artigo

O Silêncio dos Intelectuais

silencio

Umberto Eco declarou recentemente que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. A fala causou polêmica e, paradoxalmente, gerou muita discussão nas próprias redes sociais. Alguns dos imbecis de Eco o defenderam, outros o atacaram. O termo utilizado pelo romancista teve por efeito jogar sombra sobre uma importante questão de fundo que surge desse debate: a pouca relevância dos intelectuais no debate contemporâneo.

É fato que muito já foi dito sobre o assunto, principalmente no Brasil, pois quando o PT foi eleito a crítica acadêmica dirigida ao Governo Central praticamente cessou. Foram realizadas palestras e publicados livros com o sugestivo título de “o silêncio dos intelectuais”. Para muitos era um fenômeno localizado, decorrente da preferência dos meios universitários pela esquerda, principalmente em decorrência dos anos de ditadura militar.

A redemocratização não foi muito generosa com o País. Eleito Tancredo, assumiu Sarney com seu populismo atrasado. Na radicalizada eleição de 1989, venceu Collor, o caçador de marajás, cassado quando sua popularidade ruiu. Itamar fez um governo de transição. FHC assumiu com ares de príncipe, fez algumas reformas estruturais importantes, mas a âncora cambial do primeiro mandato acabou definindo o segundo. As privatizações deram-lhe a pecha de neoliberal, que me parece injusta. O certo é que o PT representava o primeiro governo realmente de esquerda no período que se seguiu à ditadura.

Os intelectuais, a maioria de esquerda, deixaram de ter relevância no debate que se estabeleceu a partir de então. Seja por tática, para evitar a volta da direita, seja por dificuldade de lidar com a realidade, visto que o discurso pragmático, da “Realpolitik”, parecia ter se imposto. Essa circunstância local nos impediu de perceber que a perda de relevância dos intelectuais era fenômeno global e não resultava apenas desse alinhamento ideológico.

Nunca é demais lembrar que alguns dos melhores filósofos do século XX cometeram erros brutais de análise da realidade. Heidegger apoiou o Nazismo, ou pelo menos demonstrou simpatia pelo regime. Sartre apoiou Stalin, mesmo depois dos processos forjados, e apoiou Mao, em plena “revolução cultural”.

Desde Kant os pensadores universais foram se escasseando. Raros foram os pensamentos e as ideias realmente globais. Essa ausência de absolutos foi prevista por Nietzsche; mas a consequência disso não. Se não se podia recorrer a princípios generalizantes, será que nosso tempo ainda poderia dar relevância aos intelectuais?

Em 1953, Albert Camus revelou esse desconforto. E lançou aos existencialistas a questão: mas será que estávamos certos quando deixamos de buscar conceitos absolutos do bem e do mal? Será que não deveríamos voltar a isso? Sartre desdenhou dessa tentativa, com razão, pois a filosofia não cabia mais em princípios absolutos. Mas a preocupação com o bem deveria habitar a cabeça de cada pensador do mundo, ainda que se tivesse por certo que a tarefa era irrealizável. Camus não era filósofo, não tinha a bagagem de Sartre, mas ainda assim quase sempre esteve mais próximo da verdade do que ele. De todo modo, com o fim da metafísica, com o fim dos absolutos, a verdade se esvaneceu.

A perda da relevância dos intelectuais aliado às modernas possibilidades de comunicação, em que a opinião de especialistas pouco de distingue da voz dos imbecis de Umberto Eco, produziram um mundo muito mais aberto, mas mais perigoso. Temos mais acesso às verdades, mas nos é mais difícil distingui-las. Lembro que os gregos tinham desprezo acintoso pela opinião (doxa), pois ela nos afastava da verdade (aletheia). Ainda que até o conceito de verdade seja objeto de relativização, o preconceito dos gregos revela-se, ainda hoje, muito atual.

Nesse cenário, nossa capacidade de julgar se torna ainda mais relevante e deve ser treinada e exercida diariamente. Para os juristas, julgar é um ato de vontade. Para Kant, é algo inato do ser humano e, muitas vezes, depende muito pouco do raciocínio (tanto que chamou sua crítica ao juízo de crítica ao gosto, se referindo mesmo ao paladar). Em um mundo relativo, essa habilidade deve ser desenvolvida. Pois é a partir do julgamento que são feitas as escolhas importantes de nossa vida: quem são nossos amigos, quais serão nossas condutas, o que deve ser lido, isso tudo deve decorrer sim de escolhas que fazemos a partir de nossos julgamentos.

Os intelectuais não estão em silêncio. É sua importância que foi reduzida. Cabe a cada um de nós desenvolver o senso crítico, desenvolver a capacidade de duvidar e de julgar, para selecionarmos o que vale a pena continuar lendo nessa selva de opiniões em que vivemos. Deixar as redes sociais não é opção. Mas fazer uma boa seleção do que será lido torna-se fundamental. Pois dificilmente teremos um mentor ou um guia que represente exatamente o que pensamos. A perda de relevância dos intelectuais nos coloca a missão ser sermos autônomos e pensarmos por nós mesmos, como ensinava Kant. Nem todos querem esse trabalho, mas os que se dispensam dessa tarefa podem acabar fazendo parte de uma legião de imbecis.

Gustavo Theodoro

Nós Que Amávamos Tanto a Revolução

revolução 1968

O ano de 2013 nos mostrou algo não há bastante tempo não víamos: um grande agrupamento de pessoas reunidas nas ruas, com faixas e slogans, protestando e reivindicando. A falta de liderança e de uma pauta clara, aliada à atuação de grupos violentos, fizeram minguar as manifestações sem que nada palpável fosse produzido. Mas a história nunca é exatamente como parece.

Desde a Revolução Francesa, o mundo ocidental sonha, de temos em tempos, com revoluções. Foi Marx que criou uma teleologia para as revoluções a partir de suas leituras de Hegel: cabia às revoluções fazer a história cumprir o seu destino. As revoluções eram a locomotiva da história. Para ele, o fim da história significava o comunismo. E a revolução de 1848, muito bem descrita por Vitor Hugo, o tirou de sua calma espera, fazendo-o torcer para que a história pudesse ser “acelerada”.

Foi a partir desse insight que Lênin passou a empregar a teoria revolucionária com esse sentido. É uma leitura evidentemente equivocada de Hegel, mas até faz algum sentido: ora, se a história segue uma trajetória e tem uma direção, por que não apressá-la?

Apesar de a lembrança de revoluções sempre nos fazer ecoar as Revoluções Francesa e Russa, raras são as revoluções bem-sucedidas. Bem, não se pode afirmar com certeza que as duas revoluções citadas foram exatamente bem-sucedidas, a não ser por terem conseguido derrubar o poder vigente. Sua consequência é que não teria sido bem-sucedida. De todo modo, elas são exceções, como provam diversos eventos históricos, como a revolução de 1848 em Paris, a Primavera de Praga, de 1968, os Protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989, e mesmo aquelas tidas por vitoriosas, como as manifestações promovidas pelo movimento Solidariedade, na Polônia.

Hoje sabemos que o comunismo ruiu em 1989 e com ele caíram quase todos os regimes ditatoriais da cortina de ferro. Mas nos anos 1980 eram poucos os analistas que apostavam na derrocada no regime. Em 1981, dez milhões de pessoas tomaram as ruas da Polônia. Parecia a todos um movimento vencedor, uma revolução daquelas que jovens de todo o mundo almejavam na segunda metade do século XX. No entanto, apesar da maciça adesão, da liderança reconhecida, do apoio internacional e de terem uma causa bem definida, em 1982 o movimento seguia na clandestinidade, com seus líderes presos.

Por vezes, um movimento derrotado pode ser mais eficaz do que uma desorganizada vitória. As raízes que isso provoca na sociedade, a reviravolta definitiva na opinião pública, a consciência generalizada de que o rei está nu, tudo isso às vezes se torna mais evidente com o passar do tempo. Prefiro distinguir os termos poder, força, autoridade, que muitas vezes são utilizados de forma indistinta. De todo modo, nem todos os fazem e vou deixar isso de lado no momento. Foi Václav Havel, líder Tcheco, a destacar “o poder dos que não têm poder”, que se trata de incitar as pessoas a viver “como se tivessem liberdade” e “como se pudessem ter uma vida normal”. É o Guörgy Konrad chamou de “antipolítica”, uma qualificação bastante singular.

Pois é evidente que qualquer desses movimentos é, essencialmente, político. Se há poder envolvido – e aqui denomino poder a capacidade de agregar pessoas em torno de uma ideia, e não o exercício de um cargo -, é de política que estamos tratando.

Tempos modernos potencializaram apenas a velocidade dos acontecimentos, na medida em que são capazes de fazer as informações circularem com mais rapidez. Além disso, as redes sociais permitiram a criação de novos espaços públicos, envolvendo pessoas que antes jamais se comunicariam. A criação de espaço público, com liberdade de expressão, evidentemente aumenta o poder dos quem não têm poder. E talvez seja este fato que esteja escapando a muitas autoridades constituídas.

Tanto aperto foi imposto à Grécia que sua população acabou elegendo pessoas de fora da política convencional com o objetivo de romper com a troika. Tanta ênfase foi dada ao ajuste fiscal que o velho bipartidarismo espanhol ruiu, a partir do movimento de rua dos Indignados, que foi base da formação do novo partido político Podemos. Diante da nova realidade, as velhas autoridades aplicam maior dose dos velhos métodos, que já não estavam funcionando, agravando as crises.

Estamos todos aprendendo a viver nesses novos tempos. Aqui no Brasil há sinais de que movimentos semelhantes podem ser desencadeados. Faltam ainda liderança e uma pauta bem definida. Mas é um erro pensar que os movimentos derrotados ou que não geraram frutos visíveis foram ultrapassados como se não tivessem acontecido. O melhor exemplo disso talvez seja mesmo a Polônia, de Walesa, cujo movimento foi derrotado inicialmente, mas a semente plantada ganhou forças. Aos que tiveram a vitória parcial, não nos custa lembrar o velho adágio latino que diz que aqueles que não aprendem as lições da história estão condenados a repeti-la.

Gustavo Theodoro

Colaboracionismo

submissao-featured-620x435

“Submissão” é um dos livros mais badalados do ano. Escrito pelo polêmico romancista Michel Houellebecq, o livro retrata uma distopia futurista – mas nem tanto, pois os fatos se passariam em 2017 – em que uma “fraternidade muçulmana” venceria apertada eleição e iniciaria um processo de conversão da França ao Islã.

Ainda que eu considere a transição muito rápida e inverossímil, o livro provoca um grande mal-estar ao nos revelar a fragilidade de nossos sistemas democráticos e mesmo de nossa civilização, particularmente com o atual estado de espírito dominante no mundo ocidental.

Habita pouca fé no homem contemporâneo. A escola da dúvida fundada por Descartes levou o homem em buscar substitutos para a “decadente” religião. A ciência, o progresso, a liberdade e alguns outros conceitos abstratos ocuparam esse vazio. Mas foi o marxismo que parecia mais bem equipado para servir como alternativa para eterna sede da humanidade por “algo mais”.

Pois o marxismo vê o mundo capitalista como um período de sofrimentos que culminará em um regime solidário, igualitário, sem chefes nem patrões e sem exploração do homem pelo homem. Muitas religiões adotam o mesmo ponto de vista, buscando dar conforto aos que sofrem no presente com a promessa de uma compensação futura.

Com a derrocada do marxismo, do leninismo, do trotskismo e, mais recentemente, do brizolismo, do malufismo e do petismo, adentramos em uma época de profundo niilismo, em que só o consumismo, o egoísmo e o hedonismo parecem prevalecer.

Enquanto o marxismo e as demais ideologias até conseguiam se portar como substitutos à altura da religião, a mais recente família de “ismos” só trouxe à humanidade mais insatisfação e infelicidade. A satisfação da compra não dura uma hora. A beleza ou a saúde são sempre frágeis, precárias, e tendem a se degradar com o tempo. Não há perspectivas de se ter “uma boa vida” com esses valores.

Para os marxistas, o homem contemporâneo não tem alma. É o típico apolíneo, despido da coragem essencial. Foi Slavoj Zizek quem recentemente reproduziu passagem de Nietzsche para descrever o homem que vive em uma sociedade liberal ocidental. Segue abaixo:

Tendes coragem, ó meus irmãos? Sois ousados? Não a coragem que se tem diante de testemunhas, mas a coragem do solitário e da águia, de quem nenhum deus já é o espectador. As almas frias, as mulas, os cegos, os homens embriagados, não têm o que eu chamo de coração. Tem coração aquele que conhece o medo, mas o domina, aquele que vê o abismo, mas altivamente. Aquele que vê o abismo, mas com olhos de águia – aquele que agarra o abismo com garras de águia: esse é o corajoso.

Os marxistas estão em baixa. Mas seguem se interessando pelos melhores autores. De alguma forma, esse homem niilista e hedonista, fraco e apolíneo, parece, em contrapartida, mais domesticável, estando, portanto, mais disposto a cometer o mal banal de que tanto tratou Hannah Arendt. É nesse sentido que o livro de Houellebecq parece mais realista. Pois não é a submissão o traço mais dominante da sociedade ocidental, mas sim o colaboracionismo. Nesse sentido, há requintes de crueldade no tratamento do autor à situação atual da França, pois a experiência do século passado fez com que aquele país tentasse, a todo momento, reescrever seu passado.

Ao invés de retratar a hegemônica colaboração dos franceses com os Nazistas, foram as histórias da minguada resistência francesa que até hoje prevaleceram. A distopia de Houellebecq parece indicar que estamos tão ou mais suscetíveis ao mal banal do que já estivemos no passado. Não que a Irmandade Muçulmana represente, de alguma forma, o mal. Mas o retorno a um estado religioso, com renúncia a nossas liberdades essenciais, de alguma forma abre as possibilidades de retorno a qualquer cenário pior do que o atual. Pois esse homem contemporâneo, hedonista e consumista, parece revelar características pusilânimes em grau superior aos antigos. E o editorial de ontem da Folha de São Paulo viu semelhanças entre o fenômeno contemporâneo brasileiro, com uma aparente volta de teses conservadoras de raiz fundamentalista, e a distopia apresentada pelo livro de Houellebecq.

É certo que generalizações tendem a ser repletas de imprecisões. Para muitos, falar em “homem moderno” não passa de rematada bobagem. Além disso, há autores, como Steve Pinker, que demonstram com riqueza de dados que a maldade, os assassinatos e os crimes parecem estar diminuindo com o passar do tempo em todo o mundo. Sem a presença marcante do mal absoluto, será que podemos falar de uma tendência de aumento do colaboracionismo, do mal banal e da submissão? Não sei. Parecemos estar no meio de uma caminhada e o horizonte ainda está indistinguível. O que nos resta é refletir enquanto estamos vivendo. E reconhecer que O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ainda é a distopia que mais bem conseguiu antever o futuro da humanidade.

Gustavo Theodoro

O Triste Fim dos Corruptos

Serpico

Dias após proferir entusiasmado e destemido discurso após sua eleição, Joseph Blatter decidiu renunciar à Presidente da FIFA após a sinalização dos órgãos de repressão americanos de que ele seria o próximo a ser preso. Interessantes tempos esses em que vivemos.

Há cerca de dois anos vimos, aqui mesmo no Brasil, uma banqueira ir para a cadeia. Kátia Rabello, presidente e acionista majoritária do Banco Rural, foi presa. No ano passado, presidentes e diretores de algumas das maiores empreiteiras do Brasil foram presos. Diretores da maior empresa estatal do País foram também encarcerados e revelaram a abrangência do esquema. É muita sinalização positiva para ser simplesmente descartada. São prisões simbólicas, emblemáticas, que criam cultura.

No campo das leis, o País segue evoluindo muito. Jogar luz sobre aquilo que se pretende esconder pode ajudar no combate à corrupção, mas também evitar o nascimento de novos casos. Nesse sentido, a edição da Lei de Acesso à Informação é das mais importantes conquistas de nossa sociedade. É digno de nota, ainda, a Lei Anti-Corrupção, já aprovada, mas ainda não regulamentada pela União. Ainda assim, a lei já tem sido aplicada no âmbito penal.

A Lei de Improbidade Administrativa, um pouco mais antiga (1992) ajuda os órgãos de repressão a combater o enriquecimento sem causa, tantas vezes observado entre servidores públicos detentores de autoridade administrativa ou poder de polícia. Aliás, nessa área é que se deu a maior evolução.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 tornaram visível ao mundo a importância de se controlar recursos decorrentes da prática de crime. As leis que tratam de lavagem de dinheiro endureceram em todo o mundo, criando um problema adicional aos criminosos do colarinho branco. No Brasil não foi diferente, sendo nossa lei vigente bastante adequada.

Seja qual for a atividade criminosa, todo bandido se vê diante da necessidade, em algum momento da vida, de regularizar os recursos roubados. Pois de nada adianta roubar tanto dinheiro se não é possível incorporá-lo ao patrimônio ou deixá-lo para os herdeiros. Há um momento em que isso se faz necessário. Gastar em viagens, hotéis de luxo, aluguel de iates, prostíbulos, amantes e restaurantes caros, tudo isso começa a não bastar. Tampouco guardar o produto do roubo em distantes e quase inacessíveis paraísos fiscais se revela desejável.

Além disso, guardar numerário fora do país pode colocar o fora-da-lei na mira do FBI e do aparelho repressivo internacional. O sujeito pode ser preso em país estrangeiro e acabar seus dias em um presídio americano.

As velhas práticas de simular a compra de imóvel por valor inferior para depois revendê-lo pelo preço de mercado já foram descobertas pelos órgãos de repressão. Há muitos documentos envolvidos e o próprio pagamento de imóvel em numerário já é indício de recurso proveniente de crime, assim como o subfaturamento. Não é tarefa difícil descobrir o valor de mercado de bens imóveis.

Corridas de cavalo, loterias, as próprias atividades de prestação de serviços muito utilizadas no passado (como as lavanderias, por exemplo), compra e venda de gado e agora até a compra e venda de jogadores de futebol, tudo isso desperta o interesse dos órgãos de repressão e essas atividades começam, com o tempo, a ser abandonadas pelos meliantes.

Há, ainda, muito o que se fazer. Mas é inegável que estamos testemunhando tempos difíceis para os corruptos e criminosos de colarinho branco em geral. Lavar dinheiro é cada dia mais difícil. Nesse contexto, é interessante relembrar um antigo caso envolvendo a NYPD.

A história de Francesco Vincent Sérpico foi retratada no belo filme de Lumet, estrelado por Al Pacino. Sérpico era policial na corrupta cidade de Nova York dos anos 1960 e 1970. Em 1971, em uma ação de combate ao tráfico de drogas, Sérpico foi abandonado por seus colegas policiais corruptos para morrer na troca de tiros com os traficantes. Baleado, sem receber ajuda de seus colegas de farda, foi salvo por um civil, um cidadão comum, que chamou a ambulância e salvou-lhe a vida.

Hospitalizado, recebeu diversas sinalizações de seus colegas de que ele seria recompensado financeiramente caso decidisse não prestar testemunha sobre o caso. Além dessas ofertas, foram-lhe feitas algumas ameaças veladas. Sérpico testemunhou, conseguiu a prisão de diversos colegas de farda corruptos, tendo sido, ao final, condecorado pela polícia de Nova York. Sua história foi contada pelo New York Times. Foi durante esse processo que ele proferiu sua famosa frase: “É o corrupto que deve ter medo do honesto, e não o honesto quem deve ter medo do ladrão.”

Gustavo Theodoro

Da Coerência Política

Romney-cartoon-double-speak

Não se discute mais o estelionato político do PT. Está claro que o partido prometeu um cardápio, mas está entregando um prato diferente. Isso é fato. Espanta-me, no entanto, que a oposição, que denunciou o estelionato eleitoral do PT, se comporte de forma semelhante. Como pode o PSDB votar contra o ajuste fiscal e contra o fator previdenciário que eles próprios criaram?

Sei que vão me dizer que eu não deveria esperar nada mesmo de políticos, que são todos iguais, que na situação defendem a manutenção do poder e na oposição apostam no quanto pior melhor. Pode ser. Mas isso não nos impede de fazer uma cobrança por coerência. Nessa confusão em que estamos, torna-se impossível apoiar qualquer grupo.

É certo que a história nos ensina que pessoas excessivamente coerentes, muito racionais e éticas, não costumam ter grande sucesso na política. Pois a política exige, sempre, capacidade de recuar, de transigir e de compor. Mas o que ocorre em nossa política atual é muito mais do que isso. Há uma completa inversão de papéis, justificada por uma visão política de curto prazo, voltadas a paixões imediatas.

Sim, Robert Aron disse que, há algumas décadas, que é uma ilusão da experiência do nosso século supor que os homens sacrificarão suas paixões a seus interesses. É um pensamento inovador e surpreendente, mas muito aplicável ao momento atual. Era de conhecimento da maioria dos economistas que a política desenvolvimentista do Governo Dilma nos levaria ao ajuste fiscal de agora. A paixão pelo ideário igualitário, distributivista, com forte papel estatal, nos conduziu a esse desajuste que ora se apresenta, comprometendo os próprios interesses do PT.

Ao mesmo tempo, o PSDB, ao contribuir para o agravamento da situação das finanças públicas pelos próximos anos, não atua em favor do País. De certa forma isso pode aumentar suas chances eleitorais, mas adiciona dificuldade a um eventual futuro governo seu. Nesse deserto de estadistas, são as raposas que se criam e dominam o cenário. Enquanto assistimos à derrocada de PT e PSDB, é o PMDB que passa a dar as cartas. Alguém pode estar satisfeito com isso?

Gustavo Theodoro

Afinidades Eletivas

livre_arbitrio

Recebemos como herança cultural uma sobrevalorização do livre arbítrio, que tem por resultado vincular nosso destino a nossas escolhas. “Somos condenados a ser livres” e “o homem é responsável por si próprio” são expressões de Sartre sobre esse suposto fardo da responsabilidade por nossas escolhas.

No entanto, o “liberal conservador” – sempre tenho gosto especial em juntar essas expressões – John Gray, em seu Cachorros de Palha, nos revela que o livre arbítrio talvez tenha essa importância em nossa sociedade devido à herança cristã. Pois a religião nos ensina que foi por escolher a árvore da sabedoria que o homem vive nesse “mundo de dores e sofrimentos”.

De certa maneira, os existencialistas ateus rejeitaram a religião, mas se apropriaram dos conceitos dela ao ressaltar a importância das nossas escolhas para a vida que vivemos no momento. “Somos escravos de nossas escolhas”.

John Gray nos lembra que não escolhemos onde nascemos, nossa língua materna, nossa personalidade ou o quanto inteligente somos. Tudo isso nos é dado, sem nenhum questionamento. Muitas das escolhas que fazemos se devem à nossa herança genética, a nosso ambiente cultural ou a outro motivo alheio à nossa racionalidade. E boa parte do que é nossa vida não tem interferência nossa.

Apesar disso, é de se reconhecer que cabe a nós alguma responsabilidade sobre as amizades que escolhemos, o emprego a que nos sujeitamos ou a vida que levamos. E é em momentos de crise que temos condições de aferir a qualidade de nossas escolhas, seja para refazê-las ou para refutá-las. Pois ainda que não sejamos inteiramente responsáveis por nossa vida ser como ela é, inegavelmente há significativo espaço para atuação do livro juízo.

Momentos de crise aproximam as pessoas. Surge espaço para atuação política, pois crise implica algum tipo de mudança e a criação de algo novo. Não se cria algo novo, dentro de um espaço público, sem a combinação de interesses das pessoas, sem a atuação em conjunto, sem o fortalecimento de um espaço público, onde a atuação, afinal, ganha significado. Foi Platão que disse que é impossível agir sem amigos e companheiros confiáveis.

Esse tipo de atuação é tão importante, como já foi registrado diversas vezes da história, que aqueles que vivenciam uma crise com atuação conjunta, mesmo com sérios riscos à vida, sentem perda de significado na vida quando tudo termina, ainda que a atuação das pessoas em comum tenha produzido algo.

René Char atuou por quatro anos na Resistência Francesa, que buscava combater o Regime de Vichy, a França Nazista, durante a Segunda Guerra. Após a guerra, na formação da Terceira República, ele se sentiu vazio, como se a vida fosse aquela ação articulada, conjunta, fundada em sólidas amizades que buscavam a libertação do jugo Nazista. Nada parecia mais tão interessante quanto aquela vida que viveram. Ao se deparar com essa nova vida, ele se manifestou: nossa herança não nos deixou nenhum testamento. Para ele, o mundo após aquele momento apresentava uma opacidade triste, como se o seu cotidiano particular não importasse mais.

Eu ainda devo voltar a tratar do sentido da vida. Mas não é esse meu interesse no momento. Aos que vivem crises e momentos de grande turbulência, com o surgimento desses espaços públicos que propiciam o nascimento de alianças em busca da construção de algo novo, o único conselho que posso dar é para que aproveitem o momento. Por mais difícil que seja, o momento é propício para o estreitamento de laços, para a revelação de pessoas sem qualidades (que devem ser afastadas), para reencontro de cada um com seus valores e para desenvolvimento de um sentimento de pertencimento ao mundo que talvez seja inédito na vida de cada um. É nesses momentos em que é possível eleger as afinidades que lhe são valiosas, pois as amizades surgidas nesses momentos podem ser eternas.

Nesse sentido, talvez seja o caso de dar ao livre arbítrio o valor que ele merece. Se é fato que não podemos escolher tudo sobre nós mesmos, há algumas escolhas que podem fazer diferença para o resto de nossas vidas, independentemente do resultado que tenham. O mundo nos concede poucas oportunidades de desvelamento, de conhecimento de algumas verdades muito bem escondidas. Se feita a escolha certa, o mundo pode se abrir a nosso conhecimento de forma inédita durante graves crises. E as alianças formadas nessas condições são inquebrantáveis.

Gustavo Theodoro

Teoria de Tudo

universo

O imenso desenvolvimento científico dos últimos séculos reduziu o interesse pela metafísica, pelas religiões e pelo incognoscível. Um mundo envolto em sobras e mistério gradualmente foi se transmutando em uma terra de certezas e de fenômenos plenamente explicáveis. O espírito de nosso tempo nos informa que os fenômenos inexplicáveis provavelmente serão desvendados com a evolução do saber científico.

É nesse contexto que o homem segue sua busca por uma teoria única que seja aplicável a qualquer situação. Como se sabe, a física quântica descreve de modo formidável o que ocorre no mundo microscópico. E a física quântica convive bem com o eletromagnetismo (que gerou a eletrodinâmica quântica) e com as forças nucleares forte e fraca.

Dos quatro campos de força plenamente conhecidos, o chamado modelo padrão (Standard Model) conseguiu reunir, em uma só teoria, a física quântica às forças nucleares forte e fraca. Não há físico importante do século XX que não tenha tentado incluir as forças gravitacionais a esse modelo, em algo que ganhou o nome de Teoria de Tudo.

Einstein foi o grande físico do século XX. Além dos famosos quatro artigos publicados em 1905, sua teoria da relatividade geral é algo que só poderia sair de uma mente brilhante. A gravitação universal de Isaac Newton funcionava bem até então e ninguém pensava que ela precisava de ajustes. Não havia experimento que indicasse alguma incorreção em seus pressupostos e em sua formulação, ainda que a teoria do éter de Newton e a ação da distância da gravitação fossem conceitos que nos escapassem.

Mas Einstein teve acesso à matemática riemanniana, uma elegante formulação que lhe permitiu trabalhar com maior número de dimensões. Como a relatividade especial já havia revelado que o tempo poderia se modificar em função da velocidade do observador, talvez fosse necessário tratá-lo dessa forma em uma teoria da gravitação. Apropriando-se dessa ferramenta matemática e utilizando-se das métricas já desenvolvidas pelos estudiosos de matemática pura, Einstein desenvolveu uma teoria absolutamente inovadora, relacionando os campos gravitacionais à geometria e, o insight mais conhecido, relacionando a massa à energia, na famosa equação E=mc².

O desenvolvimento da relatividade geral foi um feito para a ciência. Ela abrangia a gravitação universal de Newton e conseguiu prever a ação da gravidade sobre a luz, algo até então impensável. Apesar de seu sucesso, a próxima ambição seria unir a relatividade geral à física quântica. Mas tarde, o objetivo passou a ser unir o modelo padrão à gravitação. Einstein passou o resto de sua vida atrás disso. Nunca conseguiu sequer se aproximar de uma teoria de tudo.

Stephen Hawking especializou-se no estudo de buracos negros, que são objetos extremamente massivos que provocam a atração de toda massa que dele se aproxima. Eles são chamados negros, pois deles nem a luz consegue escapar. O interesse em seu estudo se deve ao fato de que, nas bordas dos buracos negros, a força gravitacional é tão forte que pode se equalizar à força quântica.

A maior dificuldade é conseguir obter dados diretamente dos buracos negros, pois qualquer informação que tenhamos dele é indireta, por meio das radiações emitidas pelos corpos que serão absorvidos pelo seu campo gravitacional. Apesar de Hawking ter avançado muito nessa área, não só os buracos negros, mas também o universo, continuam sendo um mistério.

Para muitos, os buracos negros são portas de entrada para outros universos. E os quasares, as portas de saída. A recente descoberta da enigmática matéria escura nos faz retroagir acerca das certezas que tínhamos há trinta anos. Mais recentemente, é a energia escura que mobiliza os cientistas, pois ela é a maior constituinte do universo, desconhecida, mas necessária para explicar a contínua expansão do universo. No cenário atual, os saltos promovidos por Einstein e Hawking nos levaram a uma encruzilhada de matéria e energia escuras. Nossas certezas de alguns anos atrás gradualmente se transformaram em dúvidas. Com isso, há campo aberto para as especulações de toda ordem.

A epistemologia nos ensina que quando diversos fenômenos passam a não mais ser explicados pela teoria, o erro não está no fenômeno. Minha intuição é a de que está chegando o momento em que aparecerá uma nova teoria para descrever o universo. É isso ou voltar a acreditar no mundo mágico e nos universos paralelos. Você, aporético, o que prefere?

Gustavo Theodoro

Os Ensinamentos da Grécia

desemprego_ok

Desde 2010 a União Europeia tem imposto um rigoroso programa de austeridade à Grécia. A crise de 2008 revelou a fragilidade de sua economia. O déficit e a dívida pública grega já estavam fora de controle antes da crise. Mas foi a crise que revelou a gravidade da situação. O programa de austeridade imposto pela autoridade monetária da UE teve efeito direto sobre a vida das pessoas. A economia passou por sete anos de recessão e a situação fiscal só se agravava enquanto mais sacrifícios eram exigidos da população grega.

A maioria dos economistas defende o acerto das medidas impostas pela troika. Frases como “o país não pode gastar mais do que arrecada” e “não há almoço grátis” podem atrair a atenção de leitores, mas não devem balizar o comportamento de governos. Economia é assunto complexo e sujeito a interpretações e pontos de vista. Na zona do Euro, os remédios ortodoxos podem não funcionar. E eu explico o porquê.

Há algumas ferramentas que economias em crise fiscal podem adotar quando administram suas próprias moedas. Países em crise normalmente observam saída de divisas. A saída de divisas desvaloriza suas moedas, que pode resultar em redução nas compras externas e aumento das exportações. A desvalorização da moeda, em país integrado aos demais mercados, provoca alguma inflação. Inflação persistente deve ser rigorosamente controlada. Mas a inflação decorrente da desvalorização da moeda, pontual, pode auxiliar os governos a ajustarem suas contas.

Como a Grécia está na zona do Euro, não tinha a sua disposição esses mecanismos. Ao adotar a receita ortodoxa, o efeito sobre a população grega foi mais profundo do que os choques promovidos pelo FMI nos países em desenvolvimento nos anos 1980 e 1990. O desemprego chegou a 27%. A dívida pública foi a 170% do PIB. O déficit público chegou a 20% do PIB. São números impressionantes, já que para entrar na zona do Euro é exigido que os países apresentem dívida de no máximo 60% e déficit de até 3% do PIB (interessante observar que o Brasil não seria admitido na Zona do Euro com seus números: dívida de 68% e déficit de 8% d PIB).

Quando os números da economia grega começaram a melhorar, a população cansou-se da receita. Exigia que o ajuste de agora em diante fosse feito sem que tanto sofrimento fosse imposto à população. Economia não se trata de mera manipulação de números. São pessoas que, ao final, definem a continuidade de uma política ou de um Governo. O limite da população grega chegou. Resta saber qual será a reação de Alemanha e França.

Sobre esses países é interessante relembrar que em 2004 nenhum dos dois conseguiu atingir as metas impostas pela autoridade econômica europeia. O descumprimento das metas é sujeito a multas. O Banco Central europeu aplicou a multa, que simplesmente não foram pagas pelos dois países. Ou seja, quando a Alemanha e a França se viram diante da necessidade de aplicar um plano de cortes para garantir o atingimento das metas impostas pela UE, os governos de seus países preferiram não sacrificar tanto suas populações. Quando veio a conta, Alemanha e França desafiaram a autoridade da União Europeia. É sob a sombra desse passado que o rigoroso regime de austeridade foi imposto à Grécia. E é a Alemanha que tem se mostrado inflexível quanto à disciplina fiscal grega.

O resultado disso tudo era esperado. Um partido que nasceu de um conglomerado de grupos marxistas, trotskistas, maoístas e anarquistas venceu as eleições gregas e declarou que a população grega teria prioridade a partir daquele momento. Esse fato político é uma aula para os que pensam que economia é uma ciência dura, de equações, fórmulas e números. Esse aspecto de ciência social já deixou de ser percebido por diversas vezes nos últimos anos. Recentemente o parlamento italiano indicou um técnico para conduzir o país. Armado de ortodoxia e pouquíssimo carisma, seu governo foi curto.

A crise grega é, também, a crise do estadista, que se reflete na falta de pessoas capazes de liderar, de dar confiança para que a população vença os desafios, mas com suficiente sensibilidade para perceber os limites de sacrifícios que podem ser impingidos. O fracasso grego revelou o fracasso da receita econômica não só pelos seus fundamentos, mas principalmente pela cegueira ao perceber sua inextrincável relação com a política.

Gustavo Theodoro

O Filósofo do Martelo

Nietzsche

Nietzsche sempre foi um filósofo desconcertante. Dono de estilo inconfundível, teve em Shopenhauer seu primeiro mestre. Apesar de ter lido Kant, desde cedo Nietzsche desprezou a pompa de sua filosofia, seu aspecto formal, suas regras e seus imperativos. Além disso, Nietzsche percebeu rapidamente a principal fragilidade da filosofia de Kant: sua incapacidade de se livrar da Metafísica e de Deus (ainda que Kant continuamente desdenhe essa necessidade).

Nietzsche fez sua carreira descontruindo ídolos. Com o amadurecimento intelectual, passou a rejeitar também Shopenhauer, a quem designava por velho filósofo. Afastou-se de Wagner, por quem teve uns anos de encantamento por sua música e por sua cultura. Foi para ele que escreveu o Crepúsculo dos Ídolos após ter rompido relações com o músico.

Assim como Kierkegaard, Marx e Dostoievski, conseguiu perceber o dilema introduzido pela escola da dúvida de Descartes, dúvida que havia penetrado de modo definitivo na cultura ocidental a partir do desenvolvimento das ciências duras. Se Deus não existia ou se Deus estava morto era necessário rever toda a velha filosofia construída até aquele momento.

Para isso, pensava Nietzsche, era necessário não transigir, não ser condescendente, ainda que o mundo não fosse agradável à vista do filósofo. Por diversas vezes, Nietzsche fez referência ao martelo, ferramenta que tudo destrói. Era isso: para Nietzsche, vivemos em um cemitério de pensamentos superados e teríamos que ter coragem para enfrentar essa realidade. Cito abaixo o quase clamor de Nietzsche, exortando a humanidade a sair do conformismo das ideias banais ou superadas e ir além:

Tendes coragem, ó meus irmãos? Sois ousados? Não a coragem que se tem diante de testemunhas, mas a coragem do solitário e da águia, de quem nenhum deus já é o espectador. As almas frias, as mulas, os cegos, os homens embriagados, não têm o que eu chamo coração. Tem coração aquele que conhece o abismo, aquele que vê o abismo, mas altivamente. Aquele que vê o abismo, mas com olhos de águia – aquele que agarra o abismo com garras de águia: esse é corajoso.

Nietzsche, como se sabe, teve coragem, mas não conseguiu construir uma nova filosofia a partir das relíquias que encontrou. Sim, no uso do martelo foi muito mais eficiente, mas o trabalho de reconstrução não encontrou fundações sólidas. E esse é o risco do legado de Nietzsche. Por não ser conclusivo, pode ser apropriado e perigosamente utilizado, como o foi no Nazismo. Por isso sempre aconselho: leia Nietzsche, mas leia com cuidado.

Gustavo Theodoro

House of Cards

Eduardo Cunha Frank Underwood

Na série americana House of Cards, Frank Underwood (cujo personagem é defendido pelo excelente Kevin Spacey) é um congressista que havia oferecido apoio ao candidato a Presidente. Em troca, seria nomeado Secretário de Estado de seu futuro Governo. Ao assumir a Presidência, o acordo não foi cumprido. Em toda a primeira temporada, Frank torna mais difícil a vida do Presidente ao mesmo tempo em que cria uma situação que lhe permite assumir a vaga de Vice-Presidente da República.

Na segunda temporada, valendo-se de subterfúgios, dissimulação, mimetismo, acompanhados de sua extraordinária capacidade de articulação e de nenhum valor moral, consegui impor a renúncia do Presidente da República. A segunda temporada termina com Frank Underwood assumindo a Presidência dos EUA.

Eduardo Cunha, atual Presidente da Câmara, é exímio político conservador que conseguiu amplo domínio sobre a Câmara dos Deputados. O Governo Dilma soltou suas feras e abriu o cofre do palácio para derrotá-lo, mas isso só acirrou o conflito.

O atual Presidente da Câmara é um político atento a oportunidades. Esteve com o PDS quando ele era Governo em 1982. Esteve com o PRN de Collor em 1990. Depois do impeachment, passou a fazer parte do time de Garotinho quando este foi Governador do Rio de Janeiro. Brigado com Garotinho, refugiou-se no PMDB, onde sua influência – e ambição – só fez crescer. Após sucessivos mandatos, já no primeiro Governo Dilma começou a causar as primeiras dificuldades dentro da própria base na aprovação dos projetos de interesse do PT.

Além de ter visto sua influência sobre as bancadas governistas aumentar, Eduardo Cunha mostrou-se muito habilidoso na arte de arrecadar recursos para campanha. Tamanha opulência permitiu que ele direcionasse recursos para seus aliados.

Radialista competente, já deu mostras de que sua Presidência não será indolor para o Governo Dilma. Na CPI da Petrobras, um aliado seu deve assumir o posto de Presidente. Nunca é demais lembrar que Dilma está perigosamente perto do enrosco da Petrobras. Ela foi Ministra das Minas e Energia e foi Presidente do Conselho de Administração na época em que as piores decisões foram tomadas. Como Presidente da Câmara, Eduardo Cunha é o terceiro na linha sucessória. O Vice é Michel Temer, do mesmo PMDB de Eduardo Cunha.

Daqui onde vejo as coisas, penso que ninguém deve se surpreender se Eduardo Cunha iniciar um processo tendente a levar, em algum tempo, ao impedimento da Presidente Dilma. Por escolha do próprio PT, o PMDB é o principal aliado do Governo Federal. Ocorre que, ao sentir cheiro de sangue, os tubarões se agitam e a balança do poder começa a se verter. Mais rapidamente do que poderíamos imaginar. As semelhanças entre Eduardo Cunha e Frank Underwood são evidentes. Quem teme um golpe da oposição pode estar olhando para o lugar errado.

Gustavo Theodoro