A liberdade de expressão, por exemplo, era maior no antigo regime do que sob Napoleão. Tocqueville concluiu, ainda, que o feudalismo praticamente não mais existia nos anos que antecederam a revolução. O poder central já dava as cartas, escolhendo administradores regionais e resolvendo as contendas judiciais. E os efeitos da reforma agrária teriam sido, na prática, muito inferiores do que o que se alardeou sobre o assunto.

Lembra ainda Tocqueville que, aos poucos, o antigo regime foi sendo reconstruído sob Napoleão e os Governos que lhe sucederam. Novo Imperador foi escolhido poucos anos depois da revolução. O poder do clero foi restituído. E boa parte das instituições presentes no antigo regime foram mantidas ou retomadas algum tempo depois. Para cada assunto – tribunais administrativos, poder central, clero, reforma agrária – Tocqueville faz questão de buscar os documentos do antigo regime para demonstrar que pouco avanço se percebeu depois de meio século da revolução.

Se Tocqueville estiver correto em seu julgamento histórico, podemos dar um passo adiante e arriscar que, talvez, a utilização adequada de nossa liberdade de expressão tenha potencialmente maior poder de destruição e construção do que o uso da guilhotina. Por mais que a substituição de governos seja considerada símbolo de mudança, são homens e ideias que acabam por construir algo novo, independentemente de ter havido ou não uma revolução.

A revolução americana se deu com muito pouco sangue derramado, mas ela foi liderada por grandes estadistas que se apoiaram em ideias existentes no momento, quase no mesmo período da revolução francesa. Sem as ideias de liberdade e igualdade que corriam o mundo no momento, uma nação como os EUA não teria sido fundada naquelas bases.

Sim, sem os homens que se dispõe a agir nada se constrói. Mas é de se notar que qualquer tirania que se prese inicia-se não com a prisão dos homens de ação, mas com o cerceamento à liberdade de expressão. Os humoristas, em geral, são os primeiros a serem censurados, pois o riso destrói a autoridade. Depois são os críticos e os analistas. Por último, até as notícias são mutiladas. Ideias movem o mundo e podem fazer mais do que revoluções. Por pensar dessa forma, considero-me um reformista que, por não estar disposto a abandonar minhas convicções, por vezes acabo sendo tratado por radical. E o risco de dar opinião é evidente. Deve ser por isso que Schopenhauer disse que “o verdadeiro filósofo vive perigosa, mas livremente”. Pois é o filósofo, que só pensa, que acaba sendo o artífice da construção de um novo mundo.

Gustavo Theodoro

O Partido e o Inteiro

MALUF5/HADDAD/SAO PAULO/SP 18/06/2012 NACIONAL/OE.Na foto encontro entre o deputado Federal Paulo Maluf(PP)e o pré candidato a prefeitura de São Paulo Fernando Haddad(PT) e o ex-presidente da República Luiz Inacio Lula da Silva ,na residencia do deputado Paulo Maluf onde Haddad e Lula receberam apoio do deputado a candidatura de Fernando Haddad a prefeitura de São Paulo.FOTO EPITACIO PESSOA/AE

Partidos políticos devem se relacionar a um conjunto identificável de ideias bem definidas, representando, assim, uma parcela (parte) da sociedade, que se entende essencialmente partida. O bipartidarismo americano não me entusiasma nem um pouco, visto que a humanidade costuma ser muito complexa para ser dividida em apenas dois conjuntos de ideias. Ao mesmo tempo, as dezenas de partidos existentes no Brasil revelam situação indesejável em que não é sequer possível divisar, na grande maioria dos casos, o que diferencia cada legenda.

É indispensável fazer menção à excelente série dinamarquesa Borgen, que retrata os bastidores da política e da cobertura da imprensa naquele país. É necessário prevenir que assistir à série pode provocar profundo desânimo quanto à política brasileira. Apesar de a política ser atividade excessivamente dependente da imagem, em que características indefiníveis como o carisma se fazem necessárias, os episódios evidenciam como ainda é possível dialogar e estabelecer acordos desde que a identificação de cada partido seja bem-feita.

Segundo o seriado, a política dinamarquesa era composta por cinco partido políticos: os liberais (a favor da liberdade econômica e da redução do estado de bem estar social), os trabalhistas (herdeiros dos socialistas, alinhados com o trabalhismo sindical), a nova direita (muito comum na Europa, partido voltado à tradição, aos valores do país, sendo, essencialmente, xenófobo), os verdes (que não demandam maiores explicações) e os moderados (partido de centro, com tendências liberais na economia, mas socialdemocrata quanto às obrigações do Estado).

Em um regime parlamentarista, após as eleições, caso nenhum dos partidos tenha ocupado a maioria das cadeiras no parlamento, é necessário que o partido mais votado busque fazer alianças de modo a alcançar a maioria. Essa combinação política exige flexibilidade dos partidos ao mesmo tempo em que seus líderes tentam manter a coerência programática. Esse arranjo faz com que todos os partidos que participam da coalizão que conduz o governo tenham responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso. Além disso, o líder fraco ou incompetente pode ter seu mandato abreviado sem que isso represente algum tipo de trauma para o país.

As vantagens desse sistema político são notáveis e exige que cada partido busque se diferenciar para buscar seu espaço no parlamento. E os partidos acabam, de fato, representando uma parcela da sociedade, sendo que sua representatividade depende, essencialmente, da abrangência de suas ideias entre a população. Havendo clara identificação de seu programa, não seria admitido a um partido, como vemos aqui no Brasil, rasgar seu programa de governo para adotar o do adversário. Tampouco veríamos a oposição votar contra suas próprias criações unicamente para fustigar o governo de plantão.

Já me manifestei aqui contra o financiamento público de campanha. Sou a favor do financiamento privado das campanhas e dos partidos sob pena de o sistema político se transformar em uma sinecura, em um cabide de empregos sustentado por dinheiro público. Sim, pois o que sustenta a miríade de partidos políticos brasileiros são, basicamente, tempo de televisão pago pelo Estado e Fundo Partidário. Com esses recursos, surgiu a figura do dono de partido, que negocia dinheiro público recebido gratuitamente.

Como não há possibilidade de se terem programas diferentes para o número de partidos existente no Brasil, nossas legendas acabam não representando, efetivamente, ninguém. Cada um vota na pessoa que melhor se apresenta, cuja eleição – para o legislativo – depende de complexas coalizões partidárias e cálculo do incognoscível quociente eleitoral. Nesse sistema é reduzido o compromisso do congressista eleito com seu partido, talvez menor ainda é seu compromisso com o eleitor, impossível de ser identificado nas coalizões. Se os pequenos partidos têm a cara do dono, os médios são indistinguíveis (tais como PTB, PL, PP e PRB) e os grandes fazem o possível para esconder eventuais ideologias (como PT, PSDB e PMDB).

Em artigo anterior, já defendi qual seria minha panaceia para a reforma política: fim do voto obrigatório, ajuste na proporcionalidade da Câmara Federal, fim do horário eleitoral gratuito e do fundo partidário e fim das coligações em eleições proporcionais. Estamos ainda muito longe disso. Sempre que se discute reforma política esses temas não são sequer mencionados (muito pelo contrário, já que o Congresso aprovou aumento do Fundo Partidário). Mas não me custa voltar à defesa de um sistema partidário mais enxuto. E ele começa pelo fim do interesse dos políticos nos recursos e no tempo de televisão que acompanham a fundação de um novo partido. Com os incentivos vigentes, não chega a ser surpreendente que nosso sistema seja tão fragmentado e tão pouco aderente às divisões da sociedade; e que seja cada vez mais comum ouvirmos o bordão: “esses políticos não me representam”. E não representam mesmo.

Gustavo Theodoro

Em Que Creem Os Que Não Creem

fe e razão

Há poucos anos foi publicado um livro contendo uma troca de cartas entre Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini. Apesar do título, o livro poucas vezes enfrentou o assunto que o sugestivo título anunciava. A pergunta parecia ambiciosa, mas a forma como foi construída induzia o incauto a colocar suas crenças na balança antes de pensar se é mesmo necessário tê-las.

Para muitos, é difícil habitar nosso mundo. O aforismo de Arquíloco, já citado por mim, vem mais uma vez à minha lembrança:  a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. É difícil habitar o mundo pois ele parece estar cheio de raposas, com seu conhecimento plural e pouco profundo, o que os faz ficar cheios de certezas. É nesse cenário que os fundamentalistas religiosos e os igualmente fundamentalistas ateus nos perturbam com todas as suas certezas, considerando os demais uns párias cujo futuro os levará às trevas, ou uns crentes, com dificuldade de reconhecer a fé, ou uns covardes, pois o agnosticismo revelaria a falta de coragem de assumir o ateísmo.

Por mais que o racionalismo iluminista tenha aparentemente vencido a batalha das ideias, o recente renascimento dos fundamentalismos indica que o espírito de uma época nem sempre tem relação com o pensamento de intelectuais e cientistas. Se muitas vezes há sintonia, parece se tratar de pura coincidência.

Para Platão, a religião era um importante instrumento de controle social. É fato que as religiões sempre exerceram esse papel. O Gênesis e outros livros do Velho Testamento se preocuparam em estabelecer códigos de conduta. Roma trouxe o cristianismo para o centro do império também em razão de sua capacidade de controlar a sociedade. Marx posteriormente realçou esse aspecto da religião – tratando-as por ópio do povo – para extirpá-la da futura e utópica sociedade de iguais.

Além disso, nas monarquias sempre foi necessário o respaldo de alguma autoridade superior. Os Reis romanos encontravam sua autoridade no mito da fundação da cidade e na tradição democrática grega, que supriu, por algum tempo, a falta de uma religião que apresentasse uma cosmogonia e um código de valores aceitável. Com a decadência do império romano, a Igreja foi chamada a suprir a ausência de uma autoridade laica bem definida. Não que a Igreja houvesse se oferecido para ocupar esse lugar. Mas o fato é que era a única instituição estável em condições de substituir, em autoridade e estrutura, o papel de regente da sociedade.

O avanço científico dos tempos do Iluminismo aliado à formação dos Estados-Nação – cujo poder passou a ser derivado de contratos sociais e não mais da autoridade herdada ou religiosa – solaparam as bases da religião. É a escola da dúvida que nos levou aos tempos modernos. Mas o ser humano pouco mudou. Mudaram foram as condições de vida.

Na idade média, raramente alguém conseguia fugir da vida que lhe era destinada. Gerações nasciam e morriam nas mesmas terras, nas mesmas condições de seus pais e avôs. A vida era dura, sem perspectivas, e a religião cumpria o papel de dar algum sentido àquela existência sofrida. Ainda que a recompensa só viesse após a morte.

A glorificação do trabalho, a preponderância do lazer, a urgência do consumismo e a idealização do humano hedonista pareciam indicar que havíamos chegado ao admirável mundo novo. Um mundo sem dores, com trabalho em doses recomendadas, mas sempre repleto de aventura e entretenimento, com vasto espaço para diversões e com remédios para tratar da melancolia humana, parecíamos caminhar para um mundo ideal (será?).

Interessante observar como a história dos mitos e religiões sempre oscila entre retratar a vida como um momento a ser conservado e a morte, uma ocasião temida (como no mito de Hades, por exemplo) ou ao contrário, como inaugurado por Platão, no mito da Caverna, em que é a vida real é que é mal percebida e mal vivida, enquanto no mundo das ideias a verdade é encontrada. Por influência de Platão, tanto o Islã quanto o Cristianismo tendem a considerar a “vida após a morte” aquela quer realmente vale a pena ser vivida.

Na época da conquista de liberdades dos loucos anos 1960 e 1970, não surpreende que religiões com essa narrativa tenham perdido espaço. A urgência de vida, o hedonismo e o desapego entrou em moda. A geração seguinte, dos yuppies, foi muito mais materialista, voltou-se ao enriquecimento, ao consumo, ao lazer, mas foi fortemente influenciada pelas gerações que a precederam.

Os que abandonaram as religiões tradicionais tornaram a religião da força superior muito influente. “Você acredita em Deus? Não, mas acredito em uma força superior.” Era uma religião que não exigia nada, nem cerimônias nem condutas. De certa forma, ela atendeu bem tanto aos libertários dos anos 1970 (com seu panteísmo) como aos yuppies dos anos 1990 (com seu niilismo).

Não se sabe ao certo a razão pela qual nossos contemporâneos têm se voltado ao fundamentalismo. Não se trata de pequena onda. Nem mesmo exclusiva de países periféricos. O Islã é a religião que mais cresce no mundo. E sua vertente radical atrai adeptos de todo mundo para o Estado Islâmico. Sinal de que as ofertas de nossa sociedade não fizeram o humano prescindir da religião. Ou de que o fim das ideologias – que supriam sua ausência – nos trouxe de volta à essa necessidade. Ou talvez que esse mundo perfeito, idealizado, hedonista e consumista seja exageradamente superficial, despertando em alguns a sede por algo mais.

Bom, tal como no diálogo entre Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, eu tratei de rodear a questão sem abordar especificamente o tema e, principalmente, sem responder à questão proposta. Mas o fato é que a questão não pode ser resolvida sem um pouco de metafísica. Volto a ela em breve. E você, crê em algo? Ou, antes, é mesmo necessário crer em algo?

Gustavo Theodoro

O País da Perplexidade

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Não tem sido fácil entender o País. Atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff contam com faixas em defesa de Eduardo Cunha. Manifestação de apoio à manutenção do Governo Dilma faz duras críticas à condução de seu Governo, em especial com relação à área comandada por Joaquim Levy. PSDB faz união estratégica com Cunha em um movimento contra a corrupção (se é que entendi bem). Renan Calheiros, ele mesmo, propõe uma “Agenda Brasil”, com intuito de dar sobrevida ao Governo Dilma. Michel Temer, o Vice-Presidente, disse que o Brasil precisa de alguém com capacidade de “reunificar o Brasil” (estaria pensando nele mesmo?).

Brasileiros com camisa da CBF marcham contra a corrupção. Alguém sabe o que se passa na CBF? Dizem que na ditadura não havia acordo com empreiteiras e que as obras terminavam. Alguém se lembra da ferrovia do aço? E de Angra 3, cujos escândalos duram décadas?

O PSDB votou contra o fator previdenciário criado em seu Governo. Justo quando pirâmide populacional parecia indicar que nova reforma era necessária, mas desta vez para aumentar a idade mínima para aposentadoria. Apesar de ser a favor da responsabilidade fiscal, negou apoio à política de ajuste fiscal. Já os parlamentares do PT têm se rebelado com frequência e votado contra seu próprio Governo. Ao mesmo tempo, evitam condenar o ex-Ministro José Dirceu, preso novamente por receber “pixulecos”.

Sim. Petistas até hoje negam a existência do mensalão. Alguns até admitem que ele existiu, mas que ele era mais barato do que dar ministérios para o PMDB. Pode ser. Mas será que vale a pena ganhar o poder para rasgar seu programa? Sim, pois se bem nos lembrarmos, a primeira traição foi a Carta ao Povo Brasileiro. Pelo menos ali não foi cometido estelionato eleitoral. Os petistas de carteirinha – convivi com eles – nunca acreditaram na carta. Eis que foi cumprida. Para ter maiorias, compraram deputados. Descoberto o esquema, entregaram as Estatais e parte dos Ministérios aos aliados como o PMDB, o PP e o PL. Ministérios de “porteira fechada”, como se diz. Para ganhar eleições, precisava arrecadar dinheiro público que transitava pelas empreiteiras. Assim foram presos dois tesoureiros do PT: Delúbio Soares (já condenado) e João Vaccari Neto (em prisão preventiva).

Quase dois bilhões de reais foram ou estão para ser devolvidos aos cofres públicos. Trata-se, provavelmente, do maior esquema de corrupção do mundo. O que não se entende é quem ainda defenda esse Governo: “ah, mas tem os programas sociais”; “ah, mas se eles não estivessem lá estaria o PSDB”. É esse o nível da argumentação. Estamos completando o primeiro ano de estelionato eleitoral. As profecias dos pessimistas estão todas se realizando. Dois anos de recessão (pelo menos). Aumento do desemprego. Diminuição da renda. É provável que venhamos a devolver boa parte do que ganhamos nos últimos tempos. Nesse momento, emerge meu lado idealista: vale a pena manter o poder a qualquer custo, mesmo comprando parlamentares, entregando ministérios com porteira fechada, roubando dinheiro público para financiar campanhas (mas também para benefício pessoal dos envolvidos) e mentindo descaradamente? Pois eu acho que não. O renascimento da direita está aí para demonstrar. O PT está acabando não só com seu partido, mas também com as esperanças normalmente emuladas pela esquerda.

Lembremo-nos de Leonard Blum, grande líder socialista francês, que evitou alianças com comunistas e segurou o partido dentro de seu programa. Pragmatismo não era com ele. Em cinquenta anos de liderança do partido socialista, em apenas um esteve conduzindo o Governo. Era um partido respeitado justamente por respeitar seu programa e conviver bem com o tamanho de seu eleitorado. Mitterrand e seu pragmatismo assumiram o poder a diminuíram o tamanho da esquerda francesa. Nas próximas eleições é provável que se tenha Sarcozy (liberal) contra Jean-Marie Le Pen (ultradireita). Valeu a pena?

Enquanto isso, aqui no Brasil, somos obrigados a ouvir o Senador do PMDB, Romero Jucá, dizer que não há demérito nenhum em ser denunciado. E Dilma fazer discursos sobre a mandioca e “mulheres sapiens”. E que não vai cortar recursos de programas sociais (mas já cortou). E o PSDB lançar uma frente em defesa da ética e tirar foto ao lado de Eduardo Cunha, o “guerreiro do povo brasileiro”, segundo coro proclamado pela turma do Paulinho da Força.

Bom, pelo menos parece que o Canadá está com política de incentivos à imigração. Nem tudo está perdido.

Gustavo Theodoro

Sobre as Manifestações

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O exercício da democracia compreende manifestações de rua. Desde o início do ano, testemunhamos algumas manifestações contra o Governo Dilma e o PT. A manifestação de hoje parece ser menor do que as anteriores. Não é difícil entender os motivos.

Desde o início, os movimentos que convocaram a manifestação dão claros sinais de independência dos partidos políticos. De certo modo, isso é reflexo da baixa popularidade dos políticos, e também da política, para parte dos brasileiros. No entanto, esse distanciamento da política, com o tempo, acabou por desidratar o movimento com o tempo. Pois, se acreditamos na democracia, em reformas, e não em revoluções, a política é o único caminho para qualquer tipo de transformação social.

Movimentos populares dessas características têm sido observado em diversos países do mundo. A chamada primavera árabe derrubou algumas antigas ditaduras, mas, em regra, outras foram instaladas em substituição. Na Espanha, o movimento dos Indignados acabou se legitimando por meio da formação do Podemos, partido que passou a influenciar os rumos da política espanhola. Nem seria necessário lembrar do Syriza, fruto do acordo de vários partidos de esquerda, que só foi constituído como partido em 2012 e foi guindado ao poder esse ano em razão da intensidade e da duração da crise grega. Em março deste ano, era possível imaginar um cenário semelhante ocorrendo aqui no Brasil. Mas não foi o que se viu, mesmo com a queda da popularidade do Governo e com a crise política e econômica se agravando.

É necessário ressaltar que tanto o Podemos como o Syriza faziam forte oposição ao ideário do ajuste fiscal. Há muitos bons economistas que defendem linhas alternativas como formas de lidar com a crise daqueles países. O conjunto de ideias que representavam receberam forte apoio popular. Novas lideranças se expuseram ao grande público e conquistaram votos. Na Espanha dirigem algumas cidades e influenciam o parlamento. Na Grécia, foi possível formar um Governo a partir desses movimentos.

Aqui no Brasil, percebe-se algum esvaziamento desses movimentos de rua. Não se vê partido constituído se aproveitando deles. Não se vê, dentre seus líderes, qualquer deles em condições de transformar esse movimento em um conjunto organizado de ideias que possa congregar o sonho das pessoas. “Fora Dilma” e “Fora PT” são slogan fortes como era o “Fora FHC”. Mas eles por si sós constroem muito pouco.

Contra a corrupção todos somos. É certo que a Lava Jato talvez seja um dos maiores escândalos de corrupção do mundo. As cifras devolvidas por alguns operadores são assustadoras (mais de R$ 1 bilhão de reais negociados para devolução pelos delatores). Mas ser contra a corrupção não necessariamente constrói alternativas.

Parece certo agora que o Governo Collor desviou muito menos do que o atual. Mas naquele momento parecia que a alternativa ao Collor era um Brasil melhor. Hoje, ao constatar que Michel Temer é o Vice-Presidente, Renan Calheiro é o Presidente do Senado e Eduardo Cunha é o Presidente da Câmara, a animação dos participantes dessas marchas tende mesmo a diminuir. O movimento contra a corrupção e contra o PT parece que não é mais suficiente mostrar o caminho da esperança e que vale a pena o esforço para abreviar esse mandato.

Além disso, a situação econômica é terrível. Parece que estamos perto da tempestade perfeita aludida por Delfim Neto: inflação alta, emprego e renda em queda, investimento em baixa, esgotamento do “choque de demanda”, desindustrialização, desequilíbrio fiscal, recessão. Não há boa notícia na área econômica. Assim, é possível que o Governo Dilma devolva todos os ganhos de renda – e talvez de queda da desigualdade – do Governo Lula.

Sim, teremos motivos para atribuir a seu Governo uma herança maldita. É evidente que, para o País, seria melhor que tivéssemos um governo forte com uma substancial base de apoio. Pois o segundo Governo Lula e, em especial, o primeiro Governo Dilma aceleraram a necessidade de algumas reformas estruturais que tememos fazer. Pois não só os impostos são regressivos. A distribuição de gastos governamentais também é regressiva. E exagerada. Com a mudança a distribuição etária da população, é certo que não será possível manter o atual regime de previdência, a universalização da saúde, o ensino superior gratuito, dentre outros. Mas esse debate não vai dar as caras com esse governo fraco.

Não há, nos atuais movimentos, quem se arrisque a ir além da agenda de rejeição à corrupção e ao PT. Se isso não ocorrer, não se verá, de fato, a tentativa de construção de algo novo. Rejeitar a política e os políticos é o melhor caminho para o surgimento de arrivistas. De alguma forma, a redução do movimento de rua reflete esse momento. Eu não critico que vai às ruas. É uma maneira das mais legítimas de se praticar a democracia. Mas algo me diz que esse tipo de movimento se aproxima de seu esgotamento.

Gustavo Theodoro

Tempos Modernos

Um vídeo produzido por um grupo de fãs do Foo Fighters da cidade de Cesena, na Itália, correu o mundo. Cerca de 1000 músicos tocaram ao mesmo tempo a música Learn To Fly. A performance pode ser conferida no link abaixo:

O vídeo levou um ano para ser produzido. Os músicos ensaiaram diariamente por todo esse período. Ninguém recebeu salário para participar dele. O fato de terem conseguido reforça a tese bastante contemporânea de que estamos muito longe de sermos tratados unicamente pelo viés econômico (homo economicus). Tampouco parece adequado que sejamos tratados como seres movidos a estímulos.

Vejam que, para a produção do vídeo, a participação foi voluntária. Cada um contribuiu da maneira que entendia melhor: tocando um instrumento, cuidando da gravação e da edição, ou mesmo da divulgação do clipe. E mesmo assim, sem cobranças de horários, sem controle de atividades, sem prêmio de produtividade, sem chefes. Como isso foi possível?

Lembro-me da história de um chefe que produzia o pior ambiente organizacional possível. Eram cobranças injustificadas, excessos de controles e tudo o mais que caracteriza a velha gerência. Em sua defesa, ele dizia não fazer o estilo de chefe “pop star”, ressaltando o caráter negativo da expressão. Como será que um gestor nessa fase (atrasada) do desenvolvimento explicaria a disciplina, o empenho e a dedicação dessas pessoas para produzir esse belo resultado?

Pois a ciência moderna tem buscado explicações. O ser humano busca significado para o que faz. Mas isso ainda é vago. Há autores – em especial Daniel Pink – que defendem a importância de, pelo menos, três elementos que atuariam diretamente na motivação e propiciariam a conclusão dos projetos: a autonomia, a excelência e o propósito.

Autonomia não se confunde com liberdade para fazer o que se quer. Não se trata disso. É conceito é razoavelmente complexo, mas pode ser encarado com dar as pessoas algumas liberdades que a gestão do século XX não admitia, não necessariamente em conjunto:  liberdade de horário, para que o tempo seja gerido da maneira mais conveniente a cada um; concessão de espaço para modificar processos, visando atingir os objetivos da instituição; abertura de canais de comunicação e ampliação da estrutura de decisão, de modo a envolver mais pessoas, dentre outros.

A busca pela excelência é um dos motores da motivação. Tentar ser bom em alguma atividade, lutar para fazer algo de suas melhores características, isso pode levar alguém a gastar horas na frente de um piano, praticando uma modalidade esportiva ou estudando um assunto complexo e, aparentemente, inútil. E isso pode ser visto na gravação do vídeo dos músicos de Cesena, pois o trabalho ficou exemplar.

Não é só em laboratório e pesquisas controladas que essas teses funcionam. Muito daquilo com que convivemos hoje partiu de motivação gerada não por remuneração formal ou por sistemas de chefias hierárquicos. A enciclopédia Wikipedia, sistemas como o Linux, os servidores Apache, tudo isso só existe graças a força dessa motivação que a ciência contemporânea começou a identificar.

No entanto, mesmo nos países desenvolvidos é difícil vencer a crença nas ideias de Taylor, na obsessão pelo controle ou, um mal mais atual, a febre dos indicadores e da premiação por resultado. Eu sei que é contra intuitivo pensar que dar um propósito para um funcionário pode ser mais importante do que pagar um prêmio por uma meta. Que dar autonomia por dar mais resultados do que prometer um aumento no final do ano. Não que dinheiro não seja importante. Ele sempre será. Mas para problemas complexos, o incentivo financeiro pode até atrapalhar.

As lições que recebemos diariamente não podem nos passar incólumes. Revejam o vídeo. É possível que se o governo brasileiro obtivesse o mesmo resultado se criasse uma estatal e investisse alguns milhões de reais em um projeto como esse? Não é difícil supor que a qualidade do vídeo produzido pela FooFightersBras não alcançaria a dos fãs da banda. Trazer esses elementos para qualquer organização nunca é tarefa fácil. O que não se pode é deixar de tentar e continuar fazendo o que sempre foi feito. Pois esse é o caminho certo para a falência das empresas privadas e da ineficiência das organizações públicas. Vamos aprender a voar?

Gustavo Theodoro

Pensamento Como Fenômeno Local

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Assistimos nas últimas décadas a uma acirrada polarização do debate econômico. Duas correntes acabaram predominando: uma, centrada em valores liberais, privilegia ideias propagadas a partir do chamado Consenso de Washington; outra, de contornos desenvolvimentistas, acredita na participação do Estado na função do ordenamento da economia e privilegia, por exemplo, o emprego e a renda sobre a inflação e o equilíbrio fiscal.

Esse debate é, de certa forma, requentado, pois a história do pensamento econômico já nos revelou, no século passado, eminentes pensadores com as mesmas sérias divergências de enfoques e de prioridades.

Friedrich Hayek, grande economista austríaco, alcançou destaque mundial por suas ideias combatendo o planejamento da economia. Seu principal alvo, depois de reconhecido, passou a ser o regime soviético. Hayek testemunhou a ascensão do fascismo nos anos 1930 e se convenceu de que, independentemente da existência do comunismo, o planejamento concentrava poderes e terminava por arruinar a democracia.

Apesar de ser tido como representante do liberalismo e um dos fundadores do neoliberalismo, Hayek raramente utilizava argumentos econômicos para combater o planejamento e as economias centralizadas. Constantemente seus escritos abordavam o planejamento para, a seguir, tratar de seu resultado: o autoritarismo.

John Maynard Keynes já era admirado na universidade, pois era pessoa de notável brilho pessoal e de inteligência vibrante. Mesmo antes de publicar a sua principal obra, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, em 1936, já tinha alcançado sucesso com os seus Um Tratado Sobre a Probabilidade e Um Tratado Sobre a Moeda.

No pós-guerra, Keynes foi o economista mais influente do mundo e dominou o cenário econômico até os anos 1970, quando Thatcher adotou Hayek e o partido republicano adotou as ideias de Milton Friedman.

Interessante observar que Keynes, que testemunhou o crash de 1929 na Inglaterra, sempre deu destaque ao emprego em sua teoria econômica. Já Hayek, que testemunhou o processo de hiperinflação alemã, realçava o controle da inflação em sua abordagem econômica.

Um velho professor de história ensinava que geografia trata de clima, vegetação e mapas, enquanto a história trata de pessoas. No entanto, é notável como a vivência de cada um influencia até mesmo a produção acadêmica de grandes pensadores.

Não se sabe até que ponto a geografia influenciou o pensamento econômico de Keynes ou de Hayek. Mas é certo que, no local e no tempo onde o emprego era o maior dos problemas, foi formado o economista que é um dos preferidos de toda a esquerda mundial em sua ênfase no combate ao desemprego. Do mesmo modo, a parte do mundo que conviveu com o fenômeno da hiperinflação e com o nascimento de regimes autoritários produziu um economista extremamente libertário que influenciou Thatcher, Reagan e, de certa forma, até hoje influencia a direita do mundo (o debate do partido republicano revela bem a força de suas ideias, com a aversão aos controles estatais e a ênfase ao controle da inflação).

Muitas vezes nos julgamos únicos donos de nossos próprios pensamentos. Mas é útil que nos questionemos o quanto somos influenciados pelo ambiente que nos cerca. Talvez assim possamos, quem sabe, superar algumas das limitações geográficas que se instalaram em nosso cérebro.

Gustavo Theodoro

Economia de Educação

Educação em Economia

As notícias da economia indicam agravamento da crise brasileira. O ajuste fiscal pretendido pelo Ministro Levy – que para muitos era insuficiente – corre o risco de não ser alcançado neste ano. Além disso, o momento não foi aproveitado para discussão do caminho que temos percorrido. Há assuntos orçamentários importantes que foram tratados à maneira brasileira, com cortes disfarçados, sem a precedência do debate necessário.

Na verdade, há programas que foram iniciados sem maiores discussões sobre sua pertinência. Em 2011, o Brasil gastava cerca de 19% do PIB com educação, enquanto os países da OCDE gastavam, em média, 13%. Apesar disso, no primeiro Governo Dilma houve sensível incremento no número de alunos incluído nos programa Prouni, que permite que alunos sem recursos frequentem, com subsídio federal, faculdades privadas.

Ocorre que, apesar do alto comprometimento do PIB, o gasto por aluno acaba sendo inferior ao de outros países. Isso porque parte considerável do gasto é destinada ao nível superior, que ainda é frequentada por uma pequena elite. Nunca é demais lembrar que só 10% da população brasileira têm nível superior, enquanto o Chile apresenta taxa de 35%. Ou seja, todos esses anos de forte campanha publicitária em torno do incremento dos gastos em educação pouco modificou o cenário do nível superior. Eu sei que fomos bombardeados nos últimos anos com muitas informações (propaganda) sobre Prouni, Reuni e Fies, mas o fato é que isso tudo pouco contribuiu para nos tirar das últimas posições em gasto por aluno (somos penúltimos comparados à OCDE).

Sem um forte redirecionamento de recursos para os níveis fundamental e médio, com melhoria na taxa de repetência e nas taxas de aprendizado das crianças, os investimentos em educação superior são, quase sempre, desperdiçados. A progressão continuada pode até melhorar os indicadores de repetência, mas nunca dará boa leitura a um aluno do 9º ano se a progressão não for acompanhada de medidas suplementares, como aulas de reforço e a introdução do segundo professor em sala de aula. Para isso, são necessários mais recursos, mas nosso gasto com educação já é muito alto, mesmo se comparado aos demais países da OCDE.

Isso nos coloca diante da necessidade de se rediscutir os gastos em educação superior. Se já é questionável a destinação de imensas quantias às universidades públicas, o que se dirá de programas como o Prouni, que destina escassos recursos a universidades privadas de qualidade duvidosa? Sim, é de se reconhecer que o aluno que recebe o benefício se sente gratificado. Mas é preocupante saber que o recurso do Prouni financia o estudo de alunos de nível superior em cursos mal avaliados pelo MEC.

Um país que já despendia considerável parte de seu orçamento para financiar o ensino superior com as universidades públicas optou por investir ainda mais recursos nesse setor que já era razoavelmente bem assistido. Os gastos com o Prouni e, principalmente, com o Fies, dispararam no último ano do Governo Dilma. Mesmo assim, o crescimento de matrículas no nível superior durante o Governo Dilma foi similar ao do Governo FHC, comparação que o petismo costuma gostar de fazer (algo em torno de 6% ao ano). O gasto com o Fies chegou perto de R$ 10 bilhões em 2014. Foi subitamente cortado em 2015. O gasto desse programa não foi discutido com a sociedade brasileira ao ser implantado e tampouco seu corte está sendo discutido agora. Um país com democracia madura dificilmente deixaria de dar atenção a um debate orçamentário dessa natureza.

E assim os cortes são feitos, sem muitos critérios, com o único objetivo de se atingir uma meta que parece cada dia mais distante. A Congresso Nacional, infelizmente, pouco tem contribuído para elevação do nível das discussões. Apesar da aceleração do ritmo das votações, o parlamento se comporta de forma autista, como se não tivesse qualquer responsabilidade sobre os gastos públicos. Além disso, a pauta conservadora parece ter dado as caras justamente quando assuntos orçamentários essenciais eram demandados.

Educação é prioridade. Dilma adotou o slogan Pátria Educadora (slogan da pior qualidade, por sinal). Mas não parece nem um pouco interessada no assunto. Sem educação de qualidade não conseguimos ganhos em produtividade. Sem ganhos em produtividade, a economia não cresce. Para surpresa de muitos, gosto de revelar que economia não se faz apenas com juros e superávits primários. A discussão da qualidade do gasto público, em regra, costuma ser muito mais importante do que o mero número do déficit nominal. Pois déficit acima de 3% com alta taxa de investimento pode ser melhor do que déficit em 3% com investimento baixo (como o Brasil apresentou no segundo Governo Lula). Só no Governo Dilma atingimos a proeza de combinar baixa taxa de investimento com déficit primário.

Obviamente, o momento não é bom para discutirmos nosso futuro. Há uma crise política de grandes proporções em andamento, a operação lava-jato permeia o mundo político, as maiores empreiteiras do país estão com sérios problemas na justiça e a avaliação do Governo nunca foi tão baixa. Mas é bom que não percamos de vista os assuntos essenciais para o país. E a educação fundamental e média é um desses assuntos. E não parece ser possível resolver essa equação sem discussão do nosso modelo de educação superior.

Gustavo Theodoro

Phoenix

Phoenix

Não é tarefa fácil definir o que nos individualiza. Seríamos nós o que somos se não fôssemos vistos pelos outros? Ou, reformulando, será que nossa vida interior, as experiências e traumas por que passamos são exalados em nosso comportamento público, na forma como nos mostramos para outras pessoas?

Para nos ajudar a desenvolver essas questões, o novo filme de Christian Petzold, Phoenix, é imperdível. Nele, a personagem de Nina Hoss é levada à Auschwitz. Volta com o rosto desfigurado – talvez não só o rosto -, mas sobrevive ao campo. Após algumas cirurgias plásticas, retorna à caótica e dividida Alemanha do pós-Guerra. Seu marido não a reconhece. Mas, por achá-la parecida com sua mulher, propõe que a sobrevivente se passe por ela para que possam receber uma herança.

Nesse ponto começam as reflexões sobre o que nos faz nós mesmos. Em Memento, o personagem central da trama não guarda novas memórias. Talvez por perceber que ninguém pode viver assim, ele cria um roteiro para si próprio, dando um sentido para sua vida. Para ele, nós somos, essencialmente, nossas memórias.

Nossa personagem de Phoenix tem desafio um pouco diferente: ela precisa convencer o marido de que pode se passar por ela mesma. Mas, o que faz dela ela? Será o jeito de andar? Teria ele se modificado em razão das agudas experiências de vida por que passou? Será que uma experiência dessas pode alterar a personalidade a ponto nos tornarmos fisicamente irreconhecíveis?

São essas as questões que o filme propõe. Ninguém esperava respostas a questões tão abertas, evidentemente. Mas o filme é conduzido de forma perturbadora e tem um final de beleza ímpar. Propõe inicialmente a reflexão, mas com o tempo somos simplesmente levados pelo filme a seu clímax, que não decepciona.

Phoenix estreou nos pequenos cinemas de arte das grandes cidades neste final de semana. Se você tem acesso a ele e gostou das questões que ele propõe, não deixe de conferir. Não será tempo desperdiçado.

Gustavo Theodoro

Tragédia Grega

ruinas gregas

Com a aprovação de um pacote de ajuda à Grécia, a novela em que se transformou a crise do euro ganhará alguma sobrevida. Para um analista imparcial, a dívida externa grega parece impagável. Além disso, a contínua aplicação de receitas ortodoxas fez com que o PIB continuasse caindo, tornando o pagamento da dívida mais incerto.

Apoiado pela população grega, o Syrisa prometeu um futuro com menos sofrimento, ou menos austeridade pelo menos. Ganhou as eleições e, até semana passada, parecia disposto a tudo para fazer prevalecer a vontade do provo grego. Eis que essa semana tudo mudou. Com a mudança do ministro da economia, o discurso se moderou e o líder grego, Alexis Tsipras, aceitou o dinheiro da troika em troca de um pacote bilionário de ajuda.

Ao que parece, a receita do medicamento que vinha fazendo o doente definhar foi dobrada. Resta saber se o doente vai sobreviver. O debate está polarizado, o que dificulta o entendimento da situação. Os detratores da Grécia se satisfazem ao lembrar que por anos a Grécia deu pedaladas fiscais, que gastos de atividades ilícitas eram incluídas do PIB e que a disciplina fiscal foi relaxada por muitos anos. Tudo isso é verdade.

Mas é verdade também que há seis anos a receita ortodoxa tem sido aplicada e não se vê possibilidade de saída da crise no curto prazo. É também verdade que os indicadores fraudados da Grécia não evitaram que bancos estrangeiros emprestassem grandes quantias à Grécia, o que provocou a exuberância irracional cujo preço vem sendo pago nos últimos anos.

Recente pesquisa divulgada pela OCDE indica que os trabalhadores gregos são os que trabalham mais horas por semana dentro da zona do euro. É certo que isso tem a ver com a baixa produtividade de sua mão-de-obra, mas não se pode tachar o povo de preguiçoso ou malandro a partir da observação da indisciplina fiscal dos governantes do passado. O interessante da pesquisa da OCDE é que são os alemães os que trabalham menos horas (e são, não por coincidência, os mais produtivos). A Alemanha – ou seus bancos – é a maior credora da dívida grega.

É de se notar que os países da zona do Euro não contam com uma das principais ferramentas para a saída de uma crise dessas, que passaria pela desvalorização da moeda acompanhada de alguma inflação. A Argentina e o Brasil passaram por crise semelhante na década de 1990 e ela só foi superada com o fim da paridade com o Dólar ou com o fim do controle cambial. O câmbio flutuante passou a compor o tripé econômico ortodoxo. Interessante observar que quase não se comenta que a moeda única europeia retira dos países em crise essa possibilidade de ajuste.

O debate entre keynesianos e hayekianos também não ajuda muito a iluminar o debate. Para os discípulos de Keynes, deveria estar em análise a política anticíclica, com expansão dos gastos públicos para controlar a crise no mercado de trabalho. O foco de Keynes sempre foi o emprego, nunca a inflação. Hayekianos tendem a colocar a inflação como centro das discussões, como se fosse esse o grande inimigo a ser debelado (além do “planejamento”, citado com muita frequência pela escola austríaca, mesmo não se tendo por certo seu real significado). Como como adotar a política anticíclica com esse buraco no orçamento? E como ajustar o orçamento com o congelamento cambial?

O jogo político do Syrisa parecia ter objetivos claros: conseguir o máximo da união europeia impondo o mínimo de sacrifícios ao provo grego. A elevação do tom de Tsipras parecia indicar que estávamos diante de dois caminhos: calote combinado de parte da dívida grega em troca de calote combinado ou saída da zona do Euro, para que o câmbio flutuante voltasse a dar competitividade à Grécia.

Ambos os caminhos eram temidos pela União Europeia. Sabe-se que a dívida italiana supera em muito a grega e tem a França como principal credora. O desfecho da situação grega pode afetar significativamente a possibilidade de existência futura do euro. Eram essas as armas que Tsipras parecia estar utilizando.

O plebiscito convocado pelo Syrisa parecia indicar que a Grécia tinha as melhores cartas nas mãos. Assim, é surpreendente que, depois de um jogo político bem feito, a Grécia aceite um pacote de ajuda – que não passa de renovação dos empréstimos – em troca de mais austeridade. Ontem o premier grego se manifestou da seguinte maneira: “Não vou tentar fazer este acordo parecer melhor do que é. É um plano difícil. Eu tive que escolher entre um acordo com o qual não concordava, uma quebra confusa ou a opção de Shäuble, a saída do euro.”

Parece-me que, se Tsipras estava disposto a concordar com “um acordo com o qual não concordava”, o jogo político dos últimos meses deixou de fazer sentido. Quando estava prestes a conseguir algo, optou pelo caminho tradicional, não sem antes inflamar os eleitores gregos, talvez inviabilizando seu futuro político. Kant dizia que quem não sabe o que procura não entende o que encontra. Tsipras acabou de fazer uma bela demonstração dessa máxima.

Gustavo Theodoro